{"id":127,"date":"2010-10-14T23:22:01","date_gmt":"2010-10-15T02:22:01","guid":{"rendered":"http:\/\/victormellao.com.br\/piergiorgio\/?p=127"},"modified":"2010-10-14T23:22:01","modified_gmt":"2010-10-15T02:22:01","slug":"um-profundo-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.piergiorgio.com.br\/?p=127","title":{"rendered":"Um profundo sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<p><em>Luciana Frassati<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o cinquenta anos que Pier  Giorgio nos  deixou; todavia, meu discurso se torna sempre mais denso e  vislumbra cada vez  mais as nuances daquele que foi o seu. Pareceria  quase orgulho afirmar isso;  mas apenas ap\u00f3s ter a ci\u00eancia aprofundada e  amadurecida pelo tempo, considero  hoje complacentes e apressados os  julgamentos dados sobre meu irm\u00e3o naquele  long\u00ednquo ano santo de 1925.<br \/>\nHoje,  de repente, no retorno deste grande acontecimento, se descobre  nele o eco exultante  e ao mesmo tempo meditativo que o induziu  escrever: \u201dA paz esteja em sua  alma&#8230; qualquer outro dom que se possua  nesta vida \u00e9 v\u00e3o como v\u00e3s s\u00e3o todas as  coisas do mundo\u201d. Este \u00e9 o <em><a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Leitmotiv\" target=\"_blank\">leitmotiv<\/a> <\/em> que  invade seu animo nos meses que antecederam aquele terr\u00edvel 4 de julho, <em>leitmotiv<\/em> ao qual quase em contraponto  ele colocava outro: \u201c Agora estou pr\u00f3ximo de colher o que plantei\u201d.<br \/>\nDois meses depois j\u00e1 havia colhido. O que? Um  funeral, se pode  responder, que deu \u00e0 sua humildade o tom do triunfo; mas n\u00e3o  era que um  sinal, digo melhor, um alarme, para aqueles que chegaram at\u00e9 a   consider\u00e1-lo um pobre ser que n\u00e3o tinha nada de melhor para fazer do que  ir \u00e0  igreja todos os dias\u201d. Aquele triunfo era um sinal de conforto e  ao mesmo tempo  de consterna\u00e7\u00e3o; e n\u00e3o por acaso foram os pobres a  revel\u00e1-lo e apenas eles,  entre os quais a sua bela figura alcan\u00e7ava o  anonimato, \u00e0s vezes carregada de  problemas, mas sempre atenta na  participa\u00e7\u00e3o ativa e concreta dos problemas  deles.<br \/>\nQuais  virtudes tinha ent\u00e3o Pier Giorgio escondido de n\u00f3s que nem mesmo  naquele grande  momento nos sent\u00edamos aterrorizados pela avalanche da  incompreens\u00e3o com a qual  poder\u00edamos t\u00ea-lo sufocado se ele n\u00e3o tivesse  estado em contato direto com uma  compreens\u00e3o bem superior, preparada a  perdoar tamb\u00e9m a falta da nossa? Sob essa  luz de miseric\u00f3rdia  sobrehumana, Pier Giorgio teve o dom de compreender a tudo  e a todos.<br \/>\nNos  foi dado apenas hoje conhecer aquele jovem, obscuro at\u00e9 julho de  1925? Parecia  f\u00e1cil na \u00e9poca descobrir a sua lealdade, sua pureza e sua  coragem \u2013 mesmo nos  sendo desconhecidos os v\u00e1rios epis\u00f3dios inerentes a  elas &#8211; j\u00e1 que ele era, ouso  dizer, a express\u00e3o f\u00edsica desses tr\u00eas  raros dons, suficientes para catalog\u00e1-lo  entre os\u201d bons\u201d.<br \/>\nApesar de  agraciado com outras benemer\u00eancias, ele continuou, no  decorrer destes cinquenta  anos, a ser considerado tal, mas ningu\u00e9m  soube a que pre\u00e7o de solid\u00e3o e  toler\u00e2ncia do sarcasmo alheio (para usar  uma palavra um pouco forte, por\u00e9m  orientadora), ele conquistou e teve  seladas suas grandes virtudes. Portanto,  apenas atrav\u00e9s do mosaico de  centenas de testemunhos e sobretudo de pensamentos  colhidos nas cartas,  se pode compor sua verdadeira personalidade, forjada \u00e0s  vezes por  fatores contrastantes que unidos formam um maravilhoso todo, dif\u00edcil  de  expor de forma breve.<br \/>\nNas  cartas pode-se descobrir o menino, o jovem do quotidiano que, j\u00e1  estudante do  Polit\u00e9cnico, n\u00e3o esquece, por exemplo, nas sauda\u00e7\u00f5es, de  nomear um a um os  servi\u00e7ais, os amigos da casa, concluindo muitas vezes  seus textos com o envio  de aperto de patas \u00e0queles personagens muito  pr\u00f3ximos a ele, os animais.  Ing\u00eanuas express\u00f5es de afeto, quase  nost\u00e1lgicas, ele expressou sobretudo na sua  estada em Freiburg im  Bresgau, quando, filho do embaixador da It\u00e1lia em Berlim,  h\u00f3spede da  fam\u00edlia Rahner , n\u00e3o surpreende nem a dona da casa \u2013 hoje centen\u00e1ria  \u2013  ajudando-a a colher batatas em uma planta\u00e7\u00e3o long\u00ednqua da bela cidade  alem\u00e3.<br \/>\n\u00c9  mesmo das cartas que partem de um Pier Giorgio conhecido que se  consegue  descobrir aquele desconhecido. Nos encontramos como diante de  um motor  destinado apenas a tocar o ch\u00e3o e que improvisamente al\u00e7a voo.  Os voos de Pier  Giorgio. Quais eram? N\u00e3o certamente daquele jovem  montanh\u00eas que coloca o p\u00e9 em  falso nas faldas das montanhas, mas de um  guia seguro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 meta ap\u00f3s os  percal\u00e7os do caminho. Ele treina  para poder \u201cno dia da cola\u00e7\u00e3o, escalar o  Cervino\u201d ( N.T. : Cervino \u00e9 um  alto pico dos Alpes). A agonia, a pouco tempo de  distancia do  coroamento de seus estudos, que teriam permitido que ele, como   engenheiro de minera\u00e7\u00e3o, descesse entre aqueles a quem eram proibidos  auroras e  crep\u00fasculos, foi seu Cervino, seu mais alto pico \u201cem dire\u00e7\u00e3o \u00e0  beatifica\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nA  caridade assim como a f\u00e9, eram para n\u00f3s como vestes dominicais: para  ele foram  p\u00e3o di\u00e1rio, alimento insepar\u00e1vel a ponto de faz\u00ea-lo dizer: \u201c O  que seria a f\u00e9  se n\u00e3o fosse revestida de caridade?\u201d. Declara em suas  cartas a primeira como  \u201c\u00fanica e verdadeira alegria\u201d, mant\u00e9m secreta a  outra virtude e se limita quase  que a concentr\u00e1-la em uma frase: \u201c Eu  nutro uma especial predile\u00e7\u00e3o pelo  Apostolo da caridade\u201d. Nos  perguntamos como aqueles a quem essas cartas foram  endere\u00e7adas, n\u00e3o  tiveram consci\u00eancia nem por um instante de quem ele era. Como  n\u00e3o  descobriram a ingenuidade e a genialidade dos santos? A infinita  mod\u00e9stia  de Pier Giorgio era selada com uma morda\u00e7a t\u00e3o impenetr\u00e1vel  que nem mesmo a  poliomielite fulminante conseguiu despeda\u00e7ar, mas  apenas o grande cavalheiro  que \u00e9 o tempo.<br \/>\nE n\u00f3s? N\u00e3o fomos  mais videntes. Poderia ter coberto as paredes com  cantos de Dante, versos de  Foscolo e para declam\u00e1-los usar como p\u00falpito  os pinheiros do jardim, ler S\u00e3o  Paulo, Santo Agostinho, S\u00e3o Tom\u00e1s, e  se algu\u00e9m tivesse dito que era poeta,  filosofo, a resposta seria  resumida a uma cordial risada. Talvez n\u00e3o a  recebesse de mim, quando  com apaixonado orgulho de colecionador, respondeu,  diante da minha  perplexidade sobre o valor dos minerais fechados numa vitrine:  ir\u00e3o ao  museu?<br \/>\nVitrine e minerais n\u00e3o apenas  foram aceitos pelo Polit\u00e9cnico de Turim,  como o professor Cavinato,  recebendo-os acompanhados um a um por seu  nome latino, testemunhou que nunca lhe  tinha ocorrido descobrir em  algum de seus alunos tanta e t\u00e3o diligente paix\u00e3o.  Pier Giorgio a  colocava tamb\u00e9m nas visitas a museus, das quais restam muitos  ind\u00edcios  em suas cartas, como o \u00e1lbum de obras primas admiradas por ele. De   pintura se falava em casa, mas apenas ele aprofundou-se.<br \/>\nO arco de sua  intelig\u00eancia abra\u00e7ava Dante e os minerais; o arco de sua  alma a humildade, a  f\u00e9, e a caridade, tudo acompanhado daquela que ele  considerava tamb\u00e9m virtude:  a felicidade. Escrevia-me a 14 de fevereiro  de 1925, de Turim:<br \/>\n\u201cQuerid\u00edssima,  antes de tudo obrigada pela bonita carta&#8230; voc\u00ea me  pergunta se sou feliz; como  n\u00e3o poderia s\u00ea-lo? At\u00e9 quando a F\u00e9 me der  for\u00e7a, sempre feliz ! um cat\u00f3lico n\u00e3o  pode n\u00e3o ser feliz : a tristeza  deve ser banida das almas cat\u00f3licas; a dor n\u00e3o  \u00e9 a tristeza, que \u00e9 uma  doen\u00e7a pior que qualquer outra. Essa doen\u00e7a \u00e9 quase  sempre produzida  pelo ate\u00edsmo; mas o objetivo pelo qual fomos criados nos  indica um  caminho semeado de muitos espinhos, mas n\u00e3o um caminho triste: esse \u00e9   alegria, tamb\u00e9m atrav\u00e9s da dor.\u201d<br \/>\nSua figura, seu  semblante, seu l\u00edmpido sorriso eram a origem e a raz\u00e3o  de cada consenso acima  dos poss\u00edveis mal entendidos de seus  contempor\u00e2neos, das mesquinhas disputas  dos jovens e acabava sendo a  sua vestimenta, aquela mesmo que, ao nascer no  s\u00e1bado santo de 1901,  lhe foi predestinada chamando-o \u201co menino da festa\u201d.<\/p>\n<p>\u201cRipresa\u201d, 15 de julho de 1975<\/p>\n<p>* <strong>Luciana  Frassati Gawronska<\/strong>, (*<strong>1902 +2007<\/strong>)<\/p>\n<p>Formada  em Direito, escritora e poetisa. Entre seus livros destacam-se as biografias de  Pier Giorgio o qual era seu irm\u00e3o.<br \/>\nAmiga de todas as horas, grande  incentivadora do processo de beatifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCasou-se com diplomata  polon\u00eas Jan Gawronska em 1925. Vivenciou o  drama da Segunda Guerra Mundial o  qual relata em seu livro: O Destino  passa por Vars\u00f3via . Teve seis filhos entre  eles: o jornalista Jas  Gawronska e Wanda Gawronska, presidente da Associa\u00e7\u00e3o  Pier Giorgio  Frassati de Roma.<\/p>\n<figure id=\"attachment_128\" aria-describedby=\"caption-attachment-128\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/victormellao.com.br\/piergiorgio\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/luciana.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-thumbnail wp-image-128\" title=\"Luciana Frassati Gawronska, (*1902 +2007)\" src=\"http:\/\/victormellao.com.br\/piergiorgio\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/luciana-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-128\" class=\"wp-caption-text\">Luciana Frassati Gawronska, (*1902 +2007)<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luciana Frassati S\u00e3o cinquenta anos que Pier Giorgio nos deixou; todavia, meu discurso se torna sempre mais denso e vislumbra cada vez mais as nuances daquele que foi o seu. 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