
Memória de São Pier Giorgio Frassati
4 de julho de 2026
Prot. n. 50/26/303 Letters_MO
Eli disse a Samuel: «Vai e responde: Fala, Senhor, que o teu servo escuta» (1 Samuel 3,9).
A TODOS OS MEMBROS DO MOVIMENTO JUVENIL DOMINICANO INTERNACIONAL
Queridos jovens amigos:
Entre todos os grupos vinculados à Ordem, o Movimento Juvenil Dominicano Internacional (MJDI) ocupa um lugar singular. É o único cuja característica definidora é uma realidade que, por sua própria natureza, passa com o tempo: a juventude. Diferente dos diversos ramos da Família Dominicana, cada um dos quais está orientado a um compromisso para toda a vida, o MJDI é, intencional e propriamente, um tempo de discernimento. É um período privilegiado no qual vocês são convidados a se perguntar, com honestidade e liberdade, se o modo dominicano de seguir a Cristo é verdadeiramente o seu lar espiritual e, se for, em qual de suas expressões concretas o Senhor os chama a viver essa vocação: como leigos dominicanos, membros de um instituto secular, irmãs apostólicas, monjas contemplativas ou frades.
Com o passar do tempo, a participação no Movimento Juvenil Dominicano pode despertar em alguns de vocês um profundo sentido de pertença à Família Dominicana e uma profunda identificação com o seu carisma e a sua missão, sem que isso conduza necessariamente ao discernimento de uma vocação em algum de seus ramos. Também isso é uma autêntica graça. A tradição dominicana sempre irradiou muito além dos limites institucionais da Ordem, enriquecendo a vida da Igreja por meio de homens e mulheres cuja mente e cujo coração foram configurados pelo amor dominicano à verdade, à contemplação, à fraternidade e à pregação, à luz do testemunho dos inumeráveis santos e santas que Deus ressuscitou na Família Dominicana.
Antes de tudo, é importante reconhecer que algo os atraiu em direção à Família Dominicana. Prestem atenção a essa atração, porque ao longo das Escrituras vemos como Deus chama as pessoas antes que elas compreendam plenamente o caminho que têm pela frente. Talvez Ele esteja fazendo o mesmo com vocês. O Senhor, que conhece o coração humano com uma profundidade muito maior do que nós mesmos, costuma estar agindo em nós muito antes de chegarmos a reconhecer a sua presença.
Talvez vocês ainda não consigam dar nome àquilo que buscam. Apenas sabem que há em vocês um anseio: buscar a verdade com humildade, contemplar a Deus na oração e pertencer a uma família que, há mais de oito séculos, compartilha com a Igreja e com o mundo os frutos da contemplação por meio das múltiplas formas da pregação dominicana. Esse anseio não é uma conclusão; é um convite. E escrevo esta carta para encorajá-los a escutá-lo com maior atenção.
Em certo sentido, vocês estão sendo atraídos em direção ao próprio São Domingos e à extraordinária família que cresceu, ao longo de mais de oito séculos, em sua missão de pregar o Evangelho. Pensem naqueles que percorreram este caminho antes de vocês: Tomás de Aquino, cuja imensa inteligência esteve sempre a serviço de um amor mais profundo a Deus; Catarina de Sena, que, sem ter recebido uma formação acadêmica, falou com coragem aos papas porque amava a Cristo e à sua Igreja; Martinho de Porres, que revelou a dignidade do serviço humilde ao cuidar dos enfermos e dos esquecidos com serena alegria; Beato Angélico, em quem a arte se transformou em uma forma de oração e o olhar contemplativo transfigurou a beleza em uma pregação eloquente do Evangelho; Pier Giorgio Frassati, cuja vitalidade juvenil, amor pelos pobres e alegria na amizade nos lembram que a santidade não pertence apenas àqueles que chegam à velhice, mas a todo coração generoso. Suas vidas foram muito diferentes entre si. Pregaram em universidades e praças, em conventos e hospitais, mediante o estudo, a contemplação, as obras de misericórdia e a amizade simples. No entanto, todos se reconheciam irmãos porque pertenciam, antes de tudo, a Cristo. O mesmo espírito dominicano os animava: a busca da verdade em comunidade, o amor à oração, a compaixão por aqueles que sofrem e o desejo de compartilhar a luz do Evangelho. Se algo na vida deles ecoa no mais profundo do seu coração, não o desconsiderem. Esse reconhecimento pode ser muito mais do que admiração. Pode ser o começo de uma conversa que Deus tem desejado ter com vocês há muito tempo: uma conversa sobre a pessoa que Ele os criou para ser e o lugar onde os seus dons poderão servir melhor ao seu Reino.
Precisamente a essa conversa chamamos de discernimento, e vale a pena determo-nos para compreender o que ele realmente é e o que não é. O discernimento não é uma técnica a ser dominada, nem uma questão de perfis de personalidade ou de aptidões vocacionais, por mais úteis que essas ferramentas possam ser. Em sua essência, o discernimento é a arte paciente de aprender a escutar: a voz de Deus, os movimentos mais profundos do próprio coração e as necessidades do mundo que Deus ama com ternura inesgotável. Esta atitude de escuta não pode ser apressada. De fato, a incerteza geralmente não é um obstáculo para o discernimento, mas sim uma de suas companheiras indispensáveis. Ela nos ensina a humildade, nos dispõe a escutar e nos liberta pouco a pouco da ilusão de que nossas vidas estão, em última análise, sob o nosso próprio controle.
Muitos jovens temem cometer um erro, como se Deus estivesse esperando para descobrir uma falha ou retirar o seu chamado caso tomem um caminho errado. Mas esse não é o Deus revelado em Jesus Cristo. O Senhor que encontramos no Evangelio é o Bom Pastor que busca a ovelha perdida, o Pai que espera por seus filhos, o Cristo ressuscitado que caminha junto aos discípulos desanimados antes mesmo que eles sejam capazes de
reconhecê-lo. No caminho de Emaús, Ele os acompanha com admirável paciência, abre-lhes as Escrituras e reaviva a sua esperança muito antes de seus olhos se abrirem. Assim age a providência de Deus. Ele nunca deixa de acompanhar aqueles a quem chama.
A Família Dominicana sempre procurou se tornar uma escola desta paciente capacidade de escuta. O próprio São Domingos nunca foi um homem de pressas inquietas. Antes que a sua missão de pregação desse origem gradualmente à Ordem, passou anos vivendo com fidelidade como cônego em Osma: rezando o Ofício Divino, estudando as Sagradas Escrituras, compartilhando a vida fraterna e aprendendo a disciplina da contemplação. Aqueles anos ocultos não foram um mero prelúdio de sua vocação; constituíram o seu verdadeiro fundamento. Somente quem aprendeu primeiro a escutar pode chegar a ser um autêntico pregador. Somente quem aprendeu a permanecer em silêncio diante de Deus pode pronunciar uma palavra capaz de alcançar o coração humano.
Esta é a vida para a qual os convidamos: um modo de seguir a Cristo. Está sustentada pela convicção de que a verdade merece ser buscada durante toda a vida, de que a beleza de Deus merece ser contemplada e de que o que foi recebido na oração não pode permanecer como uma posse privada, mas deve se transformar em um dom para os outros. Como expressa tão profundamente São Tomás de Aquino: «Assim como é melhor iluminar do que somente brilhar, assim também é melhor comunicar aos outros o contemplado do que somente contemplar»1. Nosso estudo, nossa contemplação e nossa pregação nunca são fins em si mesmos. São expressões da compaixão de Cristo, que deseja que toda pessoa chegue ao conhecimento da verdade que nos liberta.
Esta visão ganha corpo de maneiras ordinárias e, no entanto, profundamente transformadoras. Está presente no estudo que, pouco a pouco, se transforma em oração, e na oração que gradualmente ilumina todo o resto. Vive em conversas que se prolongam mais do que o previsto porque o assunto partilhado revela-se mais importante do que qualquer um imaginava. Experimenta-se em amizades fundadas não apenas em interesses comuns, mas em um mesmo amor a Cristo e à verdade que Ele encarna. E encontra a sua expressão mais plena na pregação, que na tradição dominicana não nasce de possuir todas as respostas, mas de buscar com fidelidade e alegria Aquele que é a própria Verdade. Vez por outra, aqueles que se adentram na tradição dominicana descobrem que os escritos de Tomás de Aquino, Catarina de Sena, Mestre Eckhart e tantos outros mestres dominicanos iluminam perguntas que acreditavam ser exclusivamente suas. A comunhão dos santos nos lembra que a busca da verdade nunca é um caminho solitário. Como nos recorda Santo Alberto Magno, a busca da verdade não se destina a ser vivida na solidão, pois, como ele próprio afirma, somos chamados a buscar a verdade na doçura da comunidade fraterna (in dulcedine societatis quaerere veritatem2).
parecer-lhes avassaladoras. Os frades,as monjas contemplativas, as irmãs apostólicas e os leigos dominicanos participam todos do único carisma dominicano, cada um segundo uma forma de vida própria. Não se trata de vocações que competem entre si, mas de expressões complementares de uma mesma graça. A monja que vigia no silêncio contemplativo do mosteiro, o frade que anuncia o Evangelho, a irmã que serve a Cristo no ministério apostólico e o leigo dominicano que dá testemunho do Evangelho na vida familiar, no trabalho profissional e no compromisso com a sociedade participam todos da única missão confiada a São Domingos: proclamar a verdade com amor (Ef 4,15) e conduzir assim os outros ao conhecimento da verdade que leva à salvação (cf. 1 Tim 2,4).
Talvez, então, a primeira pergunta ainda não seja qual é a forma de vida para a qual Deus os chama. A pergunta mais profunda é se este modo dominicano de seguir a Cristo responde aos anseios mais íntimos do seu coração. Desperta em vocês o amor à verdade? Parece-lhes estranhamente familiar uma vida marcada pela oração, pelo estudo, pela fraternidade e pela pregação, como se respondesse a um anseio que carregam dentro de si há muitos anos sem saber como nomeá-lo?
A resposta se revela pouco a pouco. Orem com fidelidade e permitam que a sua oração seja sincera diante de Deus. Busquem a orientação de um diretor espiritual ou de um confessor prudente, capaz tanto de encorajá-los quanto de desafiá-los. Permaneçam próximos da comunidade dominicana. Não reparem se os seus membros são perfeitos, porque não o somos, mas se, no meio das exigências e dos sacrifícios da nossa vocação, possuem a alegria profunda que nasce de pertencer inteiramente a Cristo. Essa alegria é um dos sinais mais seguros de uma autêntica vocação.
No fim, a vocação não consiste simplesmente em aceitar uma missão nem em iniciar uma carreira. É a descoberta do lugar onde o chamado de Deus e a verdade mais profunda da própria vida se encontram. É ali que a pessoa chega, pouco a pouco, a estar plenamente viva, plenamente livre e plenamente em casa em Cristo.
A conhecida adaptação das palavras de Santa Catarina de Sena: «Seja quem Deus quis que você fosse e incendiará o mundo»3, não é um convite à autoafirmação, mas à santidade. Catarina compreendeu que a renovação do nosso mundo não começa com grandes estratégias, mas com homens e mulheres que permitem que a graça os transforme.
Queridos amigos, o fogo que Deus acendeu no coração de São Domingos há mais de oito séculos nunca deixou de queimar. Continua iluminando as mentes, inflamando os corações e enviando pregadores ao mundo. Se começaram a sentir sequer uma faísca desse fogo, não tenham medo. Pode ser que o Senhor os esteja convidando a se aproximar mais, a escutar com maior profundidade e a descobrir alegria de caminhar com Ele na companhia de São Domingos e de toda a Família Dominicana.
Que Maria, Rainha dos Pregadores, os acompanhe com o seu cuidado maternal, os fortaleça em seu discernimento e os conduza sempre à alegria de seguir o seu Filho.
Seu irmão em São Domingos,

P.S. Esta carta é enviada também a todos os membros da Família Dominicana como um lembrete de que acompanhar os jovens em seu discernimento é uma responsabilidade compartilhada por todos nós. Incentivo cada um deles a recebê-los com fraterna cordialidade, a rezar fielmente por vocês e a ajudá-los a discernir o caminho concreto pelo qual o Senhor os chama a participar da missão e da alegria de São Domingos.
1 Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, c. 188, a. 6.
2 San Alberto Magno, In Politicorum, lib. VIII, tract. 1, c. 6 (ed. Borgnet, VIII, 803–804).
3 Santa Catalina de Siena, Carta a Stefano Maconi (Carta 368): «Si eres lo que debes ser, prenderás fuego a toda Italia.» La versión ampliamente difundida, «Sé quien Dios quiso que fueras y prenderás fuego al mundo», es una adaptación moderna, que resuena en las palabras del papa Juan Pablo II en su Homilía en la Misa de clausura de la Jornada Mundial de la Juventud, Tor Vergata, Roma, 20 de agosto de 2000.
