L’OSSERVATORE ROMANO
mercoledì 20 maggio 2020 (quarta-feira, 20 de maio de 2020) — página 9
O trigésimo aniversário da beatificação por parte de João Paulo II do jovem turinês falecido com apenas vinte e quatro anos
O vínculo entre Karol Wojtyła e Pier Giorgio Frassati.

Duas pessoas, dois caminhos diferentes, com séculos de diferença de história intensa atrás de si. Caminhos de épocas diferentes, embora os anos não sejam assim tão distantes. Apenas o seu nascimento, com o seu fascínio misterioso e envolvente, serve de pano de fundo comum às vivências de dois “jovens” que têm algo de verdadeiramente importante para partilhar: a amizade com Cristo. Duas pessoas que partilharam idealmente as suas vidas: Karol Wojtyła e Pier Giorgio Frassati. Santo Pontífice, o primeiro, do qual se celebra o centenário do nascimento; bem-aventurado o segundo, beatificado há trinta anos pelo próprio Papa polaco.
Tiveram o seu primeiro ponto de contacto à distância, nos mesmos ambientes dominicanos. Wojtyła conheceu a figura de Pier Giorgio quando, como jovem estudante (para não falar dos seus predecessores da sua arquidiocese de Wadowice). Desde então, o vínculo entre os dois nunca mais se interrompeu. Cúmplice foi a afinidade entre a história de Pier Giorgio — falecido prematuramente por causa de uma poliomielite fulminante contraída durante as suas visitas aos pobres de Turim nos primeiros anos do século XX — e a do irmão mais velho de Wojtyła, Edmund. Também ele faleceu em poucos dias devido a uma doença infeciosa contraída no hospital onde clinicava e cuidava dos doentes. Edmund era um médico que, bem consciente dos riscos que corria no serviço aos doentes, se dedicou de corpo e alma à sua profissão. Para Giorgio, a visão das suas montanhas, o amor ao próximo e, não menos importante, o amor por Edmund. Duas vidas truncadas pelo desejo de ajudar os outros.
Para Wojtyła, olhar para Pier Giorgio era um pouco como recordar o seu irmão, do qual conservava o estereoscópio na sua própria secretária. Os pontos de encontro entre Karol e o rico burguês turinês tornaram-se sempre mais numerosos. As palavras de Frassati — «todos os dias me apaixono sempre mais pelas montanhas e gostaria, se os meus estudos mo permitissem, passar dias inteiros nas montanhas para contemplar na pureza a grandeza do Criador» — poderiam muito bem ter sido pronunciadas pelo Papa polaco.
O amor pelas montanhas e pelo criado é comum a ambos e traduz-se no fim em companhias solidárias e entusiastas no escalar os cumes. Seguramente, o sacerdote Wojtyła teria aceitado fazer parte do grupo irrelevante, isto é, “família”, formado por jovens estudantes que por um lado e por outro se reuniam na fé e no Evangelho. Um grupo criado quase à imagem daquele dos “Tipos Teimosos” idealizado por Frassati para envolver os seus amigos no amor pelas montanhas, na castidade e na fé em Cristo, impelindo-os a agir para se tornarem os primeiros defensores da caridade. O pároco Wojtyła propunha aos seus os exemplos de vida de Frassati, leigo terceiro dominicano, inscrito nas Conferências de São Vicente de Paulo e na Federação Universitária Católica Italiana (FUCI), como modelo de cristão empenhado no social e no serviço aos irmãos mais necessitados. Um modelo de vida fiel ao Evangelho que Wojtyła, uma vez nomeado arcebispo de Cracóvia, não deixará de indicar aos jovens, como fez a 27 de março de 1977, durante a inauguração da mostra sobre Pier Giorgio promovida pelos dominicanos: «Frassati — disse nessa ocasião — pode ser considerado um “santo jovem”, como um patrão, o guia espiritual da juventude académica, também daquela desta geração».
O próprio cardeal de Cracóvia é considerado o patrono dos jovens, antes mesmo de que fosse levado a termo o processo canónico de beatificação. Recordamos que o itinerário jurídico foi aberto em 1932 pela Igreja turinesa, mas foi muito atribulado e conturbado. Foi suspenso, e depois retomado por Paulo VI, que tinha conhecido a pessoa de Pier Giorgio Frassati. E coube precisamente a João Paulo II, que a 20 de maio de 1990 proclamou beato Pier Giorgio. Sempre durante a inauguração da mostra, o cardeal Wojtyła apresentou a figura de Frassati como “o homem das bem-aventuranças”, que traz consigo a graça do Evangelho, da Boa Nova, a alegria da salvação oferecida por Cristo, e isto serve para todos os jovens, como homem do vivo, como um verdadeiro jovem no seu estudo, rapaz, vosso coetâneo — disse dirigindo-se aos jovens —, para estas gerações. Andai, e observai como era o homem das bem-aventuranças. Wojtyła via em Pier Giorgio o jovem que não se envergonha, que não morre, porque radicou a sua vida em Cristo e a Ele se ancorou como o único caminho para a vida.
Uma vez eleito Papa, Karol estreitou ainda mais o seu vínculo com Pier Giorgio. Via-o como o jovem da alegria fascinante, da realização das promessas feitas de Jesus no Evangelho. Nele encontrava um modelo para quantos queriam dedicar-se aos pobres e aos doentes, mas também participar na vida política e social do próprio País para refletir nela os princípios cristãos da doutrina da Igreja. Quando João Paulo II visitou Turim, a 13 de abril de 1980, teve oportunidade de aproximar a figura de Pier Giorgio de Dom Bosco; o primeiro como “verdadeiro jovem cristão”, o segundo como “verdadeiro educador”. Nessa ocasião, o Pontífice referiu um dos motivos para admirar a figura do jovem turinês: «Aberto aos problemas da cultura, do desporto, do alpinismo, atento às questões sociais, aos valores verdadeiros da vida, ele era ao mesmo tempo um homem profundamente crente, alimentado pelo mensagem evangélica, solidíssimo no caráter, coerente, apaixonado no serviço aos irmãos, consumido num desejo de caridade que o levava a aproximar, segundo uma ordem de precedência absoluta, os pobres e os doentes».
Ainda não se tinha concluído o processo canónico de beatificação que o Papa Wojtyła continuava a indicar o exemplo de Pier Giorgio aos jovens do nosso tempo. Uma volta o fez durante a visita ao Centro Internacional Juvenil de São Lourenço, a 15 de março de 1985. «No exemplo de São Francisco — disse nessa ocasião —, gostaria de vos recordar como modelo a tender para os ideais que a figura de um jovem viveu na nossa época, Pier Giorgio Frassati». Indicou-o como um jovem “moderno”, sublinhando que ele tinha “vivido as Bem-aventuranças do Evangelho”. Mais uma vez, o Papa polaco evidenciou a importância do testemunho de vida oferecido por Frassati. E houve um outro aspeto em particular colocado em evidência por João Paulo II a propósito de Pier Giorgio: operador de paz. Assim o definiu durante o encontro para o jubileu internacional dos desportistas, reunidos no estádio Olímpico de Roma no dia 12 de abril de 1984. Pier Giorgio podia ser listado a pleno título entre os desportistas, como um valente alpinista e um provado esquiador. O Pontífice recordou uma frase escrita após a Primeira Guerra Mundial: «Com a caridade semeia-se nos homens a paz, mas não a paz do mundo, mas a verdadeira paz que só a fé de Jesus Cristo nos pode dar, ligando-nos uns aos outros». O Papa indicou-o como um programa, para que em cada lugar da terra — disse aos numerosos presentes — estivessem homens da verdadeira paz de Cristo.
Viu-se finalmente afinidade entre Wojtyła e Frassati no amor à Eucaristia. O beato transcorria horas diante do Santíssimo Sacramento na catedral de Turim, e assim Wojtyła, primeiro da paróquia, depois da diocese e enfim da Sede do Papa, passava em oração muitíssimo tempo. Ambos, desportistas, jovens e atletas de Cristo, podiam ser definidos homens de oração. João Paulo II, no dia da beatificação de Pier Giorgio, ocorrida na Praça de São Pedro a 20 de maio de 1990, fez notar o segredo do zelo apostólico e da santidade de Frassati, que vai procurado no itinerário ascético e espiritual da sua pessoa, isto é: «na oração, na adoração prolongada, na adoração noturna, diante do Santíssimo Sacramento, na sua sede da Palavra de Deus, escutada nos textos bíblicos; na aceitação das dificuldades da vida também familiares; na castidade vivida como disciplina clara e sem compromissos; na predileção quotidiana pelo silêncio e pela “normalidade” da existência».
Não se pode deixar de fazer referência à devoção mariana que unia Pier Giorgio e João Paulo II, o Papa do Totus tuus. Frassati gostava de deixar Turim e ir frequentemente ao santuário mariano de Oropa para rezar à Virgem, e Wojtyła era solidamente ligado ao santuário de Kalwaria. Dois santuários marianos que uniam o santo e o beato no seu terno afeto à Mãe de Deus. Assim como os seus caminhos se cruzaram nas montanhas, na penumbra da adoração eucarística e no amor aos necessitados, renovaram-se sempre na devoção a Maria, de modo a torná-los semelhantes na sua fé na Mãe da ternura.
Seria hoje oportuno celebrar de maneira adequada o duplo aniversário do centenário do nascimento de Karol Wojtyła e os trinta anos da beatificação de Pier Giorgio, mas por causa da emergência sanitária da covid-19 não é possível. Todavia, dom Paolo Asolan, presidente do Pontifício Instituto Pastoral Redemptor Hominis, enviou uma carta aos amigos de Frassati, na qual recorda, entre outros, como Wojtyła tinha compreendido o mistério íntimo do beato desde que era jovem: «Também eu, na minha juventude — disse João Paulo II à presença da irmã de Frassati, Luciana Gawronska, no cemitério de Pollone, a 16 de julho de 1989 —, senti o benefício influxo do seu exemplo e, como estudante, fiquei impressionado pela força do seu testemunho cristão». Revelou assim, escreve dom Asolan, «a duração e a força do vínculo que o unia ao seu homem das bem-aventuranças: uma impressão excecional que o tinha marcado, modelado. Efetivamente, no estilo pastoral: aberto, dinâmico, humanamente rico e culto, na veste clerical, e todavia pleno de uma fé evidente e de uma oração que eram próprias do Papa polaco, há muito do estilo e das características humanas e espirituais de Pier Giorgio». O que une ambos «é o vosso fascinante modo de voar alto; para a montanha e além».
Dom Asolan conclui imaginando-os como hoje, unidos no Céu na comunhão dos santos, nos falarão: uma realidade de que podemos apenas imaginar, «pelo que as nossas humanas experiências nos permitem conhecer». E, todavia, «pensá-lo e representá-lo com os olhos da fé pode tornar-nos partícipes daquela amizade, isto é, daquela vida». Esta pode deixar também em nós «um benefício influxo, uma impressão que nos dê forma. Coisa, esta, de que hoje temos necessidade: para tornar bela a nossa existência e para mantê-la a serviço do mundo, desse mundo complexo e secularizado em meio ao qual também Frassati passou irradiando toda a força da sua caridade». (nicola gori)
(Legenda da foto ): A 16 de julho de 1989, João Paulo II visitou o cemitério de Pollone, junto de Biella, o túmulo de Pier Giorgio Frassati, sucessivamente transladado para a catedral de Turim.


