{"id":111,"date":"2010-10-14T23:12:17","date_gmt":"2010-10-15T02:12:17","guid":{"rendered":"http:\/\/victormellao.com.br\/piergiorgio\/?p=111"},"modified":"2010-10-14T23:12:17","modified_gmt":"2010-10-15T02:12:17","slug":"um-forte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.piergiorgio.com.br\/?p=111","title":{"rendered":"Um forte"},"content":{"rendered":"<div><em>Giovanni Battista Montini, depois Paulo VI<\/em><\/div>\n<p>Falar dele me \u00e9  imposs\u00edvel. A mim n\u00e3o foi dado conhec\u00ea-lo pessoalmente e muitos  daqueles que agora quisessem reinvocada sua figura, poderiam, muito  melhor que eu, cham\u00e1-lo \u00e0 nossa mem\u00f3ria, relembrando os testemunhos da  mesma. Al\u00e9m disso, ap\u00f3s a louv\u00e1vel coleta de lembran\u00e7as e testemunhos  que foi feita sobre a vida de Pier Giorgio e que circula pelas m\u00e3os de  todos, dif\u00edcil seria para algu\u00e9m acrescentar novos documentos, ou tamb\u00e9m  dar-lhes interpreta\u00e7\u00e3o diferente.<br \/>\nN\u00e3o dele, portanto, mas de n\u00f3s nos compete falar, quando o vamos  comemorando na piedade da mem\u00f3ria crist\u00e3; de n\u00f3s, para quem a lembran\u00e7a  do jovem espontaneamente, afetuosamente re\u00fane em torno ao altar que  acolheu um dia as suas ora\u00e7\u00f5es, e com uma alegria forte e profunda  conforta e eleva.<\/p>\n<p>De nossa parte, ante Pier Giorgio sete anos ap\u00f3s sua morte, algo  especialmente parece que deva ser dito. E \u00e9 justamente este intimo e  estimulante consolo que parece ser o sentimento mais pertinente para se  lembrar dessa morte e para ter luz sobre nossa vida; \u00e9 justamente, digo,  esse consolo que n\u00f3s agora devemos interpretar.<br \/>\nPor que a figura de Pier Giorgio nos \u00e9 de grande conforto?<\/p>\n<p>Se cada um de n\u00f3s aprofunda em si mesmo esta pergunta, entrev\u00ea logo a  resposta. A figura de Pier Giorgio nos \u00e9 escudo contra uma das mais  fortes e sutis tenta\u00e7\u00f5es que afligem a vida espiritual; a vida crist\u00e3, a  vida crist\u00e3 autentica, completa, \u00e1vida de perfei\u00e7\u00e3o, representa agora  uma concep\u00e7\u00e3o restrita e superada da exist\u00eancia humana, um ideal  apagado, um mundo pequeno e fechado, um arca\u00edsmo que s\u00f3 quem vive \u00e0s  margens do grande rio da atividade moderna pode fazer seu.<\/p>\n<p>Os jovens compreendem o que digo, porque a tenta\u00e7\u00e3o \u00e9, de fato,  dirigida contra eles. Cada um deles que tenha mesmo que apenas ro\u00e7ado as  correntes inspiradoras do moderno pensar, sente que deva fazer um  esfor\u00e7o para permanecer interiormente fiel e convencido. Porque em cada  um de n\u00f3s dormem reminisc\u00eancias de escola e de vida que com a potencia  das f\u00f3rmulas claras e esculpidas no engano de belas palavras, repugnam a  Cristo.<\/p>\n<p>O Chrit ! Je ne suis pas de ceux que la pri\u00e8re<br \/>\nDans tes temples muets am\u00e8ne \u00e0 pas tremblants&#8230;<br \/>\nJe ne crois pas, o Christ, \u00e0 ta parole sainte,<br \/>\nJe suis venu trop tard dans um monde trop vieux.<br \/>\nD\u2019un si\u00e8cle sans espoir na\u00eet um si\u00e8cle sans craint.<br \/>\n\u2026Ta gloire est mort, o Christ; et sur nos croix d\u2019\u00e9bene<br \/>\nTon cadavre c\u00e9leste en poussiere est tombe !<\/p>\n<p>E essa tremenda  senten\u00e7a n\u00e3o saiu somente do solu\u00e7o do infeliz De Musset; saiu calma e  solene dos l\u00e1bios de professores que nos pareciam, na escola, mais  perceptivos e imparciais; e que dosando em benignas concess\u00f5es a nega\u00e7\u00e3o  anticrist\u00e3, admitiam o cristianismo ter sido um passo, uma etapa no  progresso da hist\u00f3ria e da civiliza\u00e7\u00e3o, mas um passo e uma etapa que o  s\u00e9culo moderno n\u00e3o pode mais percorrer, sob pena de aprisionamento e  retrocesso das conquistas da ci\u00eancia e da consci\u00eancia humana.<\/p>\n<p>E a Igreja, a imensa sociedade de fi\u00e9is, foi prospectada sob a luz  infiel de tais ideologias, como um organismo puramente exterior,  sustentado por um fasc\u00ednio de pueril e tradicional supersti\u00e7\u00e3o,  recoberto de ritos estranhos e antiquados, sobrecarregado de s\u00edmbolos e  de objetos at\u00e9 agora confinados na penumbra mofada das sacristias e  incapaz de colocar-se de acordo com as poderosas correntes de vida  contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Ao contrario, esta vida contempor\u00e2nea nos parece soberba e gigantesca,  mesmo porque esquece das antigas regras com as quais a concess\u00e3o crist\u00e3  a bloqueava no livre curso. E da complexidade das organiza\u00e7\u00f5es  industriais e sociais, da variedade dos mil divertimentos novos e  sedutores, da riqueza vital do risco e do exerc\u00edcio esportivo, de todas  as descobertas, das inova\u00e7\u00f5es e dos movimentos do nosso s\u00e9culo, quantas  vezes entrou em nossa alma um fasc\u00ednio misterioso e sugestivo, um  entusiasmo que eleva e paralisa ao mesmo tempo, uma for\u00e7a exultante e  excessiva, que nos levava longe do tranq\u00fcilo e reto caminho de Cristo e  nos parecia colocar no fundo da alma a irredut\u00edvel ant\u00edtese: ou ser  modernos, ou ser crist\u00e3os. As duas concess\u00f5es se excluem ! Como ser,  ent\u00e3o, ainda crist\u00e3os? Eis a tenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pier Giorgio responde com sua vida. \u00c9 a sua, uma primeira, intuitiva  resposta, que salta aos olhos de qualquer um que observe aquela vida,  seja ele irm\u00e3o de f\u00e9 ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 um forte.<\/p>\n<p>Seu perfil f\u00edsico deixa transparecer essa caracter\u00edstica, t\u00e3o desejada  pelos jovens e t\u00e3o exaltada pelos modernos. A fantasia repete para ele o  que se verificou com S. Luis Gonzaga, quando para representar esse  santo se escolheu o famoso quadro atribu\u00eddo a Veronese, onde em uma  viril e gentil figura de jovem parece refletir um car\u00e1ter vigoroso e  atrevido. O vemos, e era assim: robusto, s\u00e3o, correto.<\/p>\n<p>Assim o viram aqueles que o olharam de fora. Antes de perceberem que  era de ess\u00eancia santa, viram que era de ess\u00eancia forte. Viram que era um  homem. O testemunho do jornal socialista milan\u00eas, ao tecer sua  necrologia, sintetiza assim o admir\u00e1vel jovem: \u201cera verdadeiramente um  homem Pier Giorgio Frassati\u201d.<\/p>\n<p>Nem o julgamento dos que o observaram de perto, nem a intimidade  quotidiana, reveladora do temperamento e do car\u00e1ter, soa diferente.<\/p>\n<p>Cabe\u00e7a dura o chamou a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>For\u00e7a f\u00edsica e fortaleza de car\u00e1ter nos descrevem esse irm\u00e3o maior. E  os epis\u00f3dios mais eloq\u00fcentes de sua vida s\u00e3o precisamente epis\u00f3dios de  vigor, valor, energia. Basta relembrar aquele que para os jovens soa  como o episodio fundamental, por ser o mais dram\u00e1tico: o episodio da  bandeira agredida nos famosos acontecimentos de Roma: episodio de um  valor simb\u00f3lico clar\u00edssimo, quando, dobrado e despeda\u00e7ado o mastro,  eleva-se e agita-se inflex\u00edvel a bandeira do ideal.<br \/>\nE penetramos assim a profundidade dessa fortaleza, bem diferente da  insolente explos\u00e3o de viol\u00eancia e  arrog\u00e2ncia pelas quais tantos foram  temidos na \u00e9poca, porque a fortaleza radicada na alma, coerente com o  pensamento, derivada da raz\u00e3o, militante por coisas boas e certas,  expressa-se em formas e sentimentos nobres e generosos. N\u00e3o f\u00e1cil  exuber\u00e2ncia de paix\u00f5es desordenadas.<\/p>\n<p>Quem colheu a impress\u00e3o dada por ele nos momentos mais calmos e de  recolhimento da vida, aqueles dos exerc\u00edcios espirituais, quando a alma  se exp\u00f5e com perfeita sinceridade e revela voluntariamente os segredos  interiores, nos confirma: \u201c Para mim \u2013 escreveu padre Righini \u2013 ele se  tornou mais que tudo o exemplo de uma fort\u00edssima e f\u00e9rrea vontade de  car\u00e1ter \u201d.<br \/>\nEscutemo-lo : \u201c tudo se resume na fortaleza da alma!\u201d<br \/>\nPois bem, isso faz pensar.<\/p>\n<p>Faz pensar em duas ordens de considera\u00e7\u00e3o. A  primeira diz respeito \u00e0 vitalidade superior desta exist\u00eancia: ela \u00e9  verdadeiramente juventude. Ela tem para si o amanh\u00e3, o porvir. Ela \u00e9 de  fato, o que no mundo moderno \u00e9 muitas vezes apenas desejo. Ela tem algo  em si de mais belo e maior que qualquer outra manifesta\u00e7\u00e3o de vida.<br \/>\nE a segunda nos leva a indagar o segredo dessa  plenitude vital, dessa espiritual superioridade. O segredo est\u00e1 talvez  escondido no carisma crist\u00e3o, singularmente poderoso no fundo dessa alma  jovem? Isso importa saber.<\/p>\n<p>Ele, com todos franco e aberto, com poucos  abriu-se em grandes confidencias sobre seu trabalho interior. Mas os  testemunhos abundantes e a transpar\u00eancia do escondido comando revelam a  intima inspira\u00e7\u00e3o do estilo vis\u00edvel: a sua fortaleza foi perfei\u00e7\u00e3o  interior antes de ser explica\u00e7\u00e3o exterior. Fortaleza era auto dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Autodom\u00ednio era castigar-se.<\/p>\n<p>Era forte, porque austero.<\/p>\n<p>Austero e doce, ou amigo; austero e vivo. Devido  \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o com Deus consolador, suave h\u00f3spede da alma, frescor  interior, atingia vivificante alimento. Entre a tua obra externa, a tua  interna retid\u00e3o moral e a tua assiduidade ao altar de Deus existe  rela\u00e7\u00e3o cert\u00edssima. Um dia talvez a Igreja nos dir\u00e1 que realmente tudo  te veio da for\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>Deus.<\/p>\n<p>Segredo da tua juventude.<\/p>\n<p>Aus\u00eancia de Deus: presumida superioridade do mundo moderno.<\/p>\n<p>Deus: fonte e fundamento das virtudes b\u00e1sicas  sobre as quais se rege a vida moral, social, intelectual. Das virtudes  \u201cprimitivas\u201d que s\u00e3o a juventude do mundo e os recursos da civiliza\u00e7\u00e3o.  Daquelas virtudes primitivas que tornam linear, l\u00edmpida, fraterna e  robusta a figura de Pier Giorgio.<\/p>\n<p>Deus, segredo dessa admir\u00e1vel juventude, nO qual  acreditou e amou como pai, como fonte da vida, como inef\u00e1vel dom que  dilata a alma at\u00e9 os confins do infinito, que a inebria de maravilha e  alegria, a torna muda na adora\u00e7\u00e3o e l\u00edrica de canto e de gaudio, a  queima de casta pureza e inunda de incompar\u00e1vel amor.<br \/>\nRico dessa for\u00e7a Pier Giorgio \u00e9 moderno e jovem.<br \/>\n\u00c9 por isso que toda a sua vida \u00e9 dominada de uma firme consci\u00eancia de renova\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00e3o e milit\u00e2ncia.<br \/>\n\u00c9 por isso que um capitulo de sua vida se intitula: A alegria de viver. O cristianismo \u00e9 uma exalta\u00e7\u00e3o \u00e0 verdadeira vida.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que do cora\u00e7\u00e3o e das m\u00e3os de Pier Giorgio irradia continua  caridade. A caridade ao pr\u00f3ximo \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de vida que melhor  espelha aquela de Deus: a sua paternidade universal, a sua  magnific\u00eancia, a sua bondade, a sua ess\u00eancia. \u00c9 a melhor comprova\u00e7\u00e3o que  atesta a coincid\u00eancia da religi\u00e3o com a vida. \u00c9 um ato de f\u00e9 pr\u00e1tica  que afirma estar Cristo no irm\u00e3o necessitado.<\/p>\n<p>Esta foi a suprema declara\u00e7\u00e3o crist\u00e3 de Pier Giorgio: o ultimo esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>O que nos fala, ent\u00e3o, o exemplo deste irm\u00e3o?<br \/>\nNos diz que o cristianismo \u00e9 a for\u00e7a da verdadeira juventude.<\/p>\n<p>Nos diz que o cristianismo \u00e9 forte, n\u00e3o mais na grandeza que fascina o  mundo; mas \u00e9 forte e vivo na humildade de suas virtudes interiores e  severas: \u00e9 forte quando vivenciado com sacrif\u00edcio. \u00c9 forte quando est\u00e1  doente da enfermidade resultante da cruz. Nos diz como podemos olhar sem  susto e sem hostilidade a fulgurante potencia do nosso s\u00e9culo, n\u00e3o  falando mal das coisas, mas auto dominando-nos.<\/p>\n<p>Nos diz enfim quanta beleza, quanta for\u00e7a, quanta juventude, germina nas  humildes fileiras das nossas associa\u00e7\u00f5es, quando aqueles \u00e0s quais  pertencem vos infundem o que procurais, d\u00e3o aos companheiros o que deles  requisitam, desenvolvem o programa para o qual s\u00e3o direcionados,  vivenciam a id\u00e9ia que vos \u00e9 anunciada.<br \/>\nNos diz que se n\u00f3s, como Pier Giorgio, temos o lema mihi vivere Christus  est, temos, como ele, diante de n\u00f3s, o caminho do amanh\u00e3 e o caminho da  eternidade<\/p>\n<p><a id=\"nome\">*<\/a> <em>Discurso comemorativo pronunciado em 3 de julho de 1932, em Turim, na Igreja da Crocetta. \u201cRevista dos jovens\u201d, setembro, 1932.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Giovanni Battista Montini, depois Paulo VI Falar dele me \u00e9 imposs\u00edvel. 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