{"id":107,"date":"2010-10-14T23:10:49","date_gmt":"2010-10-15T02:10:49","guid":{"rendered":"http:\/\/victormellao.com.br\/piergiorgio\/?p=107"},"modified":"2010-10-14T23:10:49","modified_gmt":"2010-10-15T02:10:49","slug":"para-o-alto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.piergiorgio.com.br\/?p=107","title":{"rendered":"Para o alto!"},"content":{"rendered":"<div><em>Renato Romanelli<\/em><\/div>\n<p>Domingo, 7 de  junho de 1925: sobre a sua amarronzada fotografia, Pier Giorgio Frassati  escreve, \u00e0 m\u00e3o, \u201cPara o Alto\u201d. O retrato mostra-o, destacadamente,  agarrando-se com suas m\u00e3os nuas ao monte Lunelle, a 2772 metros. Foi a  sua \u00faltima excurs\u00e3o&#8230; Foi o seu \u00faltimo feliz domingo com a Sociedade  dos Tipi Loschi, o alegre grupo de amigos alpinistas, nascido em maio do  ano anterior&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 a despedida de sua t\u00e3o amada montanha, mas  ele n\u00e3o o sabe. J\u00e1 de volta \u00e0 casa, no calend\u00e1rio, marca dois  compromissos: uma excurs\u00e3o a 29 de junho ao ref\u00fagio Castaldi, sobre  Balme, para a festa de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo; e, o \u201cpresente\u201d que queria  dar a si mesmo pela formatura que teria em breve, o Cervino, \u201co  obst\u00e1culo mais fascinante do mundo\u201d. Os amigos, por\u00e9m, o esperar\u00e3o em  v\u00e3o. Sim, seus amigos esperar\u00e3o inutilmente a Robespierre, o grande  encorajador da Sociedade Tipi Loschi.<\/p>\n<p>Pier Giorgio morreria em um m\u00eas, em apenas  seis dias, de poliomielite fulminante. Tinha apenas 24 anos (havia  nascido a 6 de abril de 1901). E tinha os sonhos e os entusiasmos  pr\u00f3prios daquela idade.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, tinha vivido anonimamente o filho  de Alfredo Frassati, homem de prest\u00edgio e de poder, dono e diretor do  jornal Stampa, famoso jornalista, senador do Reino e embaixador da  It\u00e1lia em Berlim. No dia de sua morte, a 4 de julho de 1925, e,  principalmente, dois dias depois, durante o funeral, o v\u00e9u rompeu-se e  Pier Giorgio apareceu diante de todos com uma nova luz: a fam\u00edlia, os  amigos, enfim, toda a cidade descobrem que aquele rapaz, estranho e um  pouco louco, que subia nas \u00e1rvores e cantava escancaradamente para fazer  a sua av\u00f3 sorrir, aquele que declamava com sua voz potente Dante e  Manzoni, havia morrido em odor de santidade.<\/p>\n<p>Chegaram aos milhares os testemunhos que  descreviam um Pier Giorgio Frassati totalmente desconhecido: um Pier  Giorgio que renunciou aos seus privil\u00e9gios por amor aos outros; um Pier  Giorgio que economizava para dar aos pobres; um S\u00e3o Francisco do s\u00e9culo  XX.<\/p>\n<p>Perguntaram-lhe certa vez: \u201cFrassati, por que  voc\u00ea viaja sempre na terceira classe?\u201d&#8230; \u201cPorque n\u00e3o existe quarta\u201d,  respondeu. Com o dinheiro que juntava secretamente, fazendo renuncias  para economiz\u00e1-lo, adquiria medicamentos para quem n\u00e3o podia compr\u00e1-los,  ajudava aos abandonados, dava uma m\u00e3o aos desesperados que encontrava  nas favelas ou sob as pontes; fazia isso tanto em Turim como em Berlim,  tanto no ver\u00e3o como no inverno.  Pier Giorgio movia-se de uma  confer\u00eancia vicentina a outra. A Sociedade S\u00e3o Vicente de Paulo era  apenas uma das numerosas associa\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas as quais adere;  entretanto, muitas vezes, ele agia solitariamente.  E sempre  sigilosamente, longe da vista de todos, pois, como adverte o Evangelho,  \u201ca direita n\u00e3o saiba aquilo que faz a esquerda\u201d.  E Pier Giorgio assim  desejava: que ningu\u00e9m tomasse conhecimento de suas obras de bondade. At\u00e9  mesmo os seus ajudados eram estranhos uns aos outros. Encontrar-se-\u00e3o  todos juntos apenas para cantar os seus louvores, no seu funeral. E  descobrir-se-\u00e3o tantos!<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es quotidianas de Pier Giorgio Frassati  comp\u00f5em um conjunto de eventos exemplares \u2013 semelhantes \u00e0quelas que,  poeticamente, Joyce definia como epifanias \u2013, que anulam a aparente  contradi\u00e7\u00e3o entre as origens burguesas e a heroicidade da virtude, a  qual a Igreja, em maio de 1990, tinha-o elevado \u00e0s honras dos altares,  proclamando-o beato: O santo leigo, o santo da Turim burguesa.<\/p>\n<p>Rosto moderno ainda hoje, belo com um gal\u00e3 do  cinema de ent\u00e3o, Pier Giorgio Frassati amava o esporte ao ar livre.  Segundo os amigos, era um atleta nato e poderia praticar qualquer  esporte que quisesse. Na primavera, remava com prazer no rio P\u00f3; no  inverno, tinha um compromisso imperd\u00edvel com o esqui nas pistas de  Monginevro ou de Gressoneu Saint-Jean. No ver\u00e3o, sa\u00eda, muitas vezes, de  bicicleta e, com desenvoltura, percorria os oitenta quil\u00f4metros entre  Turim e Pollone. Ou ia, ainda, a Sandigliano Biellese, cavalgando na  garupa do Parsifal, o impetuoso cavalo baio irland\u00eas do senador (\u201cera o  \u00fanico, al\u00e9m de papai, que sabia dom\u00e1-lo\u201d, conta ainda hoje, com um pouco  de inveja, a sua irm\u00e3 Luciana, sua primeira biografa e tenaz  testemunha). Aos quatorze anos, Pier Giorgio j\u00e1 sabia dirigir. Nas  cartas de sua m\u00e3e \u2013 um pouco assustada, um pouco orgulhosa \u2013 e nos  relatos dos habitantes de Pollone, encontram-se os ecos da impress\u00e3o do  destemido rapaz que queria imitar Bordino, o Schumacher daquele tempo.<\/p>\n<p>O que Pier Giorgio Frassati mais gostava,  por\u00e9m, era das montanhas. Conhecia-as desde crian\u00e7a e teve facilidade  para conquist\u00e1-las rapidamente. Fez as primeiras excurs\u00f5es com o pai e  ficou fascinado para sempre: \u201cMontanhas, montanhas, montanhas: eu vos  amo!\u201d, escreveu em seu di\u00e1rio. Em seus escritos, ainda se l\u00ea: \u201cEu deixei  meu cora\u00e7\u00e3o entre esses montes com a esperan\u00e7a de reencontr\u00e1-lo quando  retornar\u201d. E ainda: \u201cMas como se pode resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da neve?\u201d<\/p>\n<p>Inscreveu-se no Cai, em dezembro de 1917,  conquistando um sonho. No ano seguinte, consegue carteira de associa\u00e7\u00e3o  do Touring e, depois, a da Jovem Montanha, uma associa\u00e7\u00e3o nascida em  1914. Convocou os amigos, os ex-companheiros da escola e os colegas da  universidade, formando um grupo (os Tipi Loschi). Fez parte desse grupo  Laura Hidalgo, a secret\u00e1ria dos Tipi Loschi, que se tornou o amor  secreto de Pier Giorgio; conheceram-se durante uma festa de carnaval nas  montanhas, em 1923. Renunciar\u00e1, por\u00e9m, a Laura para dar apoio a sua  m\u00e3e, Adelaide Ametis (uma pintora intimista), quando os contrastes mais  agudos evidenciaram-se entre o senador e a esposa (estavam a ponto de  separarem-se).<\/p>\n<p>Era, portanto, um rapaz como tantos outros,  mas apenas na apar\u00eancia. Pier Giorgio tinha suas id\u00e9ias, suas paix\u00f5es,  suas esperan\u00e7as. Mas, tinha, sobretudo, uma vida consciente, convicta,  obstinada e irrenunci\u00e1vel coer\u00eancia com a mensagem do Evangelho. A  partir do momento que aderiu a muitos grupos cat\u00f3licos (Companhia do  Sant\u00edssimo Sacramento, Congrega\u00e7\u00e3o Mariana, Confer\u00eancia de S\u00e3o Vicente e  outros), muitas vezes, recolhia-se em ora\u00e7\u00e3o e todos os dias  aproximava-se do Sacramento da Comunh\u00e3o. Chegaram a lhe perguntar, um  dia, se ele sentia-se chamado ao sacerd\u00f3cio&#8230; Pier Giorgio respondeu  com extraordin\u00e1ria solidez moral: \u201cEu quero ajudar minha gente de todas  as maneiras, e isso eu posso fazer melhor como leigo do que como padre,  pois, aqui, os sacerdotes n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3ximos do povo\u201d.<\/p>\n<p>Este era o motivo pelo qual ele queria tornar-se  engenheiro mineral: para estar pr\u00f3ximo a uma categoria espec\u00edfica de  trabalhadores, o mineradores. N\u00e3o desdenhava do empenho pol\u00edtico;  identificava-se com o Partido Popular Italiano e sabia ser r\u00edgido com  todos aqueles que aderiam ao fascismo (\u201cum flagelo da It\u00e1lia\u201d, dizia).  Sabia fazer-se respeitar, levantando os punhos se necess\u00e1rio.  Como  quando uma quadrilha de fascistas tentou entrar na sua casa. Pier  Giorgio era cr\u00edtico nos confrontos com o pai, um liberal convicto.  Talvez, eles tenham entrado em acordo apenas uma vez: quando ambos se  mantiveram contra o ingresso da It\u00e1lia na guerra. Pier Giorgio, rapaz,  seguia ansiosamente o desenrolar do conflito, \u201crezava todos os dias  pelos mortos na guerra e pela fam\u00edlia deles\u201d, narra a sua irm\u00e3 Luciana.  Quando a paz foi anunciada, Pier Giorgio atravessou rapidamente toda  Pollone, subiu em todos os campan\u00e1rios e liberou sua alegria tocando os  sinos. E diziam que ele era louco.<\/p>\n<p><a id=\"nome\">*<\/a> <em>Renato  Romanelli, Enviado do L`Stampa. da Specchio della Stampa, 10\/06\/2000<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renato Romanelli Domingo, 7 de junho de 1925: sobre a sua amarronzada fotografia, Pier Giorgio Frassati escreve, \u00e0 m\u00e3o, \u201cPara o Alto\u201d. O retrato mostra-o, destacadamente, agarrando-se com suas m\u00e3os nuas ao monte Lunelle, a 2772 metros. 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