Do jornal socialista A Justiça (08 de julho de 1925)

Filippo Turati

Era verdadeiramente um homem esse Píer Giorgio, que a morte aos 24 anos arrebatou cruelmente, rápida como um ladrão apressado. O que se lê sobre ele é tão Novo e insólido que enche de reverente admiração mesmo aqueles que não partilham sua fé. Jovem, rico, escolhera para si o trabalho e a bondade. Crente em Deus, professava a sua fé com aberta manifestação de culto, concebendo-a como uma milícia, como uma farda que se veste aos olhos do mundo, sem trocá-la jamais pela roupa habitual, por comodismo, por oportunismo, por respeito humano. Convictamente católico e associado á juventude católica universitária da sua cidade,desconfiava dos modelos simplistas dos céticos, dos vulgares, dos medíocres, participando das cerimônias religiosas, seguindo em cortejo o baldaquim do arcebispo em ocasiões solenes. Quando tudo isso é manisfestação tranqüila e firme do próprio convencimento e não representação ostentosa com outros propósitos, é belo e honroso. Mas como distinguir a confissão da afetação?
Aí está: a vida é o termo de comparação entre palavras e atos extremos que valem muito mais que as palavras. Esse jovem católico era antes de tudo um cristão e traduzia as suas opiniões místicas em obras vivas de bondade humana, em atos constantes de piedade.Pode-se avaliar de modo diferente a eficácia social da caridade, ma não se pode desconhecer o seu mérito, quando ela é exercida com o coração puro e não como um entorpecente ou diversivo ou preventivo,mas como assistência imediata à desventura, sem outra finalidade ou outras intenções que não a expressão de um dever sinceramente sentido e de um amor fraterno.

*Fundador do Partido Socialista Italiano.

Reflexão sobre um dos patronos da Jornada Mundial da Juventude

Bispo Fisher

SYDNEY, segunda-feira, 14 de julho de 2008 (ZENIT.org).- O beato Pier Giorgio Frassati, grande desportista, que viveu na caridade e na generosidade há um século, inspirará a vida desta geração, considera o coordenador da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).Foi o que declarou o bispo auxiliar de Sydney, D. Anthony Fisher, no dia 4 de julho, na igreja St. Benedict, por ocasião da festa do beato, na presença de suas relíquias. O cardeal George Pell, arcebispo de Sydney, presidiu a celebração eucarística.

O corpo do beato, um dos dez patronos da Jornada Mundial da Juventude de Sydney, foi trasladado de Turim a Sydney para o evento. As relíquias não haviam deixado a cidade piamontesa desde a morte de Frassati, em 1925.

O corpo, encontrado incorrupto sessenta anos depois de seu sepultamento, será venerado na catedral St. Mary até o dia 22 de julho.

«Pier Giorgio realizou em pouco tempo extraordinários progressos na fé, na esperança e na caridade», afirmou o bispo Fisher.

O prelado recordou que, quando João Paulo II beatificou Frassati em 1990, definiu-o como «um homem de nosso século, o homem moderno, o homem que amou muito».

«As fotografias em nossa igreja mostram um belo e forte jovem com olhos penetrantes e um sorriso contagioso –acrescentou o bispo. Cheio de alegria e energia, cheio de Deus e com a paixão de compartilhá-lo com os demais: frente a isto, sua morte, aos 24 anos, foi uma trágica perda».

«E, contudo, estamos aqui, do outro lado do mundo, celebrando-o, por causa daquilo que ainda hoje nos diz. Agora ele vive há 107 anos».

O bispo Fisher contou também como chegou a conhecer o beato. «Encontrei-o pela primeira vez em quadros de capelanias universitárias da Austrália». «Os jovens sentiam-se atraídos pelo modo como fazia apostolado inclusive indo a cavalo e escalando montanhas, indo a festas e brincando na piscina. As jovens pareciam atraídas por seu aspecto e seu caráter».

«Os jovens católicos gostavam da idéia de poder ser santo também desde jovem e poder unir a paixão por Deus e o serviço aos demais com o desejo normal de diversão de um jovem».

O bispo contou brevemente a história do santo, nascido em 1901, em uma família rica de Turim. O pai era agnóstico, a mãe católica, ainda que «não tivesse a devoção ou a caridade [do filho]», disse o bispo Fisher.

«Não gostava que seus pais não compreendessem sua piedade e tivessem um matrimônio difícil –disse o bispo. Como muitos jovens hoje, tinha de encontrar dentro de si aqueles dons do Espírito Santo que o levariam à maturidade».

«Deu o dinheiro recebido por sua licenciatura aos pobres –acrescentou o bispo Fisher. Quando seus amigos lhe perguntavam por que viajava na terceira classe dos trens, respondia com um sorriso: “Porque não há quarta classe”».

O bispo australiano contou que o Pe. Martin Stanislaus Gillet – futuro guia da Ordem Dominicana – conheceu Frassati quando este era estudante universitário. O dominicano disse que o jovem lhe havia impressionado «com seu encanto especial. Parecia irradiar uma força de atração […]. Tudo nele brilhava de alegria, porque derivava de sua esplêndida natureza o fato de florescer à luz de Deus».

Frassati morreu em 4 de julho de 1925, seis dias depois de ter contraído poliomielite de um dos enfermos por ele assistidos.O bispo auxiliar de Sydney disse que de seu funeral participaram por todas as pessoas mais importantes de Turim, «mas, para sua surpresa, quando saíram da igreja, as ruas estavam cheias não de pessoas da elite, mas dos pobres e dos necessitados a quem ele havia servido em sua breve vida».

«Os pobres ficaram também surpresos ao ver que era de uma família rica –disse o bispo. São eles os que pediram ao arcebispo de Turim que iniciasse seu processo de canonização».

«Agora ele fala a uma nova geração –concluiu o prelado, e honra nossa Jornada Mundial da Juventude com seu patronato e seu testemunho».

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A alegria de viver

Eduardo Henrique Da Silva

“Era um jovem de uma alegria fascinante- disse dele João Paulo II- uma alegria que superava também tantas dificuldades de sua vida, porque o período da juventude é sempre de provação.” ( Aos jovens de Turim 13. 04.1980)
Nascido em 6 de abril de1901, em Turim. Filho de Alfredo Frassati, senador, fundador e proprietário do jornal “La Stampa”, embaixador da Itália na Alemanha, e de Adelaide Ametis, pintora prestigiada, recebeu da família dinheiro, prestígio, comodidade e segurança material, honras e estima. Nunca, nestas coisas, sentiu o canto da alegria, porém nas coisas simples , na amizade, no serviço constante aos pobres, na generosidade em ser útil a todos, no casto sentimento nutrido por Laura, na alegria das excursões e das subidas as montanhas ,no empenho social.
Descobria a alegria exaltante da existência no caminho do empenho em fazer o bem, experimentava a confidente oração na alegria crescente de quem se sente amado por Deus. Amor nutrido todo dia pela Eucaristia, verdadeiro segredo e causa de sua alegria. Amor guiado por uma grande devoção à Nossa Senhora, que freqüentemente, demonstrava na reza do rosário e no ato de levar flores aos santuários de Oropa. Amor que transformava se em caridade para com os pobres, os seus prediletos: os seus “patrões” como gostava de defini –los. Declara uma testemunha: “Ele fazia pelos seus pobres tudo ,desde puxar carretos , caixas, como se fosse um privilégio“. E um outro confirma “considerava os pobres como seus superiores , nos seus sofrimentos honrava a paixão de Cristo e sempre se colocava ,por assim dizer, às suas ordens”. A um amigo confidenciava: “Jesus me visita na Eucaristia todos os dias e eu retribuo do modo mais simples que posso: visitando os pobres… entorno dos pobres, doente… eu vejo uma luz particular, uma luz que nós não temos!
Vinte quatro anos vividos na caridade, quando criança tirou os sapatos e as meias para doá-los a uma mulher que tinha nos braços uma criança sem sapatos , até as vésperas da morte, quando a poliomielite fulminante, que o havia paralisado, não lhe impediu de escrever uma última mensagem de ajuda aos pobres.
Uma vida extraordinária no cotidiano porque tudo nele – a alegria, a ação, o estudo, o apostolado, a oração, o serviço aos pobres – era sustentado pela fé e o amor .
Em 14 de fevereiro de 1925, escreveu a sua irmã Luciana:”Você me pergunta por que sou alegre? A tristeza deveria ser banida da alma dos católicos”.
Em Roma, a 20 de maio de1990 é proclamado beato por João Paulo II, na Praça de São Pedro, diante de uma imensa multidão de jovens. Pier Giorgio nos revela a face amorosa e alegre de Deus.

04/07/2008

* Eduardo Henrique Da Silva é assistente social e coordenador do Núcleo de Ação Comunitária da Faculdade Santa Marcelina

O “Santo da estrada” amigo dos pobres

Giulio Loccatelli

Mais que na inquieta atmosfera de sua poesia, a Senhora Luciana Frassati soube encontrar, na aflição de seu espírito, um porto seguro e sereno, revivendo em si própria, e fazendo com que muitos outros revivessem, a recordação daquele seu prediletíssimo irmão Pier Giorgio, primeiramente com a publicação de um notável epistolário e agora com uma obra toda original e inédita, que vem a colocar um áureo sigilo à sua admirável e continuada fadiga de mais de um ano de pesquisa e investigações nos mais diversos ambientes de Turim. Tratava-se de salvar um precioso patrimônio procurando as testemunhas de mais de trinta anos atrás, que tiveram uma certa familiaridade com o jovem aluno do Politécnico e que poderiam depor, como por uma atitude sagrada, sobre a sua multiforme atividade de herói da caridade cristã. Tarefa árdua e certamente mais apropriada a ‘fortes ombros’ que ao empenho de uma mulher, mesmo que de máxima boa vontade, que não fosse a bondosa irmã, paciente e tenaz até o sacrifício, da singela estirpe dos Frassati. Passo após passo, mesmo atrás de tênues vestígios de um nome, ei-la a reconstruir todo um longo itinerário de amor atrás das pegadas daquele irmão: pelas salas universitárias, dentro das lojas, ao longo dos corredores dos hospitais e das internações, nos escritórios dos homens de cultura, nos conventos, nas guaritas dos edifícios, nos gélidos telhados, onde quer que alguém pudesse dizer algo sobre ele no exercício preferido de ajuda aos que sofrem, aos desprezados da sociedade. Que itinerário precioso e qual revelação! Vieram à tona centenas de particulares ignorados e agradabilíssimos, todos autênticos e destinados a serem minuciosamente lidos e meditados, não somente por aqueles que nas Conferências de São Vicente de Paula, onde Pier Giorgio encontrou a sua apaixonada palestra cotidiana, dedicam-se de maneira especial ao exercício da caridade.
Refletindo um pouco mais, parece que a Senhora Luciana imitou o postulador da causa de um Bem-aventurado no recolher tão minuciosa messe de vivas documentações, muitas vezes esquelética, e por isso, eficacíssimas em sua concisão e sinceridade. Alguém disse que o jovem “tinha todos os requisitos para ser um santo: amor a Deus e amor ao próximo.” Um outro adicionou: “A sua virtude pareceu-me sempre heróica. Sabia-se que pertencia a uma das famílias mais abastadas de Turim e vinha até nós unir-se aos pobres, escondendo sempre aquilo que fazia de bem. Para nós Pier Giorgio era um santo.” Mas um santo alegre, animado, de larga visão, amante das escaladas em montanhas, que “fazia o bem pela alegria de fazê-lo” e que mostrava-se habitualmente “preocupado com a miséria e a necessidade dos humildes. De fato, era uma exigência sua sê-lo – assim diz Paolo Gandi –e não uma atitude de sua própria vontade.” Aos seus encontros quase diários com a caridade – era assíduo do Cottolengo, do leprosário, das Pequenas Irmãs – apresentava-se de maneira senhoril e, ao mesmo tempo, desembaraçado, alegre, cortês. Bastava olhar, para ver com que graça materna acariciava as crianças pobres e esfarrapadas, e como, entrando nos casebres da periferia de sua Turim, logo tirasse o chapéu e estendesse amigavelmente a sua mão àqueles que vinham-lhe ao encontro temorosos: aquelas pessoas quase nunca vieram a saber quem fosse aquele distinto senhor que sentava-se no leito dos doentes e tomava nota de todas as necessidades da família.
Há quem se recorde, com comoção, de como ele sabia submeter-se, sem demonstrar o mínimo embaraço, aos mais baixos trabalhos de assistência, até mesmo higiênicos – a epidemia de 1918 multiplicou tais atos exemplares ao infinito – rico de todas as formas de caridade, ao dizer do Frei Giocondo: “da palavra ao gesto que conforta até ao ponto de ajudar-te a descer um degrau, manifestação e forma dificilíssima arriscando, a cada momento, de cair em uma etiqueta superficial.”
De resto, tendo aprendido ainda criança, quando, não tendo outra coisa, tirou os sapatos e as meias para dá-los em esmola, Pier Giorgio obedecia ao difícil mandamento a ser realizado: “em todos os momentos estar ao seviço dos pobres.”
Graciosíssimos episódios referem-se a Pier Giorgio em seu transformar-se, várias vezes, – a propósito tem quem o definiu muito bem – em uma “sucursal de agência de transportes” e carregando-se de pacotes e lenha, como um animal de carga (é a observação de Camilla Rivetti) atravessando, sob aqueles trajes de carregador, as ruas principais, sem olhar a ninguém. Um dia o redator do “Stampa” admirou-se ao vê-lo puxando um carrinho pela rua: fez de conta de nada, mas depois ao reencontrá-lo na redação do jornal de seu pai pediu explicação. “Como? Não viu? – responde sagazmente Pier Giorgio – Aquele pobre velho que não aguentava puxá-lo em meio à gente?”
Esse puxar carinhos, seja para transportar coisas a serem entregues nos dias de visita, seja para ajudar aos pobrezinhos que tivessem que desalojar os utensílios de suas pequenas habitações, é um dos aspectos mais característicos do ânimo piedoso de Frassati contra o respeito humano, em uma sincera independência de caráter, ao ponto de ser chamado por Giovanni Grippa de “o santo da estrada”. Precisava tê-lo visto nos dias próximos ao Natal e à Páscoa: documentam as testemunhas que a sua atividade tornava-se “frenética”: pacotes sobre pacotes, frascos de vinho, peças de vestuário, roupas, Pier Giorgio transformava-se em um armazém ambulante, o contente carregador dos indigentes.
No Natal de 1924, assumiu sozinho a tarefa de socorrer nove famílias. Quem o aconselhava de usar, para as viagens, que na maiorias das vezes eram longas, o automóvel da casa, teve por resposta que seria um humilhar os pobres: andava, portanto, sempre a pé, dando de esmolas o dinheiro que guardava para tomar o bonde.
Seria, agora, um alongar-se demais enumerar as taxas escolares, as contas de gás, as receitas médicas com as suas “entradas”, certamente não tão elevadas, sem contar o enorme acúmulo de correspondências para procurar empregos, para recomendar todos aqueles que a ele recorriam confiantes naquele acolhedor convite. Ele não tinha hesitações para com eles e se, por acaso, percebia que certas pessoas que viviam na miséria não estavam realmente dispostas a procurar um trabalho e ali permanecer, cortava o assunto dizendo que “a caridade é sempre bem feita e sempre pronta a produzir os seus frutos, mesmo que se as pessoas que a recebem ou as que a exercitam não sejam dignas.”

“Il Giornale d’Italia”, 28 de fevereiro de 1952.

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