Pier Giorgio Frassati: A Santidade na Arena Política

Eduardo Henrique da Silva*

​Para compreender a santidade de Pier Giorgio Frassati (1901–1925), é preciso desarmar a imagem açucarada de uma piedade puramente intimista. Como bem destaca o jornalista e historiador Luca Rolandi em sua abordagem biográfica (ROLANDI, 2020), Frassati viveu em um dos períodos mais complexos e violentos da Itália moderna: o primeiro pós-guerra, o “biênio vermelho” (biennio rosso) e a ascensão fulminante do fascismo.

​Nesse cenário, Pier Giorgio não se refugiou nas sacristias. Ele entendia a política e o empenho social não como apêndices de sua fé, mas como a expressão máxima dela.

​Abaixo, cruzamos as perspectivas de sua irmã, Luciana Frassati, de grandes nomes do laicato católico italiano como Giorgio La Pira e Giuseppe Lazzati, e a análise contextual de Luca Rolandi para traçar o perfil desse jovem que fez da caridade a sua principal ferramenta de ação civil.

​1. O Olhar Íntimo e Histórico: Luciana Frassati

​Ninguém conheceu a alma e as contradições do ambiente em que Pier Giorgio cresceu tão bem quanto sua irmã, Luciana Frassati. Em suas ricas memórias biográficas (FRASSATI, 1953), Luciana revela que o compromisso de Pier Giorgio com os pobres e com a justiça social nascia em um ambiente familiar paradoxal: o pai, Alfredo Frassati (fundador do jornal La Stampa e senador liberal), era um homem agnóstico e de mentalidade burguesa, que muitas vezes via com ceticismo a “exagerada” devoção do filho.

​Luciana relata que Pier Giorgio subvertia a lógica de sua própria classe social. Ele utilizava a sua mesada e até as passagens de bonde para ajudar as famílias operárias de Turim. Para a irmã, a política de Pier Giorgio não era ideológica, mas humana; ele via na militância uma forma direta de aliviar o sofrimento da classe trabalhadora, recusando-se a fechar os olhos para a miséria que a burguesia de Turim preferia ignorar.

​2. A Política como “Alta Caridade”: Luca Rolandi

​Ecoando as palavras de Pio XI (e mais tarde de Paulo VI), que definiram a política como “a forma mais alta de caridade”, Luca Rolandi situa o jovem Frassati no olho do furacão histórico entre 1921 e 1925 (ROLANDI, 2020). Conforme Rolandi descreve, Pier Giorgio foi um militante convicto e operoso.

​Ele não dividia seu tempo entre o altar e a sede do partido; sua ação era unificada. Frassati engajou-se profundamente na FUCI (Federação Universitária Católica Italiana) e no Partido Popular Italiano (PPI), fundado pelo sacerdote Don Luigi Sturzo. Em Turim, uma cidade operária em efervescência e sob a ameaça do esquadrismo fascista, Pier Giorgio colocou o corpo em risco. Rolandi recorda que ele participava de manifestações operárias, defendia a liberdade de imprensa e peitava a violência dos “camisas negras” nas ruas. Para Frassati, aceitar o fascismo era trair o Evangelho, pois o totalitarismo negava a dignidade intrínseca do ser humano.

​3. O Modelo do Cristão na Cidade: Giuseppe Lazzati

​Giuseppe Lazzati, um dos grandes intelectuais do catolicismo democrático italiano e também um leigo engajado na política do pós-guerra, via em Pier Giorgio o protótipo do “cristão na cidade” (LAZZATI, 1984). Lazzati defendia que o leigo católico não deve “clericalizar” a política, mas sim “laicizar” o Evangelho, ou seja, traduzir os valores cristãos em estruturas democráticas, leis justas e instituições solidárias.

​Na análise que se faz a partir do legado de Lazzati, Frassati preenche perfeitamente esse requisito. Ele não queria um Estado teocrático; ele queria um Estado justo. Ao atuar no Partido Popular, Pier Giorgio buscava reformas estruturais: justiça social para os trabalhadores, direito à educação e liberdade sindical. Ele entendia, como Lazzati formularia anos mais tarde, que a fé que não se torna cultura e ação social é uma fé morta.

​4. A Mística da Ação: Giorgio La Pira

​Se Lazzati fornece a estrutura conceitual do leigo na política, Giorgio La Pira — o “prefeito santo” de Florença — fornece a chave mística que une Frassati à ação social (LA PIRA, 1978). La Pira, que também fez da política um sacerdócio civil, via em Pier Giorgio um irmão de alma.

​Para La Pira, a política só faz sentido se partir de uma profunda contemplação de Deus que se desdobra no amor aos mais vulneráveis. Frassati alimentava seu empenho político na comunhão diária e na adoração eucarística nas madrugadas. Era essa recarga espiritual que lhe dava forças para, logo em seguida, carregar sacos de carvão nas favelas de Turim ou discursar contra a opressão política. La Pira e Frassati personificam a “mística dos olhos abertos”: a oração que não aliena, mas que empurra o crente para o meio do povo.

​Conclusão: Um Legado Atual

​A análise historiográfica de Luca Rolandi nos lembra da importância de “reportar Frassati ao seu contexto histórico, além do mito”. Ao ser canonizado, Pier Giorgio Frassati não deve ser lembrado apenas como o “jovem das montanhas” ou o “santo desportista”.

​A análise cruzada de Luciana Frassati, Giorgio La Pira, Giuseppe Lazzati e Luca Rolandi nos entrega o retrato de um jovem revolucionário no sentido mais puro do termo. Em uma época em que a política frequentemente se esvazia de ética e o individualismo isola as pessoas, Frassati permanece como um farol aceso: a prova viva de que a fé cristã, quando vivida radicalmente, é uma força política e social capaz de desafiar ditaduras, derrubar muros de privilégios e construir a civilização do amor.

​Fontes e Referências Bibliográficas

  • ​FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: La Fede. Bolonha: Il Mulino, 1953. (Obra biográfica de referência onde a irmã relata a vida íntima e os embates familiares de Pier Giorgio).
  • ​LA PIRA, Giorgio. La secolarità cristiana: il laicato nella Chiesa e no mondo. Milão: Vita e Pensiero, 1978. (Reflexões sobre o papel do cristão na transformação social e política, dialogando com o testemunho de Frassati).
  • ​LAZZATI, Giuseppe. La città dell’uomo: per una politica a misura d’uomo. Roma: Ave, 1984. (Obra fundamental que conceitua o “cristão na cidade” e a autonomia teológica do leigo na arena pública).
  • ​ROLANDI, Luca. Pier Giorgio Frassati: Il giovane delle otto beatitudini. [Biografia referenciada no material/capa do livro analisado]. Turim: Edizioni Effatà, 2020. (Texto base contextualizador do cenário político do pós-guerra e do combate ao fascismo).

* Responsável pelo site no Brasil.

​O Coração Alpinista configurado ao Coração de Cristo.

Eduardo Henrique

Para Pier Giorgio, o Sagrado Coração não era uma devoção estática ou sentimental, mas uma fonte de energia e ação. Ele entendia a promessa de Jesus de transformar os corações e desejava que o seu próprio coração batesse no mesmo ritmo do de Cristo.

​Ele costumava dizer que “o sofrimento não é tristeza”, e que o verdadeiro católico deve transbordar alegria. Essa alegria vinha de um esvaziamento de si mesmo para ser preenchido pelo amor divino.

​“Jesus me visita todas as manhãs na Comunhão, e eu o visito do modo miserável que posso: visitando os pobres.” — Pier Giorgio Frassati

​Ao carregar fardos pesados de carvão para famílias carentes, doar suas roupas ou gastar seu próprio dinheiro de transporte para ajudar os necessitados de Turim, Pier Giorgio estava apenas permitindo que o amor do Coração de Jesus — que ele recebia diariamente na Eucaristia — transbordasse para o próximo.

​A Conexão com o Apostolado da Oração

​O Apostolado da Oração (hoje conhecido mundialmente como a Rede Mundial de Oração do Papa) nasceu exatamente com a missão de oferecer o dia a dia, os trabalhos, as dores e as alegrias em união com o Oferecimento Diário ao Sagrado Coração de Jesus, rezando pelas intenções da Igreja e do Papa.

​Pier Giorgio encarnou perfeitamente os três pilares que sustentavam o movimento e os grupos de jovens católicos da sua época: Oração, Ação e Sacrifício.

  • ​A Oração como Combate: Ele corria para os momentos de adoração noturna ao Santíssimo Sacramento e era frequentemente visto rezando o terço com as contas escondidas no bolso enquanto caminhava pelas ruas ou subia montanhas.
  • ​O Oferecimento Diário: O Apostolado propõe que cada ação do dia se torne uma prece. Frassati fazia exatamente isso: suas trilhas nos Alpes, seus estudos de engenharia de minas, suas discussões políticas e suas visitas aos cortiços eram uma oração contínua. Ele oferecia sua juventude para conquistar almas para Deus.
  • ​O Apostolado do Exemplo: Pier Giorgio arrastava seus amigos. Ele fundou um grupo chamado Tipi Loschi (“Tipos Suspeitos”), que na verdade era uma liga de amigos que iam juntos às montanhas para rezar, partilhar a fé e rir. Ele mostrava que a oração não afastava o jovem da vida real, mas a tornava plena.

​O Legado do “Homem das Bem-Aventuranças”

​Pier Giorgio faleceu tragicamente aos 24 anos, vítima de uma poliomielite que contraiu justamente ao atender os pobres em seus leitos de miséria. Seu funeral parou a cidade de Turim, revelando uma multidão de necessitados que ele ajudava em segredo.

​A sua ligação com o Sagrado Coração de Jesus e o espírito do Apostolado da Oração nos deixam uma lição clara: a oração e a caridade não se anulam; elas dependem uma da outra. Foi bebendo da fonte do Coração aberto de Cristo que esse jovem encontrou forças para viver o seu lema mais famoso, gravado no verso de uma foto tirada nas montanhas:

​“Verso l’alto” (Para o alto).

​Para ele, subir a montanha física era apenas o reflexo da subida espiritual diária que fazia de mãos dadas com o Coração de Jesus.

​A Vida Extraordinária de Pier Giorgio Frassati: Um Jovem Apaixonado por Deus e pelos Pobres

* Paolo Risso

​No dia 20 de maio, celebra-se uma data muito especial para a Igreja: o aniversário da beatificação de Pier Giorgio Frassati, ocorrida no ano de 1990 pelo Papa João Paulo II. Aqueles que o conheceram de perto são unânimes em afirmar que o grande segredo de sua perfeição espiritual deve ser buscado, de modo especial, na sua devoção assídua, sincera, profunda e terníssima à Virgem Maria.

​Quem olhasse para Pier Giorgio via um jovem cheio de vida. Ele costumava cruzar a zona rural de Biella montado em seu cavalo “Parsifal”. Pelas ruas de Turim, cercado de amigos, enchia o ambiente com uma algazarra contagiante. Era também um alpinista ágil e forte que escalava os picos dos Alpes, muitas vezes arrastando atrás de si os companheiros mais fracos graças aos seus músculos de aço. Dono de um rosto sempre aberto ao sorriso e à risada estrondosa, era uma figura extremamente simpática e cativante que se fazia amar por todos.

​Nascido em Turim no dia 6 de abril de 1901, um sábado santo, Pier Giorgio era filho do senador liberal Alfredo Frassati — dono e diretor do renomado jornal La Stampa e embaixador da Itália em Berlim. Sua sólida e límpida formação cristã veio da influência materna, de seu primeiro instrutor, o salesiano dom Cojazzi, e de seus mestres no Instituto Social dos Padres Jesuítas. Muito cedo, ele descobriu Cristo como seu primeiro e grande Amor, sentindo-se profundamente amado por Ele e impelido a retribuir essa graça com uma afeição extraordinária.

​Para Pier Giorgio, a vida era um dom de amor. Cristo transformava tudo ao seu redor e o mobilizava a caminhar por todas as estradas para torná-Lo presente e mudar o mundo. Enquanto se dedicava aos estudos e aos amigos, mantinha uma vida de oração intensa, sempre com o Rosário nas mãos e recebendo a Comunhão diariamente. Ele também teve forte atuação social e política: participava ativamente das Conferências de São Vicente para servir os mais pobres em suas humildes águas-furtadas, integrava o Círculo Universitário Cesare Balbo e era filiado ao recém-nascido Partido Popular, onde lutava pelas classes desfavorecidas e contra o fascismo nascente.

​Sua coragem o tornou um verdadeiro líder, respeitado tanto por liberais quanto por socialistas. Os fascistas, por sua vez, o temiam, pois já haviam provado de seus socos terríveis em momentos de confronto. Além disso, Pier Giorgio dedicava suas noites à adoração diante do Tabernáculo, era apaixonado por esportes e ingressou na Ordem Terceira Dominicana no convento de São Domingos, em Turim, adotando o nome de “Frei Girolamo” em homenagem ao mártir Savonarola, com quem partilhava o ideal de reforma espiritual e social.

​O segredo por trás de uma trajetória tão marcante era a sua relação filial com Nossa Senhora. Seus amigos relatavam que era impossível lembrar-se dele sem associá-lo ao seu amor à Virgem Santíssima. Oropa era o seu santuário mais querido, localizado a poucos quilômetros de Pollone, terra de sua família. Ele subia até lá inúmeras vezes de madrugada, combinando com o jardineiro para acordá-lo ao amanhecer, e retornava cedo para que ninguém em sua casa notasse sua ausência. Testemunhas da época lembram-se de sua fisionomia transformada pelo amor mariano. Certa vez, o padre redentorista P. Rizzi o encontrou no adro do santuário completamente coberto de neve e lama. Ao ser questionado sobre como havia subido com um tempo tão ruim, Pier Giorgio apenas respondeu com um sorriso infantil. Ele rezava o Rosário sem qualquer tipo de respeito humano ou vergonha, pois aquela era sua oração predileta.

​Há relatos marcantes de sua participação na coroação da imagem de Nossa Senhora de Oropa, em 29 de agosto de 1920, quando subiu a montanha a pé cantando ladainhas e comungou bem cedo. Sua irmã, Luciana, recordava que ele irradiava uma alegria contagiante que transparecia em seus atos e palavras, e que sua voz forte dominou o coro dos fiéis após ajudar a carregar a estátua em triunfo. O pároco de Cossato também destacava a beleza de sua oração, dizendo que Pier Giorgio fixava os olhos na imagem da Virgem como se quisesse devorá-la com o olhar. Essa forte ligação estendia-se a outros santuários de Turim, como o da Consolata e o de Nossa Senhora Auxiliadora.

​Foi na escola de Maria que ele aprendeu a ser um homem de oração e silêncio, livre, feliz e capaz de testemunhar Cristo mesmo onde Ele era negado ou ofendido. Pier Giorgio cultivava as próprias plantas que davam as sementes escuras usadas para confeccionar seus terços, os quais distribuía aos amigos como convite à oração. Ele rezava de joelhos no chão do quarto após longas jornadas de estudo e cansaço — comovendo até seu pai, que era laico —, ou prostrado de bruços nas vigílias noturnas, bem como no meio das barulhentas excursões com os jovens na montanha. Sua fé também se provou na perseguição: em setembro de 1921, ao ser preso e maltratado pela polícia junto a outros jovens no Congresso da Ação Católica em Roma, ele ergueu o Rosário no pátio do interrogatório e clamou aos companheiros para que rezassem juntos por aqueles que os haviam agredido.

​Diferente de muitos jovens de sua época que, inspirados pela literatura da época, buscavam fazer da vida uma “obra-prima” baseada no esteticismo, na violência ou no vício, ou daqueles que se limitavam ao compromisso civil sem Deus, Pier Giorgio fez de sua existência uma obra-prima de Cristo. Ele colocava em prática o conselho de Maria nas Bodas de Caná: “Façam tudo o que Ele vos disser”.

​Sua jornada terrena foi breve. Ele faleceu em 4 de julho de 1925, aos 24 anos, vítima de uma poliomielite fulminante contraída justamente enquanto visitava os necessitados em seus cortiços. Seus funerais foram um verdadeiro triunfo popular. Pouco antes de partir, deixou registrada a seguinte frase: “Consegui o que desejava; ninguém mais no mundo poderá tirar-me das mãos de Deus”.

​Mais tarde, ao elevá-lo aos altares em 1990, o Papa João Paulo II o definiu como “o jovem das oito bem-aventuranças”, apontando-o para o mundo como o modelo ideal para a juventude moderna. A história de Pier Giorgio Frassati prova que caminhar com Cristo e sob a proteção de Maria não anula a juventude, mas a torna plena, capaz de construir um futuro esplêndido tanto nesta terra quanto na eternidade.

* Leigo dominicano e escritor.

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