A Devoção à Nossa Senhora: Alimento para a fé em Pier Giorgio Frassati

Frei Alessandro Rosso, o.f.m. cap.

Pier Giorgio Frassati, desde a primeira juventude, teve uma adesão humilde e forte à fé recebida em germe no santo Batismo, alimentada pela educação cristã recebida na família e, sobretudo, pelos sacerdotes que o prepararam para os sacramentos da iniciação cristã. E esta adesão foi, pouco a pouco, crescendo com o estudo do catecismo e do Evangelho, com a oração assídua e uma profunda devoção eucarística e mariana.

1 – A fé, fundamento da vida espiritual do Beato

Sua fé era plena, forte, alegre e operosa. E, desta fé, provinha a sua caridade multiforme e o zelo para conduzir outros – fossem amigos ou pobres assistidos – para o amor do Senhor.
É importante, para compreender como a fé era realmente o fundamento da vida espiritual de Pier Giorgio, transcrever três trechos das cartas dirigidas ao amigo Isidoro Bonini, que remontam aos últimos meses de sua vida e que são citadas no volume: Lettere di Pier Giorgio Frassati (“Cartas de Pier Giorgio Frassati”), Queriniana, 1950.

15 de janeiro de 1925
“… De tempos em tempos, me pergunto: continuarei buscando seguir o bom caminho? Terei a ventura de perseverar até o fim? Em meio a este tremendo embate diante das dúvidas, a fé que me foi dada no Batismo me aconselha com voz segura: ‘Por si mesmo, você não fará nada, mas se tiver a Deus como centro de todas as suas ações, então, sim: você chegará ao fim’. É justamente isso que gostaria de poder fazer e tomar como lema o dito de Santo Agostinho: ‘Ó Senhor, inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti’…” (o.c. p. 192).

29 de janeiro de 1925
“… Terei a força para chegar? Sem dúvida, a fé é a única âncora de salvação e é preciso agarrar-se fortemente a ela. Que seria toda a nossa vida sem ela? Nada, ou melhor: seria consumida inutilmente, pois, no mundo, só há dor e a dor sem a fé é insuportável, enquanto que a dor alimentada  pela pequena chama da fé se torna algo de belo porque robustece a alma para a luta…” (o.c. p. 194).

27 de fevereiro de 1925
“… pobres infelizes aqueles que não têm fé! Viver sem uma fé, sem um patrimônio a ser defendido, sem sustentar, numa luta contínua, a verdade não é viver, mas é ir vivendo. Nós nunca devemos ir vivendo, porque, também através de qualquer desilusão, devemos nos lembrar de que somos os únicos que possuímos a verdade; temos uma fé a sustentar, uma esperança a atingir: a nossa Pátria. E, por isso, expulso qualquer tristeza, que só pode existir quando se perde a fé…” (o.c. p. 196).

Alimento de sua fé e de sua multiforme caridade foi, sem dúvida, a sua piedade eucarística; mas, fundamento e guia foi a sua devoção à Nossa Senhora, à sua Mamãe do céu. Era o que recordava, em uma de suas conferências, o amigo Marco Beltrano Ceppi, depois anexada ao Processo Apostólico (Summ, p. 296).
“Se vocês me perguntassem qual era o meio seguro sobre o qual ele se apoiava para realizar uma assim constante obra-prima de vida intimamente unida a Deus, eu não hesito em lhes responder que o segredo da perfeição espiritual de Pier Giorgio deve ser buscado, de modo especial, na sua assídua, sincera profunda e terníssima devoção à Virgem Maria. Nós todos, que vivemos alguns anos próximos a Pier Giorgio, não podemos separar sua lembrança da lembrança de seu amor filial à Maria”.
O Padre Karl Rahner, sj, que conheceu Pier Giorgio na década de 20, na Alemanha, num testemunho narrado pela irmã Luciana Frassati, no livro Mio fratello Pier Giorgio. LA FEDE (“Meu irmão Pier Giorgio. A FÉ”), escreve:
“Na época, Pier Giorgio tinha vinte anos. Uma de suas paixões era Dante… E o trecho que repetia, sempre com entusiasmo e de memória, era a oração de São Bernardo à Mãe de Deus: ‘Virgem Mãe, filha do teu Filho’. Pier Giorgio, que sentia um profundo amor por sua mãe, era naturalmente levado a venerar, com ternura indizível, a outra Mãe do céu…” (p. 199). “Em Freiburg, eu me admirava quando o via rezando, em voz alta, o terço no seu quarto. Então, não podia compreender muito bem: um jovem do nosso tempo, antes que amar verdadeiramente o rosário, deve possuir uma bela piedade” (p. 229).

2 – A devoção à Nossa Senhora

A irmã Luciana, no Processo Apostólico, depôs assim sobre a devoção de Pier Giorgio à Nossa Senhora, verdadeira luz e apoio no seu caminho de fé:
“Pier Giorgio teve uma devoção instintiva, que foi crescendo sempre mais com o passar dos anos, à grande Mãe, a Virgem Maria. Ele sentia todo o seu fascínio… As flores eram sua homenagem mais calorosa e mais evidente. Em toda lugar em que a Virgem seria festejada, lá aparecia Pier Giorgio com o seu ramalhete – às vezes, enorme…”.
Ela também recorda que Pier Giorgio logo criou o hábito de ir em peregrinação aos Santuários Marianos. Os dois preferidos no Piemonte eram os de Oropa e da Consolata. Em Turim, o de Maria Auxiliadora. Muitos sacerdotes e amigos sublinham o mesmo fato.
Em 1918, pediu e obteve, freqüentando o “sociale” de Turim dos padres jesuítas, a inscrição na Congregação Mariana, consagrando-se, assim, de modo especial à Santíssima Virgem.
A propósito da devoção à Nossa Senhora Negra de Oropa, o Reverendo Padre Cesário Borla relembrava no Processo Informativo: “Ficou-me impresso na alma a lembrança do gozo e da alegria com que tomou parte nas festas para a coroação de Nossa Senhora de Oropa, que se deu pelas mãos do Legado Pontifício, S. Ex.a Cardeal Valfré di Bonzo (28 de agosto de 1920). Depois de ter assistido a mais de uma Missa e de ter comungado, dedicou-se inteiramente a ajudar os organizadores dos festejos tanto quanto podia. Passou o dia inteiro no Santuário, do qual só saiu quando a noite descia sobre o vale… Nunca ia a Pollone sem ir visitar o Santuário de Oropa, para onde se dirigia, muitas vezes a pé, fazendo uma peregrinação de cerca de duas horas” (Summ. Introd. Causae, p. 161s).
A irmã Luciana ainda relembra que, se o dia de Pier Giorgio começava com a Missa e a Comunhão, prosseguia, como é próprio de um bom terceiro dominicano, com a recitação do Ofício de Nossa Senhora e terminava sempre com a reza do santo terço, estivesse ele em casa ou no refúgio da montanha.
Podia, às vezes, acontecer-lhe, tomado pelo cansaço, de dormir durante a recitação. Numa tarde, coincidiu que o pai o achou adormecido com o terço na mão. Encontrando-se com o pároco, de quem era amigo, assim se expressou: “Mas, o que senhores fizeram do meu filho? Imagine que o encontrei na cama, adormecido com o terço na mão!”
Respondeu o piedoso e prudente sacerdote: “E o senhor preferiria, Senador, que ele dormisse com algum namorisco por perto?”. “Ah! Isto não!”.
“Então, deixe-o continuar com seu estimado costume. Certamente, não terá que se arrepender disso!”.
Cultivava no jardim da casa de Pollone plantas de coyx lacryma e levava os grãos para as Irmãs Franciscanas Angelinas, a fim de que fizessem terços que ele se alegrava em dar aos amigos para estimulá-los a esta oração.

3 – De joelhos no Santuário de Loreto

Entre os Santuários Marianos que ele visitou está também o Santuário de Loreto, que guarda a santa Casa de Nazaré, onde Maria Santíssima recebeu o anúncio da Encarnação do Verbo de Deus e onde disse o seu SIM.
Luciana Frassati lembra que o fato se deu no final de agosto ou em 1º de setembro, antes de ir a Assis (2-5 de setembro de 1919). Eis como o relata em seu livro Mio fratello Pier Giorgio. LA FEDE :
“Em Loreto, por exemplo, certa manhã, não o encontramos mais no hotel. Começamos a procurá-lo por toda parte e acabamos por encontrá-lo já na igreja, sozinho, ajoelhado sobre o frio degrau do altar.
Tinha sentido uma atração tão forte pela casa de Nossa Senhora, a ponto de não suportar mais ficar na cama e num quarto como nós” (p. 213).
Sobre esta visita à casa de Nossa Senhora, fala também o Padre Robert Claude, sj, no seu livro: Frassati parmi nous (“Frassati entre nós”):
“Certa manhã, em Loreto, seu companheiro de quarto que o busca em vão, acaba por encontrá-lo na basílica, ajoelhado junto ao altar-mor, como que a fazer – assim parece – sua ação de graças. Quis se aproximar dele, mas algo o reprimiu, uma emoção o deteve: ‘Não saberia dizer o que aconteceu comigo naquele momento. Eu o senti tão magnânimo e tão acima de mim…’” (p. 15).
De sua oração humilde e insistente e de uma meditação dos mistérios do santo rosário e dos exemplos da Santíssima Virgem, ele hauriu o impulso não só para uma ascensão rumo à santidade, mas também para um zelo apostólico intenso.
Estava inscrito na Obra da Propagação da Fé, desde os primeiros anos da juventude, e se empenhava a dar a conhecer aos amigos a verdade da fé.
Seu companheiro e depois sacerdote Padre Giovanni Bertini depôs no Processo Apostólico:
“O espírito de apostolado era vivo nele. Aproximava-se de muitas pessoas, especialmente dos colegas universitários, aos quais levava sempre uma palavra de fé e de esperança, com muita doçura e amabilidade, sem assumir ares de quem quer se fazer de mestre, mas, no entanto, com muita firmeza”.
Em agosto de 1923, o tio Pietro Frassati que, embora honesto, sempre se recusara a seguir as práticas da fé cristã, estava agonizando.  Pier Giorgio precipitou-se para junto dele e conseguiu persuadi-lo a receber a visita do sacerdote e, em seguida, com lágrimas nos olhos, também os santos sacramentos. Escreveu sobre isso ao amigo Antonio Severi, aos 20 de agosto de 1923, comentando o fato com estas palavras de humildade e orgulho cristão:
“Deus, certamente na sua infinita misericórdia, não levou em conta meus inumeráveis pecados, mas escutou minhas orações e aquelas de minha família, e concedeu ao tio a grande graça de receber com plena consciência os últimos Sacramentos.
Creio que esta vida deve ser uma preparação contínua para a outra, porque nunca se sabe o dia, nem a hora da nossa morte” (Lettere o.c., p. 178).
Não há palavras mais apropriadas para encerrar estas reflexões sobre a devoção à Nossa Senhora, inspiradora e guia do Beato Pier Giorgio Frassati numa vida de fé e de zelo apostólico, do que aquelas pronunciadas por João Paulo II no Angelus de 20 de maio de 1990, dia de sua solene beatificação:
“Caros jovens, convido-os a imitar o exemplo de novo Beato. Saibam, também vocês, se recolherem muitas vezes na oração e na meditação ao lado da Mãe do Redentor, para fortalecer a fé e para inspirar, no modelo de vida de Maria Santíssima, o seu serviço a Cristo e à Igreja. Assim, vocês saberão se empenhar com entusiasmo e alegria na nova evangelização, para encontrar as soluções que respondem às exigências da vida espiritual e civil deste nosso tempo”.

Um forte

Giovanni Battista Montini, depois Paulo VI

Falar dele me é impossível. A mim não foi dado conhecê-lo pessoalmente e muitos daqueles que agora quisessem reinvocada sua figura, poderiam, muito melhor que eu, chamá-lo à nossa memória, relembrando os testemunhos da mesma. Além disso, após a louvável coleta de lembranças e testemunhos que foi feita sobre a vida de Pier Giorgio e que circula pelas mãos de todos, difícil seria para alguém acrescentar novos documentos, ou também dar-lhes interpretação diferente.
Não dele, portanto, mas de nós nos compete falar, quando o vamos comemorando na piedade da memória cristã; de nós, para quem a lembrança do jovem espontaneamente, afetuosamente reúne em torno ao altar que acolheu um dia as suas orações, e com uma alegria forte e profunda conforta e eleva.

De nossa parte, ante Pier Giorgio sete anos após sua morte, algo especialmente parece que deva ser dito. E é justamente este intimo e estimulante consolo que parece ser o sentimento mais pertinente para se lembrar dessa morte e para ter luz sobre nossa vida; é justamente, digo, esse consolo que nós agora devemos interpretar.
Por que a figura de Pier Giorgio nos é de grande conforto?

Se cada um de nós aprofunda em si mesmo esta pergunta, entrevê logo a resposta. A figura de Pier Giorgio nos é escudo contra uma das mais fortes e sutis tentações que afligem a vida espiritual; a vida cristã, a vida cristã autentica, completa, ávida de perfeição, representa agora uma concepção restrita e superada da existência humana, um ideal apagado, um mundo pequeno e fechado, um arcaísmo que só quem vive às margens do grande rio da atividade moderna pode fazer seu.

Os jovens compreendem o que digo, porque a tentação é, de fato, dirigida contra eles. Cada um deles que tenha mesmo que apenas roçado as correntes inspiradoras do moderno pensar, sente que deva fazer um esforço para permanecer interiormente fiel e convencido. Porque em cada um de nós dormem reminiscências de escola e de vida que com a potencia das fórmulas claras e esculpidas no engano de belas palavras, repugnam a Cristo.

O Chrit ! Je ne suis pas de ceux que la prière
Dans tes temples muets amène à pas tremblants…
Je ne crois pas, o Christ, à ta parole sainte,
Je suis venu trop tard dans um monde trop vieux.
D’un siècle sans espoir naît um siècle sans craint.
…Ta gloire est mort, o Christ; et sur nos croix d’ébene
Ton cadavre céleste en poussiere est tombe !

E essa tremenda sentença não saiu somente do soluço do infeliz De Musset; saiu calma e solene dos lábios de professores que nos pareciam, na escola, mais perceptivos e imparciais; e que dosando em benignas concessões a negação anticristã, admitiam o cristianismo ter sido um passo, uma etapa no progresso da história e da civilização, mas um passo e uma etapa que o século moderno não pode mais percorrer, sob pena de aprisionamento e retrocesso das conquistas da ciência e da consciência humana.

E a Igreja, a imensa sociedade de fiéis, foi prospectada sob a luz infiel de tais ideologias, como um organismo puramente exterior, sustentado por um fascínio de pueril e tradicional superstição, recoberto de ritos estranhos e antiquados, sobrecarregado de símbolos e de objetos até agora confinados na penumbra mofada das sacristias e incapaz de colocar-se de acordo com as poderosas correntes de vida contemporânea.

Ao contrario, esta vida contemporânea nos parece soberba e gigantesca, mesmo porque esquece das antigas regras com as quais a concessão cristã a bloqueava no livre curso. E da complexidade das organizações industriais e sociais, da variedade dos mil divertimentos novos e sedutores, da riqueza vital do risco e do exercício esportivo, de todas as descobertas, das inovações e dos movimentos do nosso século, quantas vezes entrou em nossa alma um fascínio misterioso e sugestivo, um entusiasmo que eleva e paralisa ao mesmo tempo, uma força exultante e excessiva, que nos levava longe do tranqüilo e reto caminho de Cristo e nos parecia colocar no fundo da alma a irredutível antítese: ou ser modernos, ou ser cristãos. As duas concessões se excluem ! Como ser, então, ainda cristãos? Eis a tentação.

Pier Giorgio responde com sua vida. É a sua, uma primeira, intuitiva resposta, que salta aos olhos de qualquer um que observe aquela vida, seja ele irmão de fé ou não.

Ele é um forte.

Seu perfil físico deixa transparecer essa característica, tão desejada pelos jovens e tão exaltada pelos modernos. A fantasia repete para ele o que se verificou com S. Luis Gonzaga, quando para representar esse santo se escolheu o famoso quadro atribuído a Veronese, onde em uma viril e gentil figura de jovem parece refletir um caráter vigoroso e atrevido. O vemos, e era assim: robusto, são, correto.

Assim o viram aqueles que o olharam de fora. Antes de perceberem que era de essência santa, viram que era de essência forte. Viram que era um homem. O testemunho do jornal socialista milanês, ao tecer sua necrologia, sintetiza assim o admirável jovem: “era verdadeiramente um homem Pier Giorgio Frassati”.

Nem o julgamento dos que o observaram de perto, nem a intimidade quotidiana, reveladora do temperamento e do caráter, soa diferente.

Cabeça dura o chamou a família.

Força física e fortaleza de caráter nos descrevem esse irmão maior. E os episódios mais eloqüentes de sua vida são precisamente episódios de vigor, valor, energia. Basta relembrar aquele que para os jovens soa como o episodio fundamental, por ser o mais dramático: o episodio da bandeira agredida nos famosos acontecimentos de Roma: episodio de um valor simbólico claríssimo, quando, dobrado e despedaçado o mastro, eleva-se e agita-se inflexível a bandeira do ideal.
E penetramos assim a profundidade dessa fortaleza, bem diferente da insolente explosão de violência e arrogância pelas quais tantos foram temidos na época, porque a fortaleza radicada na alma, coerente com o pensamento, derivada da razão, militante por coisas boas e certas, expressa-se em formas e sentimentos nobres e generosos. Não fácil exuberância de paixões desordenadas.

Quem colheu a impressão dada por ele nos momentos mais calmos e de recolhimento da vida, aqueles dos exercícios espirituais, quando a alma se expõe com perfeita sinceridade e revela voluntariamente os segredos interiores, nos confirma: “ Para mim – escreveu padre Righini – ele se tornou mais que tudo o exemplo de uma fortíssima e férrea vontade de caráter ”.
Escutemo-lo : “ tudo se resume na fortaleza da alma!”
Pois bem, isso faz pensar.

Faz pensar em duas ordens de consideração. A primeira diz respeito à vitalidade superior desta existência: ela é verdadeiramente juventude. Ela tem para si o amanhã, o porvir. Ela é de fato, o que no mundo moderno é muitas vezes apenas desejo. Ela tem algo em si de mais belo e maior que qualquer outra manifestação de vida.
E a segunda nos leva a indagar o segredo dessa plenitude vital, dessa espiritual superioridade. O segredo está talvez escondido no carisma cristão, singularmente poderoso no fundo dessa alma jovem? Isso importa saber.

Ele, com todos franco e aberto, com poucos abriu-se em grandes confidencias sobre seu trabalho interior. Mas os testemunhos abundantes e a transparência do escondido comando revelam a intima inspiração do estilo visível: a sua fortaleza foi perfeição interior antes de ser explicação exterior. Fortaleza era auto domínio.

Autodomínio era castigar-se.

Era forte, porque austero.

Austero e doce, ou amigo; austero e vivo. Devido à comunicação com Deus consolador, suave hóspede da alma, frescor interior, atingia vivificante alimento. Entre a tua obra externa, a tua interna retidão moral e a tua assiduidade ao altar de Deus existe relação certíssima. Um dia talvez a Igreja nos dirá que realmente tudo te veio da força de Deus.

Deus.

Segredo da tua juventude.

Ausência de Deus: presumida superioridade do mundo moderno.

Deus: fonte e fundamento das virtudes básicas sobre as quais se rege a vida moral, social, intelectual. Das virtudes “primitivas” que são a juventude do mundo e os recursos da civilização. Daquelas virtudes primitivas que tornam linear, límpida, fraterna e robusta a figura de Pier Giorgio.

Deus, segredo dessa admirável juventude, nO qual acreditou e amou como pai, como fonte da vida, como inefável dom que dilata a alma até os confins do infinito, que a inebria de maravilha e alegria, a torna muda na adoração e lírica de canto e de gaudio, a queima de casta pureza e inunda de incomparável amor.
Rico dessa força Pier Giorgio é moderno e jovem.
É por isso que toda a sua vida é dominada de uma firme consciência de renovação, ação e militância.
É por isso que um capitulo de sua vida se intitula: A alegria de viver. O cristianismo é uma exaltação à verdadeira vida.

É por isso que do coração e das mãos de Pier Giorgio irradia continua caridade. A caridade ao próximo é a manifestação de vida que melhor espelha aquela de Deus: a sua paternidade universal, a sua magnificência, a sua bondade, a sua essência. É a melhor comprovação que atesta a coincidência da religião com a vida. É um ato de fé prática que afirma estar Cristo no irmão necessitado.

Esta foi a suprema declaração cristã de Pier Giorgio: o ultimo esforço.

O que nos fala, então, o exemplo deste irmão?
Nos diz que o cristianismo é a força da verdadeira juventude.

Nos diz que o cristianismo é forte, não mais na grandeza que fascina o mundo; mas é forte e vivo na humildade de suas virtudes interiores e severas: é forte quando vivenciado com sacrifício. É forte quando está doente da enfermidade resultante da cruz. Nos diz como podemos olhar sem susto e sem hostilidade a fulgurante potencia do nosso século, não falando mal das coisas, mas auto dominando-nos.

Nos diz enfim quanta beleza, quanta força, quanta juventude, germina nas humildes fileiras das nossas associações, quando aqueles às quais pertencem vos infundem o que procurais, dão aos companheiros o que deles requisitam, desenvolvem o programa para o qual são direcionados, vivenciam a idéia que vos é anunciada.
Nos diz que se nós, como Pier Giorgio, temos o lema mihi vivere Christus est, temos, como ele, diante de nós, o caminho do amanhã e o caminho da eternidade

* Discurso comemorativo pronunciado em 3 de julho de 1932, em Turim, na Igreja da Crocetta. “Revista dos jovens”, setembro, 1932.

Um modelo para os jovens: Pier Giorgio Frassati

Paolo Risso

Testemunhou Cristo por toda parte, sem medo

Por vários decênios, na Ação Católica, conhecia-se Pier Giorgio Frassati como exemplo mais impetuoso e envolvente. Forte, bonito, inteligente e sobretudo apaixonado por Cristo até ao heroísmo. Assim se doava aos amigos, aos pobres, sonhando em formar para si uma família verdadeiramente cristã, antes que algum mal fulminante lhe truncasse a vida.
Viam-no passar pelos campos de Biella sobre seu cavalo Parsifal. Pelas ruas de Turim, com amigos e amigas fazia barulho por quatro. Agarrava-se aos altos picos dos Alpes, ágil e forte, arrastando-se atrás dos pequenos, com seus músculos de aço… Um semblante aberto ao sorriso e à risada franca. Simpático, envolvente, se fazia amar.
Assim era Pier Giorgio Frassati, filho do senador liberal Alfredo Frassati, fundador, proprietário e diretor do La Stampa, embaixador da Itália em Berlim. Nasceu em Turim, dia 6 de abril de 1901, um Sábado Santo.
Através da mãe, de seu primeiro instrutor – o salesiano D. Cojazzi – e de seus professores, Píer Giorgio recebeu uma clara formação cristã, complementada pelo Instituto Social dos Padres Jesuítas. Pier Giorgio descobriu muito cedo o Cristo como seu primeiro Amor: se sentiu amado por Ele e chamado a intercambiar com Ele um afeto extraordinário.

Uma vida como paixão de amor

Ama os outros, é generoso, altruísta. Goza de todas as realidades bonitas da vida, a natureza, a arte, a amizade, as brincadeiras ingênuas, o esporte. Os pequenos, os últimos, são seus prediletos. Pensa utilizar a vida como dom de amor entre os trabalhadores mais oprimidos pelo cansaço: os mineiros. Por isso, após terminar o curso Médio, se inscreveu no Politécnico de Turim para se tornar engenheiro de minas. Existe um fato único na vida de Pier Giorgio: o Cristo que transforma tudo e o mobiliza por todos os caminhos para torná-Lo presente e mudar o mundo. Pier Giorgio estuda e convive com os amigos, reza intensamente, com o Rosário entre as mãos, vai receber a Sagrada Eucaristia todos os dias. Depois se empenha na sociedade e na política. Faz parte de forma muito ativa das Conferências de S. Vicente e serve aos pobres nos sótãos (N.T.: na época, na Europa, os pobres habitavam os lugares mais altos das construções, que também eram os mais frios e insalubres). Participa do Círculo Universitário Cesare Balbo, inscreve-se no Partido Popular apenas iniciado, dedica-se aos mais humildes e luta contra o fascismo nascente. Dá seu nome aos “Adoradores noturnos” e passa as noites em oração, na frente do Tabernáculo; apaixona-se pelas montanhas, pelas corridas de bicicleta e de automóvel.
Os amigos o seguem porque é um verdadeiro líder, humilde, tenaz, fascinante. Incute respeito aos liberais como seu pai e aos socialistas como Filipo Turati. Os fascistas o temem porque experimentaram um dia na própria pele seus terríveis socos.
Apaga-se acometido por uma poliomielite fulminante, adquirida de seus pobres, em um sótão, a 4 de julho de 1925. Seus funerais são um triunfo.

A fé como fonte puríssima

Estes são os 24 anos de Pier Giorgio Frassati. É bom para nós de hoje olharmos o fundo dessa existência. No princípio de tudo há a sua fé, uma fé forte, transbordante, alegre. Retiramos de suas cartas:
“Sozinho não farás nada, mas se tiveres Deus como centro de toda tua ação, então chegarás até o fim”.
“O único conforto é a fé, único vinculo poderoso, única base segura”.
“Só a fé pode ser minha esperança, a única e verdadeira alegria é a fé”.
Não conhecia respeito humano. Tinha uma fé aberta, declarada com despojamento, com extrema naturalidade e tranqüilidade como expressão de vida, frente a qualquer um, fosse liberal ou socialista. Um dia foi insultado por um socialista que lhe desfechou um soco. Pier Giorgio lhe respondeu calmo e decidido: “Sua violência não pode superar a força da nossa fé, porque Cristo não morre”.
Sua fé lhe dava um impulso sem limites em direção à santidade: essa era sua maior aspiração. Daí sua oração simples, ardente, um verdadeiro diálogo de amor com Deus. Capaz de ficar em jejum desde a meia noite – como era costume na época – até o final da tarde, para receber todos os dias a Comunhão. Ou de desfiar de joelhos seu Rosário a Nossa Senhora, ao pé da cama, depois de uma jornada de escola e estudos, ou de uma cansativa e alegre excursão pela montanha, ou ainda no trem, em meio a ruidosos amigos.
Existe um grande amor na vida de Pier Giorgio: o Cristo.
Diante do Cristo, Pier Giorgio tinha conquistado uma virgindade, uma pureza angélica: para ele tudo era límpido e puro, não havia malícia ou duplicidade.
Também sabia amar com o coração de um homem: Laura Hidalgo foi sua jovem amada, à qual renunciou para não contrariar seus pais, porque ele, não outro, devia sofrer.

Cristo operante na história

Com a alma assim formada, Pier Giorgio queria entrar na sociedade. E entrou com a força de seus 20 anos, possuídos pelo Cristo, que aparentavam – como disse um seu amigo – “uma avalanche de vida que quase assustava”.
Com o coração repleto de luz e amor, sustentado pelo exemplo de seus santos, Pier Giorgio, rico burguês filho de um senador, subia aos altos sótãos de Turim, andava pela periferia em meio aos pobres e aos doentes, levando o serviço alegre da sua caridade.
Privava-se de tudo, também do mais necessário, para fazer feliz uma criança ou um velhinho. Mortificava seu orgulho estendendo a mão para seu pai e pedindo-lhe dinheiro para seus pobres; aproximava-se dos doentes mais necessitados com coração de mãe para prestar-lhes os serviços mais humildes e desagradáveis.
Perguntaram-lhe uma vez: “Como você faz para vencer a repulsa?” Respondeu: ”Não esqueça nunca que se a casa é sórdida, você se aproxima de Cristo. Foi Ele quem disse: O bem feito aos pobres, é feito a mim. À volta do miserável eu vejo uma luz particular que nós não temos.”
Mas a caridade de Pier Giorgio se dilatava também no empenho político e social. Enquanto Antonio Gramsci, fundador do Partido Comunista, escrevia naqueles anos: “O mito cristão dá pena por sua impotência e esterilidade” e exclamava: “ Oh ! juventude decrépita do catolicismo !”, Pier Giorgio testemunhava como o Cristo entra na cultura, na escola, no debate social e político e tudo se transforma, vivifica e renova.
Rejeitava do modo mais absoluto o comunismo, porque ateu e violento, mas chamava os fascistas de “um bando de enganadores”, “o flagelo da Itália”. Fez sua inscrição no Partido Popular de D. Sturzo e de De Gasperi, compartilhando com eles os ideais de liberdade e promoção social. Estava interessado nos problemas de reconstrução da Alemanha destruída, quando foi com o pai para Berlim; debatia com os amigos os problemas dos operários e dos trabalhadores, com grandes projetos a realizar quando, após a graduação, pudesse trabalhar entre o povo.
Pier Giorgio sabia que quando o Cristo chega, renova todas as coisas. O seu cristianismo não era dividido: era integral. Era um homem todo de Deus.

Um jubilo impetuoso, sem limites

Quem se aproximava dele sentia a palpitação forte da vida. Pier Giorgio, todo de Deus, era um jovem feliz, mesmo na dor lancinante. Escrevia: “Cada católico não pode não ser alegre: a tristeza deve ser banida de nossos ânimos. A dor não é uma tristeza, que é uma doença quase sempre produzida pelo ateísmo.“
Diziam dele: ”Tinha um modo todo seu de tornar a fé fascinante. Projetava de forma tão viva e espontânea o que tinha dentro de si que chegava a impressionar”.
Muitos que não tinham simpatia alguma pelo catolicismo, sentiram quanto de cálido, de viçoso, de extremamente jovem e envolvente, existia na letícia de Pier Giorgio.
Essa alegria não veio pouca, exultou nele como em quem vai ao encontro do Amor desejado e esperado, quando, semi paralisado, sobre o leito de morte, aos 24 anos, o sacerdote lhe anunciou: “Pier Giorgio, e se a vovó o chamasse no Paraíso?”. Ele respondeu: “Oh, como ficaria feliz!”
Aquele dia do início de julho de 1925, Pier Giorgio ia ao encontro do Amor, da Vida.
Depois de mais de 50 anos, seu corpo, exumado em 1981 no cemitério de Pollone, perto de Biella, surgiu intacto; Pier Giorgio ainda estava viçoso e bonito como um menino. Talvez fosse essa “a assinatura” de Deus no “jovem rico” que tinha sabido dizer “sim” a Cristo até o fim.

* Escritor autor de vários livros.

Para o alto!

Renato Romanelli

Domingo, 7 de junho de 1925: sobre a sua amarronzada fotografia, Pier Giorgio Frassati escreve, à mão, “Para o Alto”. O retrato mostra-o, destacadamente, agarrando-se com suas mãos nuas ao monte Lunelle, a 2772 metros. Foi a sua última excursão… Foi o seu último feliz domingo com a Sociedade dos Tipi Loschi, o alegre grupo de amigos alpinistas, nascido em maio do ano anterior…

É a despedida de sua tão amada montanha, mas ele não o sabe. Já de volta à casa, no calendário, marca dois compromissos: uma excursão a 29 de junho ao refúgio Castaldi, sobre Balme, para a festa de São Pedro e São Paulo; e, o “presente” que queria dar a si mesmo pela formatura que teria em breve, o Cervino, “o obstáculo mais fascinante do mundo”. Os amigos, porém, o esperarão em vão. Sim, seus amigos esperarão inutilmente a Robespierre, o grande encorajador da Sociedade Tipi Loschi.

Pier Giorgio morreria em um mês, em apenas seis dias, de poliomielite fulminante. Tinha apenas 24 anos (havia nascido a 6 de abril de 1901). E tinha os sonhos e os entusiasmos próprios daquela idade.

Até então, tinha vivido anonimamente o filho de Alfredo Frassati, homem de prestígio e de poder, dono e diretor do jornal Stampa, famoso jornalista, senador do Reino e embaixador da Itália em Berlim. No dia de sua morte, a 4 de julho de 1925, e, principalmente, dois dias depois, durante o funeral, o véu rompeu-se e Pier Giorgio apareceu diante de todos com uma nova luz: a família, os amigos, enfim, toda a cidade descobrem que aquele rapaz, estranho e um pouco louco, que subia nas árvores e cantava escancaradamente para fazer a sua avó sorrir, aquele que declamava com sua voz potente Dante e Manzoni, havia morrido em odor de santidade.

Chegaram aos milhares os testemunhos que descreviam um Pier Giorgio Frassati totalmente desconhecido: um Pier Giorgio que renunciou aos seus privilégios por amor aos outros; um Pier Giorgio que economizava para dar aos pobres; um São Francisco do século XX.

Perguntaram-lhe certa vez: “Frassati, por que você viaja sempre na terceira classe?”… “Porque não existe quarta”, respondeu. Com o dinheiro que juntava secretamente, fazendo renuncias para economizá-lo, adquiria medicamentos para quem não podia comprá-los, ajudava aos abandonados, dava uma mão aos desesperados que encontrava nas favelas ou sob as pontes; fazia isso tanto em Turim como em Berlim, tanto no verão como no inverno. Pier Giorgio movia-se de uma conferência vicentina a outra. A Sociedade São Vicente de Paulo era apenas uma das numerosas associações católicas as quais adere; entretanto, muitas vezes, ele agia solitariamente. E sempre sigilosamente, longe da vista de todos, pois, como adverte o Evangelho, “a direita não saiba aquilo que faz a esquerda”. E Pier Giorgio assim desejava: que ninguém tomasse conhecimento de suas obras de bondade. Até mesmo os seus ajudados eram estranhos uns aos outros. Encontrar-se-ão todos juntos apenas para cantar os seus louvores, no seu funeral. E descobrir-se-ão tantos!

As ações quotidianas de Pier Giorgio Frassati compõem um conjunto de eventos exemplares – semelhantes àquelas que, poeticamente, Joyce definia como epifanias –, que anulam a aparente contradição entre as origens burguesas e a heroicidade da virtude, a qual a Igreja, em maio de 1990, tinha-o elevado às honras dos altares, proclamando-o beato: O santo leigo, o santo da Turim burguesa.

Rosto moderno ainda hoje, belo com um galã do cinema de então, Pier Giorgio Frassati amava o esporte ao ar livre. Segundo os amigos, era um atleta nato e poderia praticar qualquer esporte que quisesse. Na primavera, remava com prazer no rio Pó; no inverno, tinha um compromisso imperdível com o esqui nas pistas de Monginevro ou de Gressoneu Saint-Jean. No verão, saía, muitas vezes, de bicicleta e, com desenvoltura, percorria os oitenta quilômetros entre Turim e Pollone. Ou ia, ainda, a Sandigliano Biellese, cavalgando na garupa do Parsifal, o impetuoso cavalo baio irlandês do senador (“era o único, além de papai, que sabia domá-lo”, conta ainda hoje, com um pouco de inveja, a sua irmã Luciana, sua primeira biografa e tenaz testemunha). Aos quatorze anos, Pier Giorgio já sabia dirigir. Nas cartas de sua mãe – um pouco assustada, um pouco orgulhosa – e nos relatos dos habitantes de Pollone, encontram-se os ecos da impressão do destemido rapaz que queria imitar Bordino, o Schumacher daquele tempo.

O que Pier Giorgio Frassati mais gostava, porém, era das montanhas. Conhecia-as desde criança e teve facilidade para conquistá-las rapidamente. Fez as primeiras excursões com o pai e ficou fascinado para sempre: “Montanhas, montanhas, montanhas: eu vos amo!”, escreveu em seu diário. Em seus escritos, ainda se lê: “Eu deixei meu coração entre esses montes com a esperança de reencontrá-lo quando retornar”. E ainda: “Mas como se pode resistir à tentação da neve?”

Inscreveu-se no Cai, em dezembro de 1917, conquistando um sonho. No ano seguinte, consegue carteira de associação do Touring e, depois, a da Jovem Montanha, uma associação nascida em 1914. Convocou os amigos, os ex-companheiros da escola e os colegas da universidade, formando um grupo (os Tipi Loschi). Fez parte desse grupo Laura Hidalgo, a secretária dos Tipi Loschi, que se tornou o amor secreto de Pier Giorgio; conheceram-se durante uma festa de carnaval nas montanhas, em 1923. Renunciará, porém, a Laura para dar apoio a sua mãe, Adelaide Ametis (uma pintora intimista), quando os contrastes mais agudos evidenciaram-se entre o senador e a esposa (estavam a ponto de separarem-se).

Era, portanto, um rapaz como tantos outros, mas apenas na aparência. Pier Giorgio tinha suas idéias, suas paixões, suas esperanças. Mas, tinha, sobretudo, uma vida consciente, convicta, obstinada e irrenunciável coerência com a mensagem do Evangelho. A partir do momento que aderiu a muitos grupos católicos (Companhia do Santíssimo Sacramento, Congregação Mariana, Conferência de São Vicente e outros), muitas vezes, recolhia-se em oração e todos os dias aproximava-se do Sacramento da Comunhão. Chegaram a lhe perguntar, um dia, se ele sentia-se chamado ao sacerdócio… Pier Giorgio respondeu com extraordinária solidez moral: “Eu quero ajudar minha gente de todas as maneiras, e isso eu posso fazer melhor como leigo do que como padre, pois, aqui, os sacerdotes não são tão próximos do povo”.

Este era o motivo pelo qual ele queria tornar-se engenheiro mineral: para estar próximo a uma categoria específica de trabalhadores, o mineradores. Não desdenhava do empenho político; identificava-se com o Partido Popular Italiano e sabia ser rígido com todos aqueles que aderiam ao fascismo (“um flagelo da Itália”, dizia). Sabia fazer-se respeitar, levantando os punhos se necessário. Como quando uma quadrilha de fascistas tentou entrar na sua casa. Pier Giorgio era crítico nos confrontos com o pai, um liberal convicto. Talvez, eles tenham entrado em acordo apenas uma vez: quando ambos se mantiveram contra o ingresso da Itália na guerra. Pier Giorgio, rapaz, seguia ansiosamente o desenrolar do conflito, “rezava todos os dias pelos mortos na guerra e pela família deles”, narra a sua irmã Luciana. Quando a paz foi anunciada, Pier Giorgio atravessou rapidamente toda Pollone, subiu em todos os campanários e liberou sua alegria tocando os sinos. E diziam que ele era louco.

* Renato Romanelli, Enviado do L`Stampa. da Specchio della Stampa, 10/06/2000

Pier Giorgio Frassati

Pe. Ângelo Arrighini O.P.

No livro: O paraíso do padre Arrighini, publicado em 1942, lê-se esta dedicatória:

Ao venerável
meu discípulo e amigo
Pier Giorgio Frassati
que com o nome de Frei Gerolamo
consagrei na Ordem Terceira
Domenicana,

do céu, onde já qual estrela refulge
enquanto, na terra, se lhe apronta o Altar,
este livro desejado e reclamado,
a fim de que abençoe e difundia,
Dedico

E como nasceu o livro dí-lo o mesmo autor no Prefácio:

… Entre todos aqueles queridos jovens, a maior parte estudantes, distinguia-se pelo zelo, piedade e ainda pela alegria, o agora vintenário Pier Giorgio Frassati. Uma especial admiração pelo ardente batalhador Frei Gerolamo Savonarola, do qual quis, depois, o nome e também por ele atraído para nossa Ordem Terceira, da qual o branco escapulário eu mesmo tive a graça de revesti-lo. E com o nome e hábito de Savonarola pode-se bem afirmar que recebesse também aquele ardente e intrépido zelo apostólico que conduzia o primeiro, ao rogo desta voz para elevá-lo ao altar.
A propósito, um dia, veio à minha cela a pedir-me um livro de meditações sobre o paraíso.
Não o havendo encontrado, Pier Giorgio insistia e o Padre: “Pedes para mim um livro sobre o Paraíso? Não sabes que é um dos mistérios mais sublimes da Teologia, do qual os próprios Santos não sabem senão balbuciar e, por isso, São Paulo, que foi arrebatado ao terceiro céu, dizia ter ouvido e visto uma série de coisas que o homem não tem como repetir?” “É verdade – insistia ainda- mas, ao menos poder-se-ía falar daquele pouco que se sabe, de sua existência, das diversas concessões de que lhe são feitas por todos os povos, das eternas alegrias das quais fala o Evangelho, dos mais seguros e fáceis meios de alcança-lo”. Está bem, conclui para contentá-lo, veremos, com o tempo, escreverei certamente sobre isto. Entretanto, tenho já outros trabalhos em curso; quero dizer quando será feito, a ti será dedicado. Estás satisfeito?”
Ele me assegurou com um aperto de mão mais caloroso do que o de costume, por ter-me posto na memória uma boa idéia e arrancado uma espécie de promessa que eu sempre procrastinava malgrado suas renovadas instâncias. Quando aconteceu, depois, sua prematura e santa morte, senti-me livre de tudo.
Não podia, contudo, sentir-me tranqüilo de consciência: aquele desejo expresso com tanta insistência por um santo, aquela semente de uma obra conquanto árdua e sublime por ânimo, inconscientemente continuou inconscientemente, repito, continuou por cerca de um vintênio a germinar, e desenvolver-se até que surgisse o tempo de dar seu fruto…
Nada de mais disposto do que salvar-nos e ir para o Paraíso. É para nós prova fulgente a vida de nosso querido Pier Giorgio Frassati. Não me lembro, ou, ao menos, não consta que houvesse cumprido ações ou penitências extraordinárias. Que consolado e eficaz exemplo para todos, e especialmente para nós que tivemos a graça de conhecê-lo para, ao menos, alcançar os últimos.
É o que se recomenda neste livro inspirado por ele e tão desejado que, finalmente, posso dedicá-lo cumprindo, assim, a promessa de um longínquo dia.

Colaboração: Thaís R.P.S. Carmo, (3º ano de Educação Artística da Faculdade Santa Marcelina).
São Paulo, 25/08/2008.

* Pe. Ângelo Arrighini é Pregador, escritor, organizador e assistente espiritual de associações juvenis.

Do jornal socialista A Justiça (08 de julho de 1925)

Filippo Turati

Era verdadeiramente um homem esse Píer Giorgio, que a morte aos 24 anos arrebatou cruelmente, rápida como um ladrão apressado. O que se lê sobre ele é tão Novo e insólido que enche de reverente admiração mesmo aqueles que não partilham sua fé. Jovem, rico, escolhera para si o trabalho e a bondade. Crente em Deus, professava a sua fé com aberta manifestação de culto, concebendo-a como uma milícia, como uma farda que se veste aos olhos do mundo, sem trocá-la jamais pela roupa habitual, por comodismo, por oportunismo, por respeito humano. Convictamente católico e associado á juventude católica universitária da sua cidade,desconfiava dos modelos simplistas dos céticos, dos vulgares, dos medíocres, participando das cerimônias religiosas, seguindo em cortejo o baldaquim do arcebispo em ocasiões solenes. Quando tudo isso é manisfestação tranqüila e firme do próprio convencimento e não representação ostentosa com outros propósitos, é belo e honroso. Mas como distinguir a confissão da afetação?
Aí está: a vida é o termo de comparação entre palavras e atos extremos que valem muito mais que as palavras. Esse jovem católico era antes de tudo um cristão e traduzia as suas opiniões místicas em obras vivas de bondade humana, em atos constantes de piedade.Pode-se avaliar de modo diferente a eficácia social da caridade, ma não se pode desconhecer o seu mérito, quando ela é exercida com o coração puro e não como um entorpecente ou diversivo ou preventivo,mas como assistência imediata à desventura, sem outra finalidade ou outras intenções que não a expressão de um dever sinceramente sentido e de um amor fraterno.

*Fundador do Partido Socialista Italiano.

Reflexão sobre um dos patronos da Jornada Mundial da Juventude

Bispo Fisher

SYDNEY, segunda-feira, 14 de julho de 2008 (ZENIT.org).- O beato Pier Giorgio Frassati, grande desportista, que viveu na caridade e na generosidade há um século, inspirará a vida desta geração, considera o coordenador da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).Foi o que declarou o bispo auxiliar de Sydney, D. Anthony Fisher, no dia 4 de julho, na igreja St. Benedict, por ocasião da festa do beato, na presença de suas relíquias. O cardeal George Pell, arcebispo de Sydney, presidiu a celebração eucarística.

O corpo do beato, um dos dez patronos da Jornada Mundial da Juventude de Sydney, foi trasladado de Turim a Sydney para o evento. As relíquias não haviam deixado a cidade piamontesa desde a morte de Frassati, em 1925.

O corpo, encontrado incorrupto sessenta anos depois de seu sepultamento, será venerado na catedral St. Mary até o dia 22 de julho.

«Pier Giorgio realizou em pouco tempo extraordinários progressos na fé, na esperança e na caridade», afirmou o bispo Fisher.

O prelado recordou que, quando João Paulo II beatificou Frassati em 1990, definiu-o como «um homem de nosso século, o homem moderno, o homem que amou muito».

«As fotografias em nossa igreja mostram um belo e forte jovem com olhos penetrantes e um sorriso contagioso –acrescentou o bispo. Cheio de alegria e energia, cheio de Deus e com a paixão de compartilhá-lo com os demais: frente a isto, sua morte, aos 24 anos, foi uma trágica perda».

«E, contudo, estamos aqui, do outro lado do mundo, celebrando-o, por causa daquilo que ainda hoje nos diz. Agora ele vive há 107 anos».

O bispo Fisher contou também como chegou a conhecer o beato. «Encontrei-o pela primeira vez em quadros de capelanias universitárias da Austrália». «Os jovens sentiam-se atraídos pelo modo como fazia apostolado inclusive indo a cavalo e escalando montanhas, indo a festas e brincando na piscina. As jovens pareciam atraídas por seu aspecto e seu caráter».

«Os jovens católicos gostavam da idéia de poder ser santo também desde jovem e poder unir a paixão por Deus e o serviço aos demais com o desejo normal de diversão de um jovem».

O bispo contou brevemente a história do santo, nascido em 1901, em uma família rica de Turim. O pai era agnóstico, a mãe católica, ainda que «não tivesse a devoção ou a caridade [do filho]», disse o bispo Fisher.

«Não gostava que seus pais não compreendessem sua piedade e tivessem um matrimônio difícil –disse o bispo. Como muitos jovens hoje, tinha de encontrar dentro de si aqueles dons do Espírito Santo que o levariam à maturidade».

«Deu o dinheiro recebido por sua licenciatura aos pobres –acrescentou o bispo Fisher. Quando seus amigos lhe perguntavam por que viajava na terceira classe dos trens, respondia com um sorriso: “Porque não há quarta classe”».

O bispo australiano contou que o Pe. Martin Stanislaus Gillet – futuro guia da Ordem Dominicana – conheceu Frassati quando este era estudante universitário. O dominicano disse que o jovem lhe havia impressionado «com seu encanto especial. Parecia irradiar uma força de atração […]. Tudo nele brilhava de alegria, porque derivava de sua esplêndida natureza o fato de florescer à luz de Deus».

Frassati morreu em 4 de julho de 1925, seis dias depois de ter contraído poliomielite de um dos enfermos por ele assistidos.O bispo auxiliar de Sydney disse que de seu funeral participaram por todas as pessoas mais importantes de Turim, «mas, para sua surpresa, quando saíram da igreja, as ruas estavam cheias não de pessoas da elite, mas dos pobres e dos necessitados a quem ele havia servido em sua breve vida».

«Os pobres ficaram também surpresos ao ver que era de uma família rica –disse o bispo. São eles os que pediram ao arcebispo de Turim que iniciasse seu processo de canonização».

«Agora ele fala a uma nova geração –concluiu o prelado, e honra nossa Jornada Mundial da Juventude com seu patronato e seu testemunho».

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A alegria de viver

Eduardo Henrique Da Silva

“Era um jovem de uma alegria fascinante- disse dele João Paulo II- uma alegria que superava também tantas dificuldades de sua vida, porque o período da juventude é sempre de provação.” ( Aos jovens de Turim 13. 04.1980)
Nascido em 6 de abril de1901, em Turim. Filho de Alfredo Frassati, senador, fundador e proprietário do jornal “La Stampa”, embaixador da Itália na Alemanha, e de Adelaide Ametis, pintora prestigiada, recebeu da família dinheiro, prestígio, comodidade e segurança material, honras e estima. Nunca, nestas coisas, sentiu o canto da alegria, porém nas coisas simples , na amizade, no serviço constante aos pobres, na generosidade em ser útil a todos, no casto sentimento nutrido por Laura, na alegria das excursões e das subidas as montanhas ,no empenho social.
Descobria a alegria exaltante da existência no caminho do empenho em fazer o bem, experimentava a confidente oração na alegria crescente de quem se sente amado por Deus. Amor nutrido todo dia pela Eucaristia, verdadeiro segredo e causa de sua alegria. Amor guiado por uma grande devoção à Nossa Senhora, que freqüentemente, demonstrava na reza do rosário e no ato de levar flores aos santuários de Oropa. Amor que transformava se em caridade para com os pobres, os seus prediletos: os seus “patrões” como gostava de defini –los. Declara uma testemunha: “Ele fazia pelos seus pobres tudo ,desde puxar carretos , caixas, como se fosse um privilégio“. E um outro confirma “considerava os pobres como seus superiores , nos seus sofrimentos honrava a paixão de Cristo e sempre se colocava ,por assim dizer, às suas ordens”. A um amigo confidenciava: “Jesus me visita na Eucaristia todos os dias e eu retribuo do modo mais simples que posso: visitando os pobres… entorno dos pobres, doente… eu vejo uma luz particular, uma luz que nós não temos!
Vinte quatro anos vividos na caridade, quando criança tirou os sapatos e as meias para doá-los a uma mulher que tinha nos braços uma criança sem sapatos , até as vésperas da morte, quando a poliomielite fulminante, que o havia paralisado, não lhe impediu de escrever uma última mensagem de ajuda aos pobres.
Uma vida extraordinária no cotidiano porque tudo nele – a alegria, a ação, o estudo, o apostolado, a oração, o serviço aos pobres – era sustentado pela fé e o amor .
Em 14 de fevereiro de 1925, escreveu a sua irmã Luciana:”Você me pergunta por que sou alegre? A tristeza deveria ser banida da alma dos católicos”.
Em Roma, a 20 de maio de1990 é proclamado beato por João Paulo II, na Praça de São Pedro, diante de uma imensa multidão de jovens. Pier Giorgio nos revela a face amorosa e alegre de Deus.

04/07/2008

* Eduardo Henrique Da Silva é assistente social e coordenador do Núcleo de Ação Comunitária da Faculdade Santa Marcelina

O “Santo da estrada” amigo dos pobres

Giulio Loccatelli

Mais que na inquieta atmosfera de sua poesia, a Senhora Luciana Frassati soube encontrar, na aflição de seu espírito, um porto seguro e sereno, revivendo em si própria, e fazendo com que muitos outros revivessem, a recordação daquele seu prediletíssimo irmão Pier Giorgio, primeiramente com a publicação de um notável epistolário e agora com uma obra toda original e inédita, que vem a colocar um áureo sigilo à sua admirável e continuada fadiga de mais de um ano de pesquisa e investigações nos mais diversos ambientes de Turim. Tratava-se de salvar um precioso patrimônio procurando as testemunhas de mais de trinta anos atrás, que tiveram uma certa familiaridade com o jovem aluno do Politécnico e que poderiam depor, como por uma atitude sagrada, sobre a sua multiforme atividade de herói da caridade cristã. Tarefa árdua e certamente mais apropriada a ‘fortes ombros’ que ao empenho de uma mulher, mesmo que de máxima boa vontade, que não fosse a bondosa irmã, paciente e tenaz até o sacrifício, da singela estirpe dos Frassati. Passo após passo, mesmo atrás de tênues vestígios de um nome, ei-la a reconstruir todo um longo itinerário de amor atrás das pegadas daquele irmão: pelas salas universitárias, dentro das lojas, ao longo dos corredores dos hospitais e das internações, nos escritórios dos homens de cultura, nos conventos, nas guaritas dos edifícios, nos gélidos telhados, onde quer que alguém pudesse dizer algo sobre ele no exercício preferido de ajuda aos que sofrem, aos desprezados da sociedade. Que itinerário precioso e qual revelação! Vieram à tona centenas de particulares ignorados e agradabilíssimos, todos autênticos e destinados a serem minuciosamente lidos e meditados, não somente por aqueles que nas Conferências de São Vicente de Paula, onde Pier Giorgio encontrou a sua apaixonada palestra cotidiana, dedicam-se de maneira especial ao exercício da caridade.
Refletindo um pouco mais, parece que a Senhora Luciana imitou o postulador da causa de um Bem-aventurado no recolher tão minuciosa messe de vivas documentações, muitas vezes esquelética, e por isso, eficacíssimas em sua concisão e sinceridade. Alguém disse que o jovem “tinha todos os requisitos para ser um santo: amor a Deus e amor ao próximo.” Um outro adicionou: “A sua virtude pareceu-me sempre heróica. Sabia-se que pertencia a uma das famílias mais abastadas de Turim e vinha até nós unir-se aos pobres, escondendo sempre aquilo que fazia de bem. Para nós Pier Giorgio era um santo.” Mas um santo alegre, animado, de larga visão, amante das escaladas em montanhas, que “fazia o bem pela alegria de fazê-lo” e que mostrava-se habitualmente “preocupado com a miséria e a necessidade dos humildes. De fato, era uma exigência sua sê-lo – assim diz Paolo Gandi –e não uma atitude de sua própria vontade.” Aos seus encontros quase diários com a caridade – era assíduo do Cottolengo, do leprosário, das Pequenas Irmãs – apresentava-se de maneira senhoril e, ao mesmo tempo, desembaraçado, alegre, cortês. Bastava olhar, para ver com que graça materna acariciava as crianças pobres e esfarrapadas, e como, entrando nos casebres da periferia de sua Turim, logo tirasse o chapéu e estendesse amigavelmente a sua mão àqueles que vinham-lhe ao encontro temorosos: aquelas pessoas quase nunca vieram a saber quem fosse aquele distinto senhor que sentava-se no leito dos doentes e tomava nota de todas as necessidades da família.
Há quem se recorde, com comoção, de como ele sabia submeter-se, sem demonstrar o mínimo embaraço, aos mais baixos trabalhos de assistência, até mesmo higiênicos – a epidemia de 1918 multiplicou tais atos exemplares ao infinito – rico de todas as formas de caridade, ao dizer do Frei Giocondo: “da palavra ao gesto que conforta até ao ponto de ajudar-te a descer um degrau, manifestação e forma dificilíssima arriscando, a cada momento, de cair em uma etiqueta superficial.”
De resto, tendo aprendido ainda criança, quando, não tendo outra coisa, tirou os sapatos e as meias para dá-los em esmola, Pier Giorgio obedecia ao difícil mandamento a ser realizado: “em todos os momentos estar ao seviço dos pobres.”
Graciosíssimos episódios referem-se a Pier Giorgio em seu transformar-se, várias vezes, – a propósito tem quem o definiu muito bem – em uma “sucursal de agência de transportes” e carregando-se de pacotes e lenha, como um animal de carga (é a observação de Camilla Rivetti) atravessando, sob aqueles trajes de carregador, as ruas principais, sem olhar a ninguém. Um dia o redator do “Stampa” admirou-se ao vê-lo puxando um carrinho pela rua: fez de conta de nada, mas depois ao reencontrá-lo na redação do jornal de seu pai pediu explicação. “Como? Não viu? – responde sagazmente Pier Giorgio – Aquele pobre velho que não aguentava puxá-lo em meio à gente?”
Esse puxar carinhos, seja para transportar coisas a serem entregues nos dias de visita, seja para ajudar aos pobrezinhos que tivessem que desalojar os utensílios de suas pequenas habitações, é um dos aspectos mais característicos do ânimo piedoso de Frassati contra o respeito humano, em uma sincera independência de caráter, ao ponto de ser chamado por Giovanni Grippa de “o santo da estrada”. Precisava tê-lo visto nos dias próximos ao Natal e à Páscoa: documentam as testemunhas que a sua atividade tornava-se “frenética”: pacotes sobre pacotes, frascos de vinho, peças de vestuário, roupas, Pier Giorgio transformava-se em um armazém ambulante, o contente carregador dos indigentes.
No Natal de 1924, assumiu sozinho a tarefa de socorrer nove famílias. Quem o aconselhava de usar, para as viagens, que na maiorias das vezes eram longas, o automóvel da casa, teve por resposta que seria um humilhar os pobres: andava, portanto, sempre a pé, dando de esmolas o dinheiro que guardava para tomar o bonde.
Seria, agora, um alongar-se demais enumerar as taxas escolares, as contas de gás, as receitas médicas com as suas “entradas”, certamente não tão elevadas, sem contar o enorme acúmulo de correspondências para procurar empregos, para recomendar todos aqueles que a ele recorriam confiantes naquele acolhedor convite. Ele não tinha hesitações para com eles e se, por acaso, percebia que certas pessoas que viviam na miséria não estavam realmente dispostas a procurar um trabalho e ali permanecer, cortava o assunto dizendo que “a caridade é sempre bem feita e sempre pronta a produzir os seus frutos, mesmo que se as pessoas que a recebem ou as que a exercitam não sejam dignas.”

“Il Giornale d’Italia”, 28 de fevereiro de 1952.

Bento XVI: 27/07/2008

PAPA BENTO XVI
ANGELUS
Palácio Apostólico de Castel Gandolfo

Queridos irmãos e irmãs!
Regressei de Sidney, na Austrália, sede da 23ª Jornada Mundial da Juventude, na passada segunda-feira. Ainda tenho diante dos olhos e no coração esta extraordinária experiência, na qual me foi concedido encontrar o rosto jovem da Igreja:  era como um mosaico multicolor, formado por jovens e moças provenientes de todas as partes da terra, todos reunidos pela única fé em Jesus Cristo. “Young pilgrims of the world jovens peregrinos do mundo”, assim chamava ao povo com uma bonita expressão que realça o essencial destas Jornadas internacionais às quais deu início João Paulo II. De facto, estes encontros formam as etapas de uma grande peregrinação através do planeta, para manifestar como a fé em Cristo nos torna a todos filhos do único Pai que está nos céus e construtores da civilização do amor.
Característica própria do encontro de Sidney foi a tomada de consciência da centralidade do Espírito Santo, protagonista da vida da Igreja e do cristão. O longo caminho de preparação nas Igrejas particulares tinha como tema a promessa feita por Cristo ressuscitado aos Apóstolos:  “Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas” (Act 1, 8). Nos dias 16, 17 e 18 de Julho, nas igrejas de Sidney, os numerosos Bispos presentes exerceram o seu ministério, propondo as catequeses nas várias línguas:  estas catequeses são momentos de reflexão e de recolhimento indispensáveis para que o acontecimento não permaneça só uma manifestação externa, mas deixe uma marca profunda nas consciências. A vigília da noite no coração da cidade, sob o Cruzeiro do Sul, foi uma coral invocação do Espírito Santo; e por fim, durante a grande Celebração eucarística de domingo passado, administrei o Sacramento da Confirmação a 24 jovens de vários continentes, dos quais 14 australianos, convidando todos os presentes a renovar as promessas baptismais. Assim esta Jornada Mundial transformou-se num novo Pentecostes, a partir do qual recomeçou a missão dos jovens, chamados a ser apóstolos dos seus coetâneos, como tantos santos e beatos, e em particular o Beato Piergiorgio Frassati, cujas relíquias, colocadas na Catedral de Sidney, foram veneradas por uma ininterrupta peregrinação de jovens. Cada jovem e moça foi convidado a seguir o seu exemplo, a partilhar a experiência pessoal de Jesus, que muda a vida dos seus “amigos” com a força do Espírito Santo, o Espírito do amor de Deus.
Desejo hoje agradecer novamente aos Bispos da Austrália, em particular ao Arcebispo de Sidney, o grande trabalho de preparação e o cordial acolhimento que me reservaram, assim como a todos os outros peregrinos. Agradeço às Autoridades civis australianas a sua preciosa colaboração. Dirijo um agradecimento especial a quantos, em todas as partes do mundo, rezaram por este acontecimento, garantindo o seu bom êxito. A Virgem Maria recompense cada um com as graças mais belas. A Maria confio também o período de repouso que transcorrerei a partir de amanhã em Bressanone, entre os montes do Alto  Ádige.  Permaneçamos  todos  na oração!

Domingo, 27 de Julho de 2008
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