Verso l’Alto: A Mística da Oração, da Ação e das Montanhas na Vida de São Pier Giorgio Frassati
*Eduardo Henrique da Silva
Resumo
Este artigo analisa a trajetória biográfica, o engajamento sociopolítico e a espiritualidade de São Pier Giorgio Frassati (1901–1925). A partir do cruzamento teórico de seus principais biógrafos e de suas cartas pessoais, discute-se como o jovem harmonizou a alta burguesia piemontesa, o montanhismo e a caridade radical. O trabalho aborda, ainda, o desfecho histórico de sua elevação aos altares por meio de seu processo de canonização. [1, 2]
Palavras-chave: Pier Giorgio Frassati; Espiritualidade; Alpinismo; Mística Social; Canonização.
1. Introdução e o Cotidiano Doméstico por Luciana Frassati
São Pier Giorgio Frassati representa um dos testemunhos mais revolucionários do laicato católico no século XX. Longe de encarnar uma santidade etérea ou alienada, o jovem estudante de Engenharia de Minas uniu o rigor científico, o ativismo político e uma intensa vida mística contemplativa. [1]
Para compreender sua realidade humana e as lutas internas que enfrentou, a obra de sua irmã, Luciana Frassati, assume papel primordial. Em suas memórias familiares, ela reconstrói o ambiente da alta burguesia de Turim. Seu pai, Alfredo Frassati, era um agnóstico influente, fundador do renomado jornal La Stampa e embaixador da Itália na Alemanha. Sua mãe, Adelaide Ametis, era uma pintora de prestígio. Luciana Frassati revela que o verdadeiro martírio de Pier Giorgio foi silencioso: a incompreensão de seus próprios pais, que viam sua intensa religiosidade como fanatismo ou excentricidade. É por meio de seus relatos que se compreende o choque da aristocracia turinense no dia de seu funeral, tomado por uma multidão de deserdados e operários. [1, 2, 3, 4, 5]
Apenas após ter a ciência aprofundada e amadurecida pelo tempo, considero hoje complacentes e apressados os julgamentos dados sobre meu irmão… Descobre-se nele o eco exultante e ao mesmo tempo meditativo de uma alma em contínua ascensão (FRASSATI, L., 2013, p. 45).
2. A Formação Moral e Sacramental sob a Óptica de Dom Antonio Cojazzi
Dom Antonio Cojazzi, sacerdote salesiano e professor de Pier Giorgio, foi o responsável por redigir a primeiríssima biografia do jovem, publicada originalmente em 1928. Cojazzi teve a oportunidade única de recolher os testemunhos a quente de amigos da FUCI (Federação Universitária Católica Italiana) e da Ação Católica.
A análise de Cojazzi afasta os estereótipos de uma santidade melancólica. Ele retrata Pier Giorgio como um rapaz vigoroso, atlético, amante da ópera e dotado de um bom humor contagiante. Contudo, o sacerdote documenta que a usina de onde brotava essa alegria inabalável era a sua disciplina espiritual. A comunhão diária, a confissão frequente e as vigílias noturnas de adoração eram os pilares indispensáveis que sustentavam o caráter do jovem diante dos desafios acadêmicos e sociais. [1]
3. A Psicologia da Alegria e o Alpinismo em Robert Claude
O padre jesuíta Robert Claude estuda minuciosamente a psicologia espiritual de Frassati. Em sua tese biográfica, Claude utiliza a grande paixão de Pier Giorgio — o alpinismo — como o fio condutor de sua teologia existencial. No topo dos Alpes, Pier Giorgio encontrava o ambiente ideal para a contemplação pura e a oração comunitária com seu grupo de amigos, os “Tipi Loschi” (Tipos Suspeitos). [1]
Claude imortaliza a mística de Frassati por meio dos relatos de seus contemporâneos. O autor narra o emblemático episódio ocorrido na Basílica de Loreto: o companheiro de quarto de Pier Giorgio, ao notar sua ausência pela manhã, foi procurá-lo no templo. Encontrou-o ajoelhado sobre o mármor frio diante do altar, em tamanho estado de absorção mística e colóquio com o Absoluto que o amigo recuou, paralisado pelo temor reverencial: [1, 2]
Quis se aproximar dele, mas algo o reprimiu, uma emoção o deteve: ‘Não saberia dizer o que aconteceu comigo naquele momento. Eu o senti tão magnânimo, em colóquio direto com o Absoluto, e tão acima de mim…’ (CLAUDE, 1962, p. 88).
4. O Rigor Histórico e o Catolicismo Social de Carla Casalegno
Para compreender Frassati livre de idealizações românticas e devidamente inserido nas duras tensões políticas da Itália da década de 1920, a obra de Carla Casalegno é a principal referência historiográfica. Ela analisa Frassati sob o prisma dos “santos sociais de Turim”.
Casalegno detalha o engajamento político de Pier Giorgio no Partido Popular Italiano (Partito Popolare) e sua oposição ferrenha ao fascismo nascente de Benito Mussolini. A autora documenta episódios em que Frassati usou de força física para defender as bandeiras católicas contra ataques de milícias fascistas em Roma. A caridade de Pier Giorgio não era mero assistencialismo romântico, mas uma exigência intrínseca de justiça baseada na encíclica Rerum Novarum. Ele chegava a alugar carroças do próprio bolso para ajudar famílias despejadas a carregar seus móveis pelas ruas de Turim. Como bem destaca a autora, “alguns biógrafos citam o próprio Frassati dizendo uma vez, em conversação, que ‘a caridade requer justiça'” (CASALEGNO, 2013, p. 112).
5. Epistolário e a Mística das Montanhas: O Próprio Punho do Santo
O enriquecimento definitivo da trajetória de Frassati encontra-se em suas cartas pessoais. Elas revelam que o termo “Verso l’Alto” (Para o Alto) — grafado em sua última fotografia escalando o Pico Lunella em 7 de junho de 1925 — não era um slogan esportivo, mas um programa de vida teologal. Nas cartas dirigidas aos seus amigos mais próximos, como Isidoro Bonini e Marco Beltramo, Pier Giorgio confidenciava como a altitude refletia sua sede de Infinito. [1, 2, 3]
A união indissolúvel entre a contemplação nas montanhas e o serviço nos cortiços miseráveis de Turim fez com que intelectuais católicos do pós-guerra, como Giuseppe Lazzati e Giorgio La Pira, revisitassem Frassati. Lazzati o definia como o protótipo do cristão leigo que santifica as estruturas da cidade, enquanto La Pira apontava nele a “mística dos olhos abertos”: uma oração ardente que o empurrava com violência de amor para o meio das favelas, carregando fardos de carvão e cobertores para os desamparados.
6. O Processo de Canonização: O Reconhecimento Eclesial
A fama de santidade de Pier Giorgio Frassati espalhou-se rapidamente após sua morte prematura em 1925. O processo canônico oficial avançou significativamente nas décadas seguintes devido ao incessante trabalho de resgate documental promovido por sua irmã Luciana e pela Ação Católica Italiana. [1]
Em 20 de maio de 1990, o Papa João Paulo II o beatificou na Praça de São Pedro, conferindo-lhe o título de “O Homem das Bem-Aventuranças”. O Pontífice o apresentou ao mundo como um modelo atualíssimo de jovem que soube viver o Evangelho de forma integral no cotidiano universitário e esportivo. [1, 2, 3, 4]
A causa de canonização ganhou o impulso definitivo com a validação do milagre exigido pela legislação canônica: a cura inexplicável, ocorrida em 2017, de um seminarista que sofreu uma grave lesão no tendão de Aquiles e recuperou-se plenamente após orações de intercessão direcionadas a Frassati. [1]
O desfecho histórico de sua elevação aos altares ocorreu em 7 de setembro de 2025. Em uma solene celebração na Praça de São Pedro presidida pelo Papa Leão XIV, Pier Giorgio Frassati foi oficialmente canonizado como Santo da Igreja Católica, em uma cerimônia conjunta com outro ícone da juventude contemporânea, São Carlo Acutis. A data coroou o centenário de sua morte e o inseriu definitivamente no Livro dos Santos como padroeiro dos jovens, dos estudantes e dos alpinistas. [1, 2, 3, 4, 5, 6]
7. Conclusão
A trajetória de São Pier Giorgio Frassati, analisada de forma transversal através dos estudos de Luciana Frassati, Dom Antonio Cojazzi, Robert Claude, Carla Casalegno e das investigações complementares de Silva (2026), consolida-se como um dos testemunhos mais vigorosos da mística secular contemporânea. Longe de representar uma santidade apartada do mundo, Frassati demonstrou que o cume das montanhas e o subsolo da miséria humana constituem o mesmo território geográfico da Graça. Ele desmistificou o ascetismo clerical ao viver sua fé em trajes civis: subindo os Alpes, militando politicamente, fumando seu cachimbo e rindo entre os amigos de faculdade.
A riqueza literária de sua correspondência pessoal e o rigor histórico de suas biografias comprovam que seu lema, Verso l’Alto, nunca se restringiu a um mero horizonte topográfico ou esportivo. Tratava-se de uma tensão escatológica permanente, uma força vertical que encontrava sua contrapartida horizontal no serviço radical aos mais necessitados. A caridade de Frassati não se diluiu em assistencialismo alienante; pelo contrário, ergueu-se como uma resposta profética e politizada contra as opressões de seu tempo, unindo a urgência do pão à exigência estrutural da justiça social.
Sua histórica canonização em 7 de setembro de 2025, celebrada no ano de seu centenário de falecimento, não apenas referendou sua estatura espiritual perante a Igreja Universal, mas inseriu definitivamente o jovem piemontês como o grande referencial teológico e existencial para a juventude do século XXI. Em uma época marcada por crises de sentido e hiperconectividade abstrata, o “Homem das Bem-Aventuranças” permanece como um farol de autenticidade, provando que a santidade é uma realidade concreta, jovem, alegre e profundamente comprometida com a transformação da cidade dos homens.
Referências Bibliográficas
CASALEGNO, Carla. Pier Giorgio Frassati. Cantalupa: Effatà Editrice, 2013.
CLAUDE, Robert, SJ. Frassati parmi nous. Paris/Tournai: Casterman, 1962.
COJAZZI, Antonio. Pier Giorgio Frassati. Turim: Società Editrice Internazionale (SEI), 1928.
FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: La carità. Cantalupa: Effatà Editrice, 2013. [1, 2]
FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: La fede. Milão: Edizioni Paoline, 2004. [1, 2, 3]
LA PIRA, Giorgio. Il sentiero Isaia: scritti ed empenho social. Florença: Cultura, 1978.
LAZZATI, Giuseppe. Il laicato cristico e la città dell’uomo. Milão: Vita e Pensiero, 1984.
SILVA, Eduardo Henrique da. A mística do cotidiano em Pier Giorgio Frassati. São Paulo: [s. n.], 2026. [1]
Pier Giorgio Frassati: A Santidade na Arena Política
Eduardo Henrique da Silva*

Para compreender a santidade de Pier Giorgio Frassati (1901–1925), é preciso desarmar a imagem açucarada de uma piedade puramente intimista. Como bem destaca o jornalista e historiador Luca Rolandi em sua abordagem biográfica (ROLANDI, 2020), Frassati viveu em um dos períodos mais complexos e violentos da Itália moderna: o primeiro pós-guerra, o “biênio vermelho” (biennio rosso) e a ascensão fulminante do fascismo.
Nesse cenário, Pier Giorgio não se refugiou nas sacristias. Ele entendia a política e o empenho social não como apêndices de sua fé, mas como a expressão máxima dela.
Abaixo, cruzamos as perspectivas de sua irmã, Luciana Frassati, de grandes nomes do laicato católico italiano como Giorgio La Pira e Giuseppe Lazzati, e a análise contextual de Luca Rolandi para traçar o perfil desse jovem que fez da caridade a sua principal ferramenta de ação civil.
1. O Olhar Íntimo e Histórico: Luciana Frassati
Ninguém conheceu a alma e as contradições do ambiente em que Pier Giorgio cresceu tão bem quanto sua irmã, Luciana Frassati. Em suas ricas memórias biográficas (FRASSATI, 1953), Luciana revela que o compromisso de Pier Giorgio com os pobres e com a justiça social nascia em um ambiente familiar paradoxal: o pai, Alfredo Frassati (fundador do jornal La Stampa e senador liberal), era um homem agnóstico e de mentalidade burguesa, que muitas vezes via com ceticismo a “exagerada” devoção do filho.
Luciana relata que Pier Giorgio subvertia a lógica de sua própria classe social. Ele utilizava a sua mesada e até as passagens de bonde para ajudar as famílias operárias de Turim. Para a irmã, a política de Pier Giorgio não era ideológica, mas humana; ele via na militância uma forma direta de aliviar o sofrimento da classe trabalhadora, recusando-se a fechar os olhos para a miséria que a burguesia de Turim preferia ignorar.
2. A Política como “Alta Caridade”: Luca Rolandi
Ecoando as palavras de Pio XI (e mais tarde de Paulo VI), que definiram a política como “a forma mais alta de caridade”, Luca Rolandi situa o jovem Frassati no olho do furacão histórico entre 1921 e 1925 (ROLANDI, 2020). Conforme Rolandi descreve, Pier Giorgio foi um militante convicto e operoso.
Ele não dividia seu tempo entre o altar e a sede do partido; sua ação era unificada. Frassati engajou-se profundamente na FUCI (Federação Universitária Católica Italiana) e no Partido Popular Italiano (PPI), fundado pelo sacerdote Don Luigi Sturzo. Em Turim, uma cidade operária em efervescência e sob a ameaça do esquadrismo fascista, Pier Giorgio colocou o corpo em risco. Rolandi recorda que ele participava de manifestações operárias, defendia a liberdade de imprensa e peitava a violência dos “camisas negras” nas ruas. Para Frassati, aceitar o fascismo era trair o Evangelho, pois o totalitarismo negava a dignidade intrínseca do ser humano.
3. O Modelo do Cristão na Cidade: Giuseppe Lazzati
Giuseppe Lazzati, um dos grandes intelectuais do catolicismo democrático italiano e também um leigo engajado na política do pós-guerra, via em Pier Giorgio o protótipo do “cristão na cidade” (LAZZATI, 1984). Lazzati defendia que o leigo católico não deve “clericalizar” a política, mas sim “laicizar” o Evangelho, ou seja, traduzir os valores cristãos em estruturas democráticas, leis justas e instituições solidárias.
Na análise que se faz a partir do legado de Lazzati, Frassati preenche perfeitamente esse requisito. Ele não queria um Estado teocrático; ele queria um Estado justo. Ao atuar no Partido Popular, Pier Giorgio buscava reformas estruturais: justiça social para os trabalhadores, direito à educação e liberdade sindical. Ele entendia, como Lazzati formularia anos mais tarde, que a fé que não se torna cultura e ação social é uma fé morta.
4. A Mística da Ação: Giorgio La Pira
Se Lazzati fornece a estrutura conceitual do leigo na política, Giorgio La Pira — o “prefeito santo” de Florença — fornece a chave mística que une Frassati à ação social (LA PIRA, 1978). La Pira, que também fez da política um sacerdócio civil, via em Pier Giorgio um irmão de alma.
Para La Pira, a política só faz sentido se partir de uma profunda contemplação de Deus que se desdobra no amor aos mais vulneráveis. Frassati alimentava seu empenho político na comunhão diária e na adoração eucarística nas madrugadas. Era essa recarga espiritual que lhe dava forças para, logo em seguida, carregar sacos de carvão nas favelas de Turim ou discursar contra a opressão política. La Pira e Frassati personificam a “mística dos olhos abertos”: a oração que não aliena, mas que empurra o crente para o meio do povo.
Conclusão: Um Legado Atual
A análise historiográfica de Luca Rolandi nos lembra da importância de “reportar Frassati ao seu contexto histórico, além do mito”. Ao ser canonizado, Pier Giorgio Frassati não deve ser lembrado apenas como o “jovem das montanhas” ou o “santo desportista”.
A análise cruzada de Luciana Frassati, Giorgio La Pira, Giuseppe Lazzati e Luca Rolandi nos entrega o retrato de um jovem revolucionário no sentido mais puro do termo. Em uma época em que a política frequentemente se esvazia de ética e o individualismo isola as pessoas, Frassati permanece como um farol aceso: a prova viva de que a fé cristã, quando vivida radicalmente, é uma força política e social capaz de desafiar ditaduras, derrubar muros de privilégios e construir a civilização do amor.
Fontes e Referências Bibliográficas
- FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: La Fede. Bolonha: Il Mulino, 1953. (Obra biográfica de referência onde a irmã relata a vida íntima e os embates familiares de Pier Giorgio).
- LA PIRA, Giorgio. La secolarità cristiana: il laicato nella Chiesa e no mondo. Milão: Vita e Pensiero, 1978. (Reflexões sobre o papel do cristão na transformação social e política, dialogando com o testemunho de Frassati).
- LAZZATI, Giuseppe. La città dell’uomo: per una politica a misura d’uomo. Roma: Ave, 1984. (Obra fundamental que conceitua o “cristão na cidade” e a autonomia teológica do leigo na arena pública).
- ROLANDI, Luca. Pier Giorgio Frassati: Il giovane delle otto beatitudini. [Biografia referenciada no material/capa do livro analisado]. Turim: Edizioni Effatà, 2020. (Texto base contextualizador do cenário político do pós-guerra e do combate ao fascismo).
* Responsável pelo site no Brasil.
O Coração Alpinista conformatado ao Coração de Cristo.
Eduardo Henrique

Para Pier Giorgio, o Sagrado Coração não era uma devoção estática ou sentimental, mas uma fonte de energia e ação. Ele entendia a promessa de Jesus de transformar os corações e desejava que o seu próprio coração batesse no mesmo ritmo do de Cristo.
Ele costumava dizer que “o sofrimento não é tristeza”, e que o verdadeiro católico deve transbordar alegria. Essa alegria vinha de um esvaziamento de si mesmo para ser preenchido pelo amor divino.
“Jesus me visita todas as manhãs na Comunhão, e eu o visito do modo miserável que posso: visitando os pobres.” — Pier Giorgio Frassati
Ao carregar fardos pesados de carvão para famílias carentes, doar suas roupas ou gastar seu próprio dinheiro de transporte para ajudar os necessitados de Turim, Pier Giorgio estava apenas permitindo que o amor do Coração de Jesus — que ele recebia diariamente na Eucaristia — transbordasse para o próximo.
A Conexão com o Apostolado da Oração
O Apostolado da Oração (hoje conhecido mundialmente como a Rede Mundial de Oração do Papa) nasceu exatamente com a missão de oferecer o dia a dia, os trabalhos, as dores e as alegrias em união com o Oferecimento Diário ao Sagrado Coração de Jesus, rezando pelas intenções da Igreja e do Papa.
Pier Giorgio encarnou perfeitamente os três pilares que sustentavam o movimento e os grupos de jovens católicos da sua época: Oração, Ação e Sacrifício.
- A Oração como Combate: Ele corria para os momentos de adoração noturna ao Santíssimo Sacramento e era frequentemente visto rezando o terço com as contas escondidas no bolso enquanto caminhava pelas ruas ou subia montanhas.
- O Oferecimento Diário: O Apostolado propõe que cada ação do dia se torne uma prece. Frassati fazia exatamente isso: suas trilhas nos Alpes, seus estudos de engenharia de minas, suas discussões políticas e suas visitas aos cortiços eram uma oração contínua. Ele oferecia sua juventude para conquistar almas para Deus.
- O Apostolado do Exemplo: Pier Giorgio arrastava seus amigos. Ele fundou um grupo chamado Tipi Loschi (“Tipos Suspeitos”), que na verdade era uma liga de amigos que iam juntos às montanhas para rezar, partilhar a fé e rir. Ele mostrava que a oração não afastava o jovem da vida real, mas a tornava plena.
O Legado do “Homem das Bem-Aventuranças”
Pier Giorgio faleceu tragicamente aos 24 anos, vítima de uma poliomielite que contraiu justamente ao atender os pobres em seus leitos de miséria. Seu funeral parou a cidade de Turim, revelando uma multidão de necessitados que ele ajudava em segredo.
A sua ligação com o Sagrado Coração de Jesus e o espírito do Apostolado da Oração nos deixam uma lição clara: a oração e a caridade não se anulam; elas dependem uma da outra. Foi bebendo da fonte do Coração aberto de Cristo que esse jovem encontrou forças para viver o seu lema mais famoso, gravado no verso de uma foto tirada nas montanhas:
“Verso l’alto” (Para o alto).
Para ele, subir a montanha física era apenas o reflexo da subida espiritual diária que fazia de mãos dadas com o Coração de Jesus.
A Vida Extraordinária de Pier Giorgio Frassati: Um Jovem Apaixonado por Deus e pelos Pobres
* Paolo Risso

No dia 20 de maio, celebra-se uma data muito especial para a Igreja: o aniversário da beatificação de Pier Giorgio Frassati, ocorrida no ano de 1990 pelo Papa João Paulo II. Aqueles que o conheceram de perto são unânimes em afirmar que o grande segredo de sua perfeição espiritual deve ser buscado, de modo especial, na sua devoção assídua, sincera, profunda e terníssima à Virgem Maria.
Quem olhasse para Pier Giorgio via um jovem cheio de vida. Ele costumava cruzar a zona rural de Biella montado em seu cavalo “Parsifal”. Pelas ruas de Turim, cercado de amigos, enchia o ambiente com uma algazarra contagiante. Era também um alpinista ágil e forte que escalava os picos dos Alpes, muitas vezes arrastando atrás de si os companheiros mais fracos graças aos seus músculos de aço. Dono de um rosto sempre aberto ao sorriso e à risada estrondosa, era uma figura extremamente simpática e cativante que se fazia amar por todos.
Nascido em Turim no dia 6 de abril de 1901, um sábado santo, Pier Giorgio era filho do senador liberal Alfredo Frassati — dono e diretor do renomado jornal La Stampa e embaixador da Itália em Berlim. Sua sólida e límpida formação cristã veio da influência materna, de seu primeiro instrutor, o salesiano dom Cojazzi, e de seus mestres no Instituto Social dos Padres Jesuítas. Muito cedo, ele descobriu Cristo como seu primeiro e grande Amor, sentindo-se profundamente amado por Ele e impelido a retribuir essa graça com uma afeição extraordinária.
Para Pier Giorgio, a vida era um dom de amor. Cristo transformava tudo ao seu redor e o mobilizava a caminhar por todas as estradas para torná-Lo presente e mudar o mundo. Enquanto se dedicava aos estudos e aos amigos, mantinha uma vida de oração intensa, sempre com o Rosário nas mãos e recebendo a Comunhão diariamente. Ele também teve forte atuação social e política: participava ativamente das Conferências de São Vicente para servir os mais pobres em suas humildes águas-furtadas, integrava o Círculo Universitário Cesare Balbo e era filiado ao recém-nascido Partido Popular, onde lutava pelas classes desfavorecidas e contra o fascismo nascente.
Sua coragem o tornou um verdadeiro líder, respeitado tanto por liberais quanto por socialistas. Os fascistas, por sua vez, o temiam, pois já haviam provado de seus socos terríveis em momentos de confronto. Além disso, Pier Giorgio dedicava suas noites à adoração diante do Tabernáculo, era apaixonado por esportes e ingressou na Ordem Terceira Dominicana no convento de São Domingos, em Turim, adotando o nome de “Frei Girolamo” em homenagem ao mártir Savonarola, com quem partilhava o ideal de reforma espiritual e social.
O segredo por trás de uma trajetória tão marcante era a sua relação filial com Nossa Senhora. Seus amigos relatavam que era impossível lembrar-se dele sem associá-lo ao seu amor à Virgem Santíssima. Oropa era o seu santuário mais querido, localizado a poucos quilômetros de Pollone, terra de sua família. Ele subia até lá inúmeras vezes de madrugada, combinando com o jardineiro para acordá-lo ao amanhecer, e retornava cedo para que ninguém em sua casa notasse sua ausência. Testemunhas da época lembram-se de sua fisionomia transformada pelo amor mariano. Certa vez, o padre redentorista P. Rizzi o encontrou no adro do santuário completamente coberto de neve e lama. Ao ser questionado sobre como havia subido com um tempo tão ruim, Pier Giorgio apenas respondeu com um sorriso infantil. Ele rezava o Rosário sem qualquer tipo de respeito humano ou vergonha, pois aquela era sua oração predileta.
Há relatos marcantes de sua participação na coroação da imagem de Nossa Senhora de Oropa, em 29 de agosto de 1920, quando subiu a montanha a pé cantando ladainhas e comungou bem cedo. Sua irmã, Luciana, recordava que ele irradiava uma alegria contagiante que transparecia em seus atos e palavras, e que sua voz forte dominou o coro dos fiéis após ajudar a carregar a estátua em triunfo. O pároco de Cossato também destacava a beleza de sua oração, dizendo que Pier Giorgio fixava os olhos na imagem da Virgem como se quisesse devorá-la com o olhar. Essa forte ligação estendia-se a outros santuários de Turim, como o da Consolata e o de Nossa Senhora Auxiliadora.
Foi na escola de Maria que ele aprendeu a ser um homem de oração e silêncio, livre, feliz e capaz de testemunhar Cristo mesmo onde Ele era negado ou ofendido. Pier Giorgio cultivava as próprias plantas que davam as sementes escuras usadas para confeccionar seus terços, os quais distribuía aos amigos como convite à oração. Ele rezava de joelhos no chão do quarto após longas jornadas de estudo e cansaço — comovendo até seu pai, que era laico —, ou prostrado de bruços nas vigílias noturnas, bem como no meio das barulhentas excursões com os jovens na montanha. Sua fé também se provou na perseguição: em setembro de 1921, ao ser preso e maltratado pela polícia junto a outros jovens no Congresso da Ação Católica em Roma, ele ergueu o Rosário no pátio do interrogatório e clamou aos companheiros para que rezassem juntos por aqueles que os haviam agredido.
Diferente de muitos jovens de sua época que, inspirados pela literatura da época, buscavam fazer da vida uma “obra-prima” baseada no esteticismo, na violência ou no vício, ou daqueles que se limitavam ao compromisso civil sem Deus, Pier Giorgio fez de sua existência uma obra-prima de Cristo. Ele colocava em prática o conselho de Maria nas Bodas de Caná: “Façam tudo o que Ele vos disser”.
Sua jornada terrena foi breve. Ele faleceu em 4 de julho de 1925, aos 24 anos, vítima de uma poliomielite fulminante contraída justamente enquanto visitava os necessitados em seus cortiços. Seus funerais foram um verdadeiro triunfo popular. Pouco antes de partir, deixou registrada a seguinte frase: “Consegui o que desejava; ninguém mais no mundo poderá tirar-me das mãos de Deus”.
Mais tarde, ao elevá-lo aos altares em 1990, o Papa João Paulo II o definiu como “o jovem das oito bem-aventuranças”, apontando-o para o mundo como o modelo ideal para a juventude moderna. A história de Pier Giorgio Frassati prova que caminhar com Cristo e sob a proteção de Maria não anula a juventude, mas a torna plena, capaz de construir um futuro esplêndido tanto nesta terra quanto na eternidade.
* Leigo dominicano e escritor.
O jovem da alegria fascinante
L’OSSERVATORE ROMANO
mercoledì 20 maggio 2020 (quarta-feira, 20 de maio de 2020) — página 9
O trigésimo aniversário da beatificação por parte de João Paulo II do jovem turinês falecido com apenas vinte e quatro anos
O vínculo entre Karol Wojtyła e Pier Giorgio Frassati.

Duas pessoas, dois caminhos diferentes, com séculos de diferença de história intensa atrás de si. Caminhos de épocas diferentes, embora os anos não sejam assim tão distantes. Apenas o seu nascimento, com o seu fascínio misterioso e envolvente, serve de pano de fundo comum às vivências de dois “jovens” que têm algo de verdadeiramente importante para partilhar: a amizade com Cristo. Duas pessoas que partilharam idealmente as suas vidas: Karol Wojtyła e Pier Giorgio Frassati. Santo Pontífice, o primeiro, do qual se celebra o centenário do nascimento; bem-aventurado o segundo, beatificado há trinta anos pelo próprio Papa polaco.
Tiveram o seu primeiro ponto de contacto à distância, nos mesmos ambientes dominicanos. Wojtyła conheceu a figura de Pier Giorgio quando, como jovem estudante (para não falar dos seus predecessores da sua arquidiocese de Wadowice). Desde então, o vínculo entre os dois nunca mais se interrompeu. Cúmplice foi a afinidade entre a história de Pier Giorgio — falecido prematuramente por causa de uma poliomielite fulminante contraída durante as suas visitas aos pobres de Turim nos primeiros anos do século XX — e a do irmão mais velho de Wojtyła, Edmund. Também ele faleceu em poucos dias devido a uma doença infeciosa contraída no hospital onde clinicava e cuidava dos doentes. Edmund era um médico que, bem consciente dos riscos que corria no serviço aos doentes, se dedicou de corpo e alma à sua profissão. Para Giorgio, a visão das suas montanhas, o amor ao próximo e, não menos importante, o amor por Edmund. Duas vidas truncadas pelo desejo de ajudar os outros.
Para Wojtyła, olhar para Pier Giorgio era um pouco como recordar o seu irmão, do qual conservava o estereoscópio na sua própria secretária. Os pontos de encontro entre Karol e o rico burguês turinês tornaram-se sempre mais numerosos. As palavras de Frassati — «todos os dias me apaixono sempre mais pelas montanhas e gostaria, se os meus estudos mo permitissem, passar dias inteiros nas montanhas para contemplar na pureza a grandeza do Criador» — poderiam muito bem ter sido pronunciadas pelo Papa polaco.
O amor pelas montanhas e pelo criado é comum a ambos e traduz-se no fim em companhias solidárias e entusiastas no escalar os cumes. Seguramente, o sacerdote Wojtyła teria aceitado fazer parte do grupo irrelevante, isto é, “família”, formado por jovens estudantes que por um lado e por outro se reuniam na fé e no Evangelho. Um grupo criado quase à imagem daquele dos “Tipos Teimosos” idealizado por Frassati para envolver os seus amigos no amor pelas montanhas, na castidade e na fé em Cristo, impelindo-os a agir para se tornarem os primeiros defensores da caridade. O pároco Wojtyła propunha aos seus os exemplos de vida de Frassati, leigo terceiro dominicano, inscrito nas Conferências de São Vicente de Paulo e na Federação Universitária Católica Italiana (FUCI), como modelo de cristão empenhado no social e no serviço aos irmãos mais necessitados. Um modelo de vida fiel ao Evangelho que Wojtyła, uma vez nomeado arcebispo de Cracóvia, não deixará de indicar aos jovens, como fez a 27 de março de 1977, durante a inauguração da mostra sobre Pier Giorgio promovida pelos dominicanos: «Frassati — disse nessa ocasião — pode ser considerado um “santo jovem”, como um patrão, o guia espiritual da juventude académica, também daquela desta geração».
O próprio cardeal de Cracóvia é considerado o patrono dos jovens, antes mesmo de que fosse levado a termo o processo canónico de beatificação. Recordamos que o itinerário jurídico foi aberto em 1932 pela Igreja turinesa, mas foi muito atribulado e conturbado. Foi suspenso, e depois retomado por Paulo VI, que tinha conhecido a pessoa de Pier Giorgio Frassati. E coube precisamente a João Paulo II, que a 20 de maio de 1990 proclamou beato Pier Giorgio. Sempre durante a inauguração da mostra, o cardeal Wojtyła apresentou a figura de Frassati como “o homem das bem-aventuranças”, que traz consigo a graça do Evangelho, da Boa Nova, a alegria da salvação oferecida por Cristo, e isto serve para todos os jovens, como homem do vivo, como um verdadeiro jovem no seu estudo, rapaz, vosso coetâneo — disse dirigindo-se aos jovens —, para estas gerações. Andai, e observai como era o homem das bem-aventuranças. Wojtyła via em Pier Giorgio o jovem que não se envergonha, que não morre, porque radicou a sua vida em Cristo e a Ele se ancorou como o único caminho para a vida.
Uma vez eleito Papa, Karol estreitou ainda mais o seu vínculo com Pier Giorgio. Via-o como o jovem da alegria fascinante, da realização das promessas feitas de Jesus no Evangelho. Nele encontrava um modelo para quantos queriam dedicar-se aos pobres e aos doentes, mas também participar na vida política e social do próprio País para refletir nela os princípios cristãos da doutrina da Igreja. Quando João Paulo II visitou Turim, a 13 de abril de 1980, teve oportunidade de aproximar a figura de Pier Giorgio de Dom Bosco; o primeiro como “verdadeiro jovem cristão”, o segundo como “verdadeiro educador”. Nessa ocasião, o Pontífice referiu um dos motivos para admirar a figura do jovem turinês: «Aberto aos problemas da cultura, do desporto, do alpinismo, atento às questões sociais, aos valores verdadeiros da vida, ele era ao mesmo tempo um homem profundamente crente, alimentado pelo mensagem evangélica, solidíssimo no caráter, coerente, apaixonado no serviço aos irmãos, consumido num desejo de caridade que o levava a aproximar, segundo uma ordem de precedência absoluta, os pobres e os doentes».
Ainda não se tinha concluído o processo canónico de beatificação que o Papa Wojtyła continuava a indicar o exemplo de Pier Giorgio aos jovens do nosso tempo. Uma volta o fez durante a visita ao Centro Internacional Juvenil de São Lourenço, a 15 de março de 1985. «No exemplo de São Francisco — disse nessa ocasião —, gostaria de vos recordar como modelo a tender para os ideais que a figura de um jovem viveu na nossa época, Pier Giorgio Frassati». Indicou-o como um jovem “moderno”, sublinhando que ele tinha “vivido as Bem-aventuranças do Evangelho”. Mais uma vez, o Papa polaco evidenciou a importância do testemunho de vida oferecido por Frassati. E houve um outro aspeto em particular colocado em evidência por João Paulo II a propósito de Pier Giorgio: operador de paz. Assim o definiu durante o encontro para o jubileu internacional dos desportistas, reunidos no estádio Olímpico de Roma no dia 12 de abril de 1984. Pier Giorgio podia ser listado a pleno título entre os desportistas, como um valente alpinista e um provado esquiador. O Pontífice recordou uma frase escrita após a Primeira Guerra Mundial: «Com a caridade semeia-se nos homens a paz, mas não a paz do mundo, mas a verdadeira paz que só a fé de Jesus Cristo nos pode dar, ligando-nos uns aos outros». O Papa indicou-o como um programa, para que em cada lugar da terra — disse aos numerosos presentes — estivessem homens da verdadeira paz de Cristo.
Viu-se finalmente afinidade entre Wojtyła e Frassati no amor à Eucaristia. O beato transcorria horas diante do Santíssimo Sacramento na catedral de Turim, e assim Wojtyła, primeiro da paróquia, depois da diocese e enfim da Sede do Papa, passava em oração muitíssimo tempo. Ambos, desportistas, jovens e atletas de Cristo, podiam ser definidos homens de oração. João Paulo II, no dia da beatificação de Pier Giorgio, ocorrida na Praça de São Pedro a 20 de maio de 1990, fez notar o segredo do zelo apostólico e da santidade de Frassati, que vai procurado no itinerário ascético e espiritual da sua pessoa, isto é: «na oração, na adoração prolongada, na adoração noturna, diante do Santíssimo Sacramento, na sua sede da Palavra de Deus, escutada nos textos bíblicos; na aceitação das dificuldades da vida também familiares; na castidade vivida como disciplina clara e sem compromissos; na predileção quotidiana pelo silêncio e pela “normalidade” da existência».
Não se pode deixar de fazer referência à devoção mariana que unia Pier Giorgio e João Paulo II, o Papa do Totus tuus. Frassati gostava de deixar Turim e ir frequentemente ao santuário mariano de Oropa para rezar à Virgem, e Wojtyła era solidamente ligado ao santuário de Kalwaria. Dois santuários marianos que uniam o santo e o beato no seu terno afeto à Mãe de Deus. Assim como os seus caminhos se cruzaram nas montanhas, na penumbra da adoração eucarística e no amor aos necessitados, renovaram-se sempre na devoção a Maria, de modo a torná-los semelhantes na sua fé na Mãe da ternura.
Seria hoje oportuno celebrar de maneira adequada o duplo aniversário do centenário do nascimento de Karol Wojtyła e os trinta anos da beatificação de Pier Giorgio, mas por causa da emergência sanitária da covid-19 não é possível. Todavia, dom Paolo Asolan, presidente do Pontifício Instituto Pastoral Redemptor Hominis, enviou uma carta aos amigos de Frassati, na qual recorda, entre outros, como Wojtyła tinha compreendido o mistério íntimo do beato desde que era jovem: «Também eu, na minha juventude — disse João Paulo II à presença da irmã de Frassati, Luciana Gawronska, no cemitério de Pollone, a 16 de julho de 1989 —, senti o benefício influxo do seu exemplo e, como estudante, fiquei impressionado pela força do seu testemunho cristão». Revelou assim, escreve dom Asolan, «a duração e a força do vínculo que o unia ao seu homem das bem-aventuranças: uma impressão excecional que o tinha marcado, modelado. Efetivamente, no estilo pastoral: aberto, dinâmico, humanamente rico e culto, na veste clerical, e todavia pleno de uma fé evidente e de uma oração que eram próprias do Papa polaco, há muito do estilo e das características humanas e espirituais de Pier Giorgio». O que une ambos «é o vosso fascinante modo de voar alto; para a montanha e além».
Dom Asolan conclui imaginando-os como hoje, unidos no Céu na comunhão dos santos, nos falarão: uma realidade de que podemos apenas imaginar, «pelo que as nossas humanas experiências nos permitem conhecer». E, todavia, «pensá-lo e representá-lo com os olhos da fé pode tornar-nos partícipes daquela amizade, isto é, daquela vida». Esta pode deixar também em nós «um benefício influxo, uma impressão que nos dê forma. Coisa, esta, de que hoje temos necessidade: para tornar bela a nossa existência e para mantê-la a serviço do mundo, desse mundo complexo e secularizado em meio ao qual também Frassati passou irradiando toda a força da sua caridade». (nicola gori)
(Legenda da foto ): A 16 de julho de 1989, João Paulo II visitou o cemitério de Pollone, junto de Biella, o túmulo de Pier Giorgio Frassati, sucessivamente transladado para a catedral de Turim.
20 de maio, recordando os 36 anos da beatificação de São Pier Giorgio Frassati.
18 de maio – aniversário de São João Paulo II, grande devoto de Pier Giorgio.
Da Prefação
Giovanni Paolo II, na Novo millennio ineunte, escrevia que:
”Se o Batismo é uma verdadeira entrada na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contrassenso contentar-se com uma vida medíocre, vivida sob o signo de uma ética minimalista e de uma religiosidade superficial. Perguntar a um catecúmeno: ‘Queres receber o Batismo?’ significa, ao mesmo tempo, perguntar-lhe: ‘Queres tornar-te santo?’. Significa colocar em seu caminho o radicalismo do Sermão da Montanha: ‘Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste’ (Mt 5,48).”
E concluía:
”É hora de repor a todos, com convicção, esta ‘medida alta’ da vida cristã ordinária.”
A vida de Pier Giorgio Frassati se inscreve perfeitamente nessa visão da santidade entendida como a “medida alta da vida cristã ordinária” e constitui um exemplo de extraordinária força de atração.
Quem era Pier Giorgio?
O próprio João Paulo II delineou sua fascinante personalidade, destacando aquilo que foi essencial para o jovem Frassati. Em 13 de abril de 1980, em Turim, o Pontífice declarou:
”Pier Giorgio Frassati nos mostra ao vivo o que realmente significa, para um jovem leigo, dar uma resposta concreta ao ‘Vem e segue-me’.”
”Basta dar um olhar, ainda que rápido, à sua vida — consumada no arco de apenas vinte e quatro anos — para compreender qual foi a resposta que Pier Giorgio soube dar a Jesus Cristo…”

Pier Giorgio Frassati e a devoção a Nossa Senhora.

A Igreja abre o mês de maio, tradicionalmente dedicado à Virgem Maria. Uma herança espiritual cultivada ao longo dos séculos, que convida os fiéis a intensificarem a oração, a confiança e o amor filial à Mãe de Jesus. Um tempo de graça, de encontro mais profundo com Deus por meio de Nossa Senhora.Em Pier Giorgio Frassati, essa devoção era viva e crescente… “Uma devoção instintiva, que crescia cada vez mais com o passar dos anos, tinha Pier Giorgio Frassati pela Grande Mãe, a Virgem Maria.Atesta-o o teólogo jesuíta Karl Rahner: “O trecho que ele repetia sempre, com entusiasmo e de memória, era a oração de São Bernardo à Mãe de Deus”.Para recordar esse canto do Paraíso, ele o transcreveu e o pendurou na porta do seu armário”.(Da obra Il cammino di Pier Giorgio, de Luciana Frassati)
Preparação para a Páscoa.

Nos dias que antecediam imediatamente a Páscoa da Ressurreição, tornou-se um hábito de Pier Giorgio — que completaria anos no dia 6 de abril — retirar-se para acompanhar a Paixão de Cristo no silêncio e no recolhimento da Villa Santa Croce, situada na colina de San Mauro, perto de Turim. O quartinho de Pier Giorgio era o número 19.
O Padre Righini testemunha: ‘Entrei no quarto e vi Pier Giorgio de joelhos, com a cabeça sob a cama, que era baixíssima, em uma posição tremendamente incômoda. “Mas o que você está fazendo de joelhos, Pier Giorgio? Que modo é esse?”. Ele respondeu: “Padre, deixe-me fazer ao menos um pouco de penitência”.
Isso não impedia que as constantes explosões de alegria com o amigo Marco Beltramo os obrigassem a serem apelidados de “Messacompagnia Fracassi”*. Quarenta anos depois, o Padre Secondo Goria, a quem perguntaram se recordava algo de Pier Giorgio, respondeu de pronto e com entusiasmo: “Oh sim, aquele malandrinho!”, mas acrescentou que, dez minutos antes da Missa, ele se transformava a ponto de levar os outros a sentirem o seu fascino e o seu exemplo pela forma como rezava…'”
(Do livro “Il cammino di Pier Giorgio” de Luciana Frassati.)
Recordando Dom Bosco e Pier Giorgio Frassati.

Turim, 13 de abril de 1980
No Santuário da Consolata, tão querido a Pier Giorgio, João Paulo II, após a recordação dos santos piemonteses devotos a Nossa Senhora, deseja que o jovem leigo também esteja presente e, dos Salesianos em Valdocco, o indica novamente como exemplo: “Turim é uma cidade que no setor religioso-educativo tem tradições insignes e literalmente exemplares. Ela nos apresenta figuras eleitas de homens e jovens que, embora tenham vivido em idades diferentes da nossa, demonstram uma surpreendente atualidade e podem oferecer lições valiosíssimas ao mundo moderno. Entre tantos nomes que poderia citar, escolherei apenas dois. O primeiro é o de SÃO JOÃO BOSCO, que foi um grande educador de jovens.
O segundo nome é o de PIER GIORGIO FRASSATI, que é uma figura mais próxima da nossa idade (morreu de fato em 1925) e nos mostra vivamente o que significa, para um jovem leigo, dar uma resposta concreta ao ‘Vem e segue-me’. Basta dar uma olhada, mesmo que rápida, em sua vida, consumida no arco de apenas 24 anos, para entender qual foi a resposta que Pier Giorgio soube dar a Jesus Cristo…
(Do livro “Calendário de uma vida. 1901-1925 – Pier Giorgio Frassati” organizado por Luciana Frassati)
(Na foto o mosaico situado na Igreja da Madonna delle Grazie alla Crocetta que retrata São João Bosco com São Pier Giorgio Frassati. No arquivo da Igreja está conservado a certidão de batismo de Pier Giorgio)
