A virtude da caridade, frequentemente reduzida ao assistencialismo superficial, encontra em Pier Giorgio Frassati (1901–1925) uma redefinição radical. Longe de ser um passatempo burguês para aliviar a consciência, a caridade para Frassati era o motor de sua própria existência, uma necessidade vital nascida do encontro diário com Cristo na Eucaristia. Como observa Eduardo Henrique da Silva em seus estudos sobre a juventude católica do início do século XX, “Pier Giorgio não levava aos pobres apenas o pão ou o casaco que faltavam; ele entregava a si mesmo, reconhecendo na carne sofredora dos marginalizados o próprio rosto de Deus”.
Este artigo analisa a profundidade dessa ação caritativa a partir das principais obras biográficas italianas e das próprias cartas de Frassati, demonstrando que seu legado permanece como um farol de autêntica mística social.
A Caridade como Segredo Oculto: A Perspectiva de Luciana Frassati
Sua irmã, Luciana Frassati, na obra fundamental Mio Fratello Pier Giorgio: La Carità, reconstrói com precisão os passos silenciosos do irmão pelas periferias de Turim. O traço mais marcante da caridade de Pier Giorgio era o absoluto segredo. Vindo de uma das famílias mais influentes da Itália — seu pai era o fundador do jornal La Stampa e embaixador —, ele escondia suas renúncias para que os pais não interceptassem suas doações.
Luciana relata que, após a morte prematura do irmão devido a uma poliomielite fulminante, a família ficou chocada ao ver milhares de pobres e deserdados lotando as ruas para o funeral. Ela escreve:
”Nós não sabíamos quase nada. Ele vivia duas vidas: uma em nossa casa, com nossas regras e exigências sociais, e outra nas casas em ruínas, nos cortiços onde a miséria humana gritava por socorro. Ali, ele era o verdadeiro Pier Giorgio.”
(FRASSATI, Luciana. Mio Fratello Pier Giorgio: La Carità)
Uma Vida Consumada no Amor: A Análise de Carla Casalegno
Na biografia Pier Giorgio Frassati: Una vita di Carità, Carla Casalegno aprofunda-se na rotina espiritual que sustentava essa entrega. A autora demonstra que a atividade social de Frassati na Conferência de São Vicente de Paulo não era fruto de mero ativismo político ou social, mas o transbordamento de sua vida de oração.
Casalegno pontua como ele utilizava seu próprio dinheiro de estudante, vendendo passagens de trem ou andando a pé para economizar o valor do bonde e revertê-lo aos necessitados. Para Pier Giorgio, a caridade exigia o despojamento completo. Ele afirmava textualmente em suas correspondências o valor espiritual desse serviço:
”Jesus me visita na Sagrada Comunhão todos os dias, e eu a retribuo da forma miserável que posso, visitando os pobres de Turim.”
(FRASSATI, Pier Giorgio. Cartas)
O Amigo dos Últimos: A Visão de Primo Soldi
Padre Primo Soldi, em sua obra Pier Giorgio Frassati: L’amico degli ultimi, destaca o caráter relacional e empático da caridade do jovem turinense. Frassati não jogava a esmola de longe; ele entrava nas casas infectas, sentava-se à cama dos doentes, contraindo inclusive a doença que o mataria aos 24 anos.
Soldi argumenta que Pier Giorgio subverteu a lógica de sua classe social ao se tornar genuinamente um “amigo” dos marginalizados, tratando-os com a dignidade devida a príncipes. Nas palavras de Soldi:
”Ele não via o pobre como um objeto de piedade, mas como um mestre. Diante dos ‘últimos’, Pier Giorgio tirava o chapéu, inclinava-se e servia com a reverência de quem está diante de um altar.”
(SOLDI, Primo. Pier Giorgio Frassati: L’amico degli ultimi)
A Mística da Ação: As Cartas de Frassati na Análise de Eduardo Henrique da Silva
O pensamento de Eduardo Henrique da Silva corrobora essa visão ao analisar as mensagens e o testemunho epistolar de Pier Giorgio em seus artigos de pesquisa histórica. Em uma de suas cartas mais célebres, escrita a membros da Federação Universitária Católica Italiana (FUCI), Frassati resume a indissociabilidade entre fé e ação social:
”A caridade não é suficiente: precisamos de uma reforma social. Mas sem a caridade, as leis humanas são frias e estéreis… O apelo de Cristo nos obriga a não sermos meros espectadores da dor alheia.”
(FRASSATI, Pier Giorgio. Carta aos estudantes da FUCI)
Silva demonstra em suas publicações que essa percepção coloca Frassati como um precursor da Doutrina Social da Igreja vivida no cotidiano juvenil, unindo a crueza da realidade política de sua época (marcada pela ascensão do fascismo) à pureza do Evangelho.
Conclusão
A caridade de Pier Giorgio Frassati não pode ser interpretada como um sentimentalismo vago ou um moralismo estático. Ela foi o ápice de uma existência integrada, onde o alpinismo, os estudos de engenharia de minas, a militância política e as visitas aos cortiços faziam parte do mesmo ecossistema espiritual. Baseado no testemunho ocular de Luciana Frassati, no rigor histórico de Carla Casalegno e na sensibilidade pastoral de Primo Soldi, conclui-se que Pier Giorgio revolucionou o apostolado leigo ao provar que a santidade é perfeitamente viável na juventude, sem que para isso seja necessário isolar-se do mundo.
Sua morte trágica e prematura foi o selo de sua doação total: morreu da mesma paralisia que assolava as famílias pobres que ele abraçava. Pier Giorgio Frassati permanece vivo não como uma memória estéril, mas como um chamado urgente à ação concreta e transformadora.
Assinado:Eduardo Henrique da Silva
Bibliografia Consultada
CASALEGNO, Carla.Pier Giorgio Frassati: Una vita di Carità. Torino: Effatà Editrice, 2005.
FRASSATI, Luciana.Mio Fratello Pier Giorgio: La Carità. Milano: Vita e Pensiero, 1960.
SILVA, Eduardo Henrique da. “A Mística dos Olhos Abertos: Frassati, La Pira e a Construção da ‘Cidade dos Homens’ à Luz da Doutrina Social da Igreja”. Portal Oficial Pier Giorgio Frassati Brasil, 2026.
SILVA, Eduardo Henrique da. “A Caridade em Tempos de Guerra: Como o Legado de Pier Giorgio Inspirou a Coragem de sua Irmã”. Portal Oficial Pier Giorgio Frassati Brasil, 2026.
SOLDI, Primo.Pier Giorgio Frassati: L’amico degli ultimi – Testimonianze e Spiritualità. Torino: Elledici , 2004.
Na década de 1920, um jovem de família aristocrática subia apressado as escadas dos cortiços mais insalubres de Turim. Carregava nos braços pacotes de comida, remédios e, no coração, um amor radical pelos esquecidos. Esse jovem era Pier Giorgio Frassati.
Quase duas décadas depois, no início dos anos 40, uma mulher elegante cruzava as fronteiras vigiadas da Europa sob o terror nazista. Em suas malas, escondia fortunas em dinheiro e passaportes falsificados para salvar intelectuais e famílias judias da morte na Polônia ocupada. Essa mulher era Luciana Frassati Gawrońska, sua irmã.
Embora atuando em cenários e épocas diferentes, o fio invisível que unia as ações desses dois irmãos era exatamente o mesmo: a caridade cristã levada às últimas consequências. O heroísmo clandestino de Luciana, imortalizado em seu livro de memórias “Il destino passa per Varsavia” (1949), foi profundamente moldado pela escola de santidade que ela viveu em casa ao lado do irmão.
1. Uma Escola Familiar de Misericórdia
Pier Giorgio e Luciana cresceram em um ambiente de imensa influência política e intelectual — seu pai, Alfredo Frassati, era o fundador do prestigiado jornal La Stampa e senador italiano. Contudo, em meio à riqueza, os dois irmãos compartilhavam uma sensibilidade incomum pela dor do próximo.
Luciana foi a grande confidente de Pier Giorgio. Ela testemunhou o irmão se despojar de suas próprias roupas, sapatos e dinheiro para entregá-los aos pobres. Quando Pier Giorgio faleceu repentinamente em 1925, aos 24 anos, seu exemplo não morreu com ele. Ficou gravado na alma de Luciana como um modelo de ação: a fé católica não era um sentimento abstrato, mas uma força que exigia colocar a própria vida em risco pelo irmão.
2. “A Temerária” contra o Terror Nazista
Casada em 1925 com o diplomata polonês Jan Gawroński, Luciana viu seu destino ligar-se definitivamente à Polônia. O casal formou uma grande família com seus filhos: Elena, Wanda, Alfredo, Giovanna, Maria Grazia e Jas (que mais tarde se tornaria um renomado jornalista e político europeu). Cuidar de uma família numerosa com crianças pequenas não a impediu de agir quando o país de seu marido foi brutalmente invadido por Hitler em 1939.
Recusando-se a ser uma mera espectadora da história, e valendo-se de seu passaporte diplomático, ela realizou sete viagens secretas de alto risco à Polônia ocupada, enfrentando o perigo real de deixar seus filhos protegidos ou de levar os menores consigo para despistar as autoridades nas fronteiras.
Em sua biografia definitiva sobre Luciana, intitulada “La temeraria: Luciana Frassati Gawronska, un romanzo del Novecento” (2019), a escritora Marina Valensise a descreve como uma força da natureza. Luciana usou sua influência na alta sociedade europeia como escudo para atuar na resistência clandestina (Armia Krajowa). Ela financiou o socorro às famílias dos professores de Cracóvia enviados a campos de concentração e organizou rotas de fuga cinematográficas sob os olhos atentos da Gestapo.
Como Pier Giorgio, que desafiava o perigo das doenças e da violência urbana para cuidar dos marginalizados, Luciana desafiou os fuzis nazistas para proteger os perseguidos e garantir o futuro de sua própria família e de tantas outras.
3. Um Documento Histórico de Valor Único
O relato dessas missões em “Il destino passa per Varsavia” transcende o diário pessoal. Trata-se de um testemunho tão crucial que, ao prefaciar a reedição da obra na Itália em 1985, o renomado historiador Renzo De Felice destacou o seu valor documental único para a história da Segunda Guerra Mundial.
De Felice apontou como Luciana soube operar de forma genial em uma “zona cinzenta” diplomática, arriscando a própria vida para salvar cidadãos de um país estrangeiro. O clímax de seu livro narra sua fuga em 1944, quando, cercada pela Gestapo em Roma, fingiu uma doença grave com sangue-frio impressionante e conseguiu asilo político nos palácios do Vaticano, onde permaneceu protegida até o fim do conflito.
4. Da Varsóvia em Chamas à Causa da Santidade
A mesma mão que relatou com rigor histórico os horrores da Gestapo em Varsóvia foi a mão que, após a guerra, dedicou-se a recolher as cartas, os bilhetes e os testemunhos dos operários de Turim. Luciana tornou-se a principal biógrafa e defensora da causa de beatificação de seu irmão, escrevendo obras seminais como “Mio fratello Pier Giorgio”.
Se o mundo hoje conhece o “Jovem das Oito Bem-Aventuranças”, deve-se em grande parte à obstinação dessa irmã. Em 1990, Luciana teve a alegria de ver o Papa São João Paulo II — um polonês que conhecia de perto o cenário de sofrimento que ela descrevera em seu livro — proclamar Pier Giorgio Beato.
O Fruto da Santidade Contagia
O testemunho de Luciana Frassati, que viveu até os 105 anos e recebeu a Ordem do Mérito da República da Polônia por seu heroísmo, prova que a santidade de Pier Giorgio não era um fato isolado. Ela gerou frutos vivos e contagiantes dentro de sua própria casa.
Ao olharmos para a coragem de Luciana em Il destino passa per Varsavia, somos inspirados a olhar para o nosso próprio cotidiano. A caridade radical de Pier Giorgio transformou sua irmã em uma heroína de guerra. Como o exemplo dele pode transformar as nossas escolhas e a nossa coragem hoje?
“Eu quero morrer, se possível, pelo menos 10 anos antes de morrer de verdade, para não ter que deixar nada de especial a não ser a própria lembrança.”Escrevia Luciana Frassati à filha Nella, explicando-lhe que queria viver a vida da forma mais intensa possível.
Artigo fundamentado nas obras: “Il destino passa per Varsavia” (Luciana Frassati), “La Temeraria” (Marina Valensise) e nos ensaios históricos de Renzo De Felice.
Não apenas engajamento político e antifascismo. Este jovem de Turim tinha ideias muito claras, uma espiritualidade profunda, um coração grande e um intelecto vigilante. Fé rara, ontem como hoje.
Chamavam-no de o “estudante que está sempre correndo”: Pier Giorgio Frassati (1901-1925) foi um jovem de Turim de uma rara riqueza humana e cristã. A sua foi uma vida vivida em plenitude, apesar da brevidade. Seus parcos vinte e quatro anos foram um riquíssimo mosaico de atividades: desde a rica experiência familiar à escolha universitária na faculdade de engenharia de minas, do engajamento social e voluntariado à madura atividade política de matriz sturziana e antifascista, até a adesão a grupos eclesiais. E tudo em continuidade, porque Pier Giorgio não buscou evasões nem distrações (as quais ele podia pagar) para se sentir vital, mas tudo tinha valor porque as escolhas fundamentais eram claras. Agora que, após a pandemia, temos tanta vontade de evadir, a pergunta sobre as escolhas fundamentais faz todo o sentido.
O seu correr era totalmente voltado para amar e assistir melhor os pobres. Ele escreveu em 1925: “A Caridade, sem a qual, diz São Paulo, nenhuma outra virtude vale. Ela sim pode servir de guia e direção para toda a vida, para todo um programa. Ela, com a Graça de Dio, pode ser a meta à qual a minha alma pode aspirar. E então, num primeiro momento, ficamos desanimados, porque é um programa belo, mas duro, cheio de espinhos e de poucas rosas, mas confiamos na Providência Divina e na Sua Misericórdia”. A plenitude do tempo para Pier Giorgio era gastar-se pelos outros. Disso ele conhecia muito bem os muitos espinhos e as poucas rosas. Não se pode esquecer que Pier Giorgio amadurece essa vocação em um ambiente urbano hostil à fé e em uma comunidade cristã nem sempre à altura da sua missão. “Certas conferências de São Vicente — diria Frassati — eu aboliria. Quando existem homens que, mesmo cheios de zelo cristão, preferem desistir diante das dificuldades, é melhor que a conferência não exista”. Não há nada de filantrópico ou decadente em seu amor pelos últimos. Ele conhece os pobres e o cheiro deles, ajuda os amigos a superá-lo, anda sempre sem dinheiro porque nunca diz não a quem precisa. Engaja-se no PPI (Partido Popular Italiano) de Sturzo e professa uma fé popular e democrática com a mesma coerência moral e paixão com que serve aos últimos. Pier Giorgio, desde o início, é “visceralmente antifascista”, diria sua irmã, a ponto de preferir, de certa forma, os comunistas: “Estes agem para elevar a classe operária — diria ele —, mas os fascistas, que ideais têm? O vil dinheiro!”. Não adere ao fascismo nem mesmo quando este se mostra (falsamente) religioso. Para ele, fascismo e cristianismo continuam incompatíveis; por esse motivo, condena como traidores todos aqueles padres e leigos que aderem ao Fascio. É o Frassati de ideias muito claras, de espiritualidade profunda, de coração grande e intelecto vigilante que é sempre e em toda parte ele mesmo. Sem interrupção. Fé rara, ontem como hoje. Especialmente se pensarmos que várias biografias de Frassati trazem apenas referências rápidas e banais ao seu engajamento político e antifascista, bem como aos seus amores juvenis. Não é de se surpreender: é o falso moralismo católico burguês que, à distância de um século, continua a propor modelos de um catolicismo desincorporado, frequentador dos poderosos e de seus negócios políticos e econômicos, pronto apenas para condenar quem defende os últimos, a milhas de distância de sentir o cheiro deles. Não se trata simplesmente de ser a favor ou contra o Papa Francisco; é a desnaturação da fé e do compromisso cristão, que leva a desvios onde o crer é apenas uma capa ideológica para alguma batalha social ou política, ou, pior, interesses de balcão, entre dinheiro e poder. São os novos “ateus devotos” (B. Andreatta).
Um último aspecto. Frassati sabia bem que esse dedicar-se ao próximo passava por um voltar-se para si mesmo para buscar forças. Daí o amor pelo campo e pela montanha. “A cada dia que passa — declara em uma entrevista em 1921 — me apaixono perdidamente pela montanha. O seu fascínio me atrai”. E mais adiante retorna à necessidade do campo e do isolamento para poder se concentrar. Em outros termos, o tempo de repouso tem valor e consistência apenas se não for uma fuga, mas sim orientado a reencontrar-se, a remotivar-se para viver mais plenamente. Nem sempre é assim conosco: o nosso correr anseia pela pausa mais para esquecer e evadir, e nem sempre para se revigorar, especialmente após (?) a pandemia. Em sua última excursão à montanha, em junho de 1925, ele havia escrito, em uma foto que o retratava enquanto escalava uma rocha, “verso l’alto” (para o alto). Essa grande meta, como escreveu um amigo sobre ele, faz de Pier Giorgio “uma ajuda poderosa para sair da angústia moral do tempo burguês”.
*Doutor em ciências sociais e professor catedrático de Filosofia Política na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Gregoriana em Roma, além de professor de Ética da Administração Pública no Departamento para as políticas do pessoal da administração do Ministério do Interior Italiano
Profética soa a frase que se lê sobre o túmulo de Pier Giorgio: “Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?” Assim como foi a intuição da mãe, Adelaide Ametis, pintora famosa, que quis circundar o caixão de Pier Giorgio com painéis, pintados por ela, nos quais, como que em um simbólico jardim, pintou um ornato de flores e interpretou-o com os dizeres evangélicos das Bem-aventuranças: ao lado de um grande maço de lírios, escreveu: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”; no painel rico de rosas e flores variadas, escreveu: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”; no painel decorado com humildes flores, escreveu: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque serão chamados filhos de Deus”. No breve espaço de 24 anos, soube testemunhar com intensidade de obras e com heroicidade, que a santidade é patrimônio de cada condição, mesmo lá onde as premissas não parecem ser tão favoráveis. Não teve, seja na família, seja na escola, seja na sociedade que freqüentou, aqueles que poderíamos definir como “pedestais” sobre os quais construir a santidade, como encontra-se em tantas biografias de santos. Em uma plena e sofrida correspondência à ação da graça, que forma o tecido potente de sua construção, soube criar sozinho os degraus para subir, traçar sozinho os seus caminhos. Sabia em quais fontes alcançar o material de construção: na casa de Deus a palavra orientadora, o pão que dá a força, a vigilante presença materna: palavra, pão, presença das quais fazia-se portador pelos caminhos do mundo. Em um contexto comum a tantos jovens de então, assim como de hoje, levou uma vida não muito comum em certos aspectos. Podem variar as circunstâncias e as situações, não mudam muito as dificuldades a serem superadas. Foi intuição e mérito saber orientar o passo, em seu ambiente, para que a vida tivesse um significado. Revela-nos isso em uma carta a um amigo: “Viver sem uma fé, sem um patrimônio para defender, sem sustentar a verdade em uma luta contínua, não é viver, mas ‘ir vivendo’. Nós não podemos nunca ‘ir vivendo’, mas viver!” Mesmo que fosse somente essa a sua mensagem, já teríamos algo para o qual sermos atraídos pelo exemplo. Como ideal pode ser assumido por todos: por quem tem vinte anos e por quem tem muito mais. Pode ser uma admoestação e um estímulo para o leigo e para o consagrado; por quem tem grandes capacidades e por quem entende valorizar até mesmo um único talento; para quem tende à ação e para quem, todavia na forçada inércia, tem entre as mãos uma enorme potência redentora. Pier Giorgio é de uma surpreendente atualidade: não é um santo “de altar”, é companheiro de caminhada. Falando dele surpreendemo-nos a usar uma terminologia atual: falamos de família em crise, de escola em agitação, da sociedade em evolução com os ricos demais e os extremamente pobres, de associacionismos que empenham ou então falem, de amizade que eleva ou degrada, de tempo livre que constrói ou destrói. Em sua vida existem todos esses elementos: nele descobrimos as soluções positivas. É por esse motivo que o sentimos tão próximo, o nosso orar não é tanto uma súplica, mas um diálogo com ele, que ainda nos fala através das numerosas e reveladoras cartas e através dos exemplos, para aprender de sua “sabedoria de Deus”, acolhida e cultivada na união com Cristo palavra e pão, ainda antes que na “ciência de Cristo”; para aprender uma via que se torne testemunho de cada dia e força transformadora da realidade cotidiana. Foi saldo na fé e operoso no amor. Quanto mais aprofunda-se, não somente o conhecimento de sua vida, mas sobretudo a profundidade dos seus sentimentos, tanto mais se sente a atração desse jovem e, em sua companhia, parece que avançamos mais seguros, mais serenos, mais generosos, como acontecia nos tempos de suas memoráveis excursões e passeios nos campos. Foi um magnífico “lutador paulino”, um autêntico contestador que sofria as conseqüências na própria pele, porque contestava por amor, nunca por aversão ou por rancor. Combateu para construir, nunca para destruir; lutou para edificar, nunca para abater. E quem contesta e sofre na pele as conseqüências tem algo de heróico, algo daquele heroísmo evangélico que Jesus nos apresenta em sua vida e em sua palavra. Lutou, contestou, sofreu as conseqüências na família, na sociedade, nas associações, na política, com os amigos, na escola. Simpáticas foram também suas vicissitudes na escola: era o aluno Frassati, não o filho do senador, que era julgado como promovido. A sua trajetória escolar não foi fácil e, talvez, não compreendida: também aqui lutou e sofreu na própria pele se, aos 24 anos, encontrou-se concluindo o Politécnico, não fácil, depois de ter feito 31 exames. Faltavam-lhe ainda dois exames para fazer e também a tese, na qual já estava pensando. O último exame seria em 4 de maio de 1925: tecnologia minerária, o ideal contrastado do seu futuro. Não pode fazê-lo: durante dois meses lutou e sofreu as conseqüências na própria pele também na morte. Paradoxalmente podemos dizer que teve tal destino também nos alternados acontecimentos do processo de beatificação e na própria morte subverteu as leis da dissolução. E tudo foi sempre com um sorriso nos lábios, mesmo que se por dentro – e as cartas o confirmam em vários pontos – tumultuava a tempestade no mar e de vez em quando brotavam algumas lágrimas. Na própria morte respondeu com o sorriso (após 56 anos!) a quem dele se aproximou. Sobre ele muita coisa foi escrita: são mais de dois mil artigos de jornais e de revistas em todo o mundo sobre ele, aos quais somam-se outras publicações, comemorações… A sua figura conquistou almas de adolescentes e de homens maduros em todas as partes do mundo. À sua vida e ao seu exemplo inspiraram-se jovens que não somente quiseram conhecê-lo, mas que, no empenho de imitá-lo, realizaram também eles um empenho de santidade e agora estão a caminho da glorificação. Pier Giorgio cumpriu o empenho que o Concílio Vaticano II confia aos leigos: “A todos os leigos, portanto, incumbe o plecaro ônus de trabalhar para que o plano divino de salvação atinja sempre mais a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares da terra.” (LG 33).
* Irmão das Escolas Cristãs foi vice postulador no processo de beatificação.
Responsável pelo site oficial de Pier Giorgio Frassati no Brasil, Eduardo Henrique destaca força do testemunho de vida do jovem que levou muitos outros ao caminho de santidade
Kelen Galvan
Um jovem que se tornou padroeiro dos esportistas e alpinistas, além de ser declarado padroeiro da Juventude Vicentina: Pier Giorgio Frassati será canonizado neste domingo, 7, pelo Papa Leão XIV, no Vaticano, juntamente com Carlo Acutis. Apesar de ter vivido há mais de um século e ter falecido com apenas 24 anos, Frassati deixou um grande legado para a juventude.
“Um exemplo a ser imitado e um amigo para se familiarizar”, disse o Papa João Paulo II aos jovens no dia da beatificação de Pier Giorgio, em 20 de maio de 1990
O responsável pelo site oficial de Pier Giorgio no Brasil, Eduardo Henrique da Silva, que também é professor universitário e leigo consagrado passionista, destaca que Frassati foi um jovem de personalidade profundamente íntegra e, ao mesmo tempo, muito determinado, marcante e imponente.
“Ele não se deixou aprisionar a uma única área da vida: foi esportista apaixonado pelo montanhismo e pelo esqui, estudante aplicado de Engenharia de Minas, engajado em debates sociais e políticos, membro ativo da Ação Católica e associações caritativas ligadas à Igreja, além de ter sido um fervoroso leigo dominicano”, exemplifica.
Ele recorda que Frassati foi um jovem que fez política como orienta a Doutrina Social da Igreja e que não tinha medo de se envolver nas causas sociais quando o objetivo era o bem comum.
“O que une todas essas áreas – tão distintas à primeira vista – era o seu testemunho de coerência entre fé e vida (…) o beato Frassati soube viver o Evangelho no esporte, na universidade, na política, no cuidado com os pobres e na espiritualidade. Por isso, tornou-se referência para jovens atletas, estudantes, políticos e leigos engajados. Ele mostra que a santidade não se restringe a um setor específico, mas pode iluminar e transitar em todos os âmbitos da vida”.
Inspiração para outros
Apesar de curta, a vida de Frassati foi tão intensa que deixou um rastro de esperança e um sinal que aponta “para o Alto”. Muitos foram alcançados pela força de seu testemunho e afirmaram, em diários e cartas, que o exemplo de Pier Giorgio os levaram a “uma mudança de vida radical”, recorda Eduardo.
“No seu seguimento podemos destacar o Beato Alberto Marvelli, e homens que exerceram grande atividades na sociedade, entre eles destacamos: Giuseppe Lazzati, político e reitor na Universidade Sacro Cuore di Gesù em Milão; Giorgio La Pira, prefeito de Florença, que está em processo de beatificação”, cita.
Eduardo conta que ele mesmo foi alcançado pelo testemunho de Pier Giorgio. Conheceu o beato quando tinha 14 anos através de uma estampa. O sorriso daquela foto o instigou a querer saber mais sobre o beato. Começou a pesquisar, até que chegou ao cardeal Dom Paulo Evaristo, que o colocou em contato com o cardeal de Turim, cidade onde o beato viveu. Depois, com a irmã de Pier Giorgio, Luciana Frassati Gawronska, e a sobrinha de Pier Giorgio, Wanda Gawronska, com quem cultiva um estreito laço de amizade e gratidão. “Com o entusiasmo de torná-lo conhecido surgiu a ideia da criação do site, que já está há 15 anos no ar”.
Um jovem que se tornou padroeiro dos esportistas e alpinistas, além de ser declarado padroeiro da Juventude Vicentina: Pier Giorgio Frassati será canonizado neste domingo, 7, pelo Papa Leão XIV, no Vaticano, juntamente com Carlo Acutis. Apesar de ter vivido há mais de um século e ter falecido com apenas 24 anos, Frassati deixou um grande legado para a juventude.
“Um exemplo a ser imitado e um amigo para se familiarizar”, disse o Papa João Paulo II aos jovens no dia da beatificação de Pier Giorgio, em 20 de maio de 1990
O responsável pelo site oficial de Pier Giorgio no Brasil, Eduardo Henrique da Silva, que também é professor universitário e leigo consagrado passionista, destaca que Frassati foi um jovem de personalidade profundamente íntegra e, ao mesmo tempo, muito determinado, marcante e imponente.
“Ele não se deixou aprisionar a uma única área da vida: foi esportista apaixonado pelo montanhismo e pelo esqui, estudante aplicado de Engenharia de Minas, engajado em debates sociais e políticos, membro ativo da Ação Católica e associações caritativas ligadas à Igreja, além de ter sido um fervoroso leigo dominicano”, exemplifica.
Ele recorda que Frassati foi um jovem que fez política como orienta a Doutrina Social da Igreja e que não tinha medo de se envolver nas causas sociais quando o objetivo era o bem comum.
“O que une todas essas áreas – tão distintas à primeira vista – era o seu testemunho de coerência entre fé e vida (…) o beato Frassati soube viver o Evangelho no esporte, na universidade, na política, no cuidado com os pobres e na espiritualidade. Por isso, tornou-se referência para jovens atletas, estudantes, políticos e leigos engajados. Ele mostra que a santidade não se restringe a um setor específico, mas pode iluminar e transitar em todos os âmbitos da vida”.
Inspiração para outros
Apesar de curta, a vida de Frassati foi tão intensa que deixou um rastro de esperança e um sinal que aponta “para o Alto”. Muitos foram alcançados pela força de seu testemunho e afirmaram, em diários e cartas, que o exemplo de Pier Giorgio os levaram a “uma mudança de vida radical”, recorda Eduardo.
“No seu seguimento podemos destacar o Beato Alberto Marvelli, e homens que exerceram grande atividades na sociedade, entre eles destacamos: Giuseppe Lazzati, político e reitor na Universidade Sacro Cuore di Gesù em Milão; Giorgio La Pira, prefeito de Florença, que está em processo de beatificação”, cita.
Eduardo conta que ele mesmo foi alcançado pelo testemunho de Pier Giorgio. Conheceu o beato quando tinha 14 anos através de uma estampa. O sorriso daquela foto o instigou a querer saber mais sobre o beato. Começou a pesquisar, até que chegou ao cardeal Dom Paulo Evaristo, que o colocou em contato com o cardeal de Turim, cidade onde o beato viveu. Depois, com a irmã de Pier Giorgio, Luciana Frassati Gawronska, e a sobrinha de Pier Giorgio, Wanda Gawronska, com quem cultiva um estreito laço de amizade e gratidão. “Com o entusiasmo de torná-lo conhecido surgiu a ideia da criação do site, que já está há 15 anos no ar”.
Assim o então Cardeal Karol Woytila, futuro Papa João Paulo II, se referiu a Pier Giorgio Frassati em uma exposição sobre ele na Cracóvia. Eduardo destaca que, no contexto evangélico, as “bem-aventuranças” são o ápice de quem realiza a vontade de Deus.
“Nesse sentido, Pier Giorgio viveu na íntegra as bem-aventuranças, era puro de coração, afável, pacificador, faminto por justiça e perseguido por ela. Ele era conhecido pelo seu amor aos pobres, consolando os sofredores e agindo em prol da justiça, tudo isso com a alegria de um filho de Deus”, comenta.
1. A Espiritualidade do Escondimento e a Incompreensão Doméstica
A perspectiva biográfica de Luciana Frassati
Para compreender a densidade da santidade de Pier Giorgio, é indispensável recorrer aos relatos de sua irmã, Luciana Frassati, em obras fundamentais como Mio fratello Pier Giorgio: la carità e Mio fratello Pier Giorgio: la fede. Luciana nos oferece a chave de leitura para a maior das provações do jovem: o silêncio e a solidão espiritual dentro de seu próprio lar.
A casa dos Frassati era marcada por uma profunda cisão. Seu pai, Alfredo Frassati, era um agnóstico convicto, liberal e focado na alta política e no jornalismo de vanguarda; sua mãe, Adelaide Ametis, uma pintora de renome, mantinha uma fé formal, rígida e burguesa. Luciana documenta que, para a mentalidade de seus pais, a piedade intensa de Pier Giorgio era vista como uma fraqueza de caráter ou um fanatismo vergonhoso.
”Na nossa casa reinava o bem-estar, a inteligência, a política, a arte; mas não a oração. A oração de Pier Giorgio parecia uma anomalia, um elemento estranho que incomodava o ritmo sofisticado da família.”
— Luciana Frassati
Aprofundando essa dinâmica, Luciana revela que a caridade de Pier Giorgio precisava ser operada na mais estrita clandestinidade para evitar conflitos domésticos. Ele utilizava o dinheiro que recebia para suas despesas de estudante de Engenharia de Minas — profissão que escolheu expressamente para “poder servir a Cristo entre os mineiros”, como dizia — para comprar remédios, pagar aluguéis atrasados e comprar carvão para as famílias miseráveis de Turim. Quando o dinheiro acabou, ele empenhava seus próprios pertences (relógios, medalhas) ou voltava para casa a pé, correndo para não perder o horário das refeições, pois o atraso gerava severas punições paternas.
A biografia escrita por sua irmã demonstra que a sua grande ascese não foi a busca por sacrifícios extraordinários, mas a paciência heroica em suportar a incompreensão daqueles que mais amava, sem jamais perder a alegria ou o respeito filial.
2. A Mística Social e a Fé Encarnada
A análise teológico-social de Eduardo Henrique da Silva
Em seus artigos analíticos sobre o impacto social de Frassati, o pesquisador Eduardo Henrique da Silva situa o jovem turinense não como um devoto alienado, mas como um protagonista da Doutrina Social da Igreja (notadamente influenciado pela encíclica Rerum Novarum de Leão XIII). Silva aponta que Frassati compreendeu a caridade não como um ato de condescendência vertical (o rico que dá as sobras ao pobre), mas como uma exigência de justiça evangélica e de mística mútua.
Silva destaca que a atuação de Pier Giorgio na Federação Universitária Católica Italiana (FUCI) e no Partido Popular Italiano (fundado pelo Pe. Luigi Sturzo) refletia uma clara consciência política. Ele combateu ativamente o avanço do fascismo nas ruas de Turim, chegando a ser preso em manifestações e agredido por milícias fascistas por defender a bandeira da Igreja e a liberdade dos operários.
Eduardo Henrique da Silva conceitua a prática de Frassati a partir da “identificação sacramental com o pobre”. Para Pier Giorgio, o altar e a periferia estavam intrinsecamente ligados por uma dinâmica de reciprocidade:
A Mesa do Altar: De madrugada, na adoração noturna ou na missa diária, ele se alimentava da Eucaristia, absorvendo o Corpo de Cristo.
A Mesa da Pobreza: À tarde, nos cortiços de Turim, ele tocava as chagas desse mesmo Cristo na carne dos marginalizados.
Silva argumenta que Frassati subverteu a lógica da assistência social de sua época. Ele não enviava doações; ele se doava. Ao visitar os doentes com tifo ou tuberculose, ele os abraçava, limpava suas feridas e os tratava com a reverência devida a um monarca. Em um de seus artigos, Silva resgata uma fala memorável de Pier Giorgio que resume essa teologia encarnada: “Ao redor dos enfermos, ao redor dos infelizes, eu vejo uma luz que nós não temos”.
3. As Bem-aventuranças na Rocha
O “Verso l’Alto” de São João Paulo II
Para fundamentar ainda mais esta reflexão, é imperativo trazer o magistério de São João Paulo II, o Papa que o beatificou em 1990 e o batizou formalmente como o “Homem das Bem-aventuranças”.
João Paulo II, que também era um amante das montanhas e da juventude, enxergou em Frassati o modelo perfeito do jovem moderno que não se deixa anestesiar pelo consumismo ou pelo niilismo. O Papa explicava que o famoso lema escrito por Pier Giorgio no verso de uma fotografia escalando o Monte Pollone — “Verso l’Alto” — continha todo o programa de sua existência. Não era um convite ao escapismo espiritual, mas um chamado a elevar a qualidade moral da vida cotidiana.
As Bem-aventuranças em Frassati não eram um ideal teórico, mas virtudes vividas no concreto da existência:
Bem-aventurados os puros de coração: Mantinha uma castidade e uma retidão de intenção que contagiavam seus amigos no grupo I Tipi Loschi (Os Tipos Suspeitos), uma associação que ele fundou baseada na amizade autêntica, na oração e na alegria.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça: Sua busca pela santidade passava pela transformação das estruturas sociais, pela defesa dos direitos trabalhistas e pelo combate às desigualdades.
Bem-aventurados os misericordiosos: Sua própria morte, aos 24 anos, foi o selo de sua misericórdia. Ele contraiu poliomielite fulminante ao entrar em contato com os vírus das habitações insalubres que frequentava.
Mesmo nos seus últimos dias de agonia, com o corpo paralisado pela doença, a preocupação de Pier Giorgio estava fora de si. Luciana Frassati relata que, com a mão semiparalisada, no dia anterior à sua morte, ele escreveu um bilhete dirigindo-se a um amigo para que entregasse uma injeção e o dinheiro do aluguel a um de seus protegidos.
Conclusão
O Estandarte da Juventude que Não Passa
Unindo a memória afetiva de Luciana Frassati à análise estrutural de Eduardo Henrique da Silva, emerge uma santidade que interpela os cristãos. Pier Giorgio Frassati nos ensina que o Evangelho não é uma utopia distante, mas uma urgência para o presente.
Ele não esperou a maturidade dos anos para amar radicalmente; gastou sua juventude com a pressa de quem sabia que o tempo de servir a Cristo nos irmãos é o agora. Que, ao celebrarmos a sua memória, possamos segurar a sua mão estendida e, inspirados por seu testemunho, caminhar firmes contra a correnteza do egoísmo, direcionando os nossos olhos para a miséria do mundo e os nossos corações, perenemente, Verso l’Alto.
Fontes consultadas:
FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: la carità. Milão: Vita e Pensiero.
FRASSATI, Luciana. Mio fratello Pier Giorgio: la fede. Milão: Vita e Pensiero.
SILVA, Eduardo Henrique da. Artigos e ensaios biográficos sobre a mística social de Pier Giorgio Frassati.
JOÃO PAULO II. Homilia de Beatificação do Servo de Deus Pier Giorgio Frassati. Roma, 20 de maio de 1990.
Publicado em
«Podemos também nos perguntar se temos a coragem de aceitar em nossa vida um amigo tão especial, que se chama Jesus, que nos prometeu ser nosso amigo, que deu a sua vida e que transformou a vida de São Pier Giorgio Frassati; e pode transformar também a sua e te dar coragem, quando a mochila estiver cheia apenas de coisas cansativas, para dar mais um passo à frente e fazê-lo junto com os seus amigos» (mons. Giraudo, 2 de julho de 2026) II Frassati Day ( Torino)
Memória de São Pier Giorgio Frassati 4 de julho de 2026 Prot. n. 50/26/303 Letters_MO
Eli disse a Samuel: «Vai e responde: Fala, Senhor, que o teu servo escuta» (1 Samuel 3,9).
A TODOS OS MEMBROS DO MOVIMENTO JUVENIL DOMINICANO INTERNACIONAL
Queridos jovens amigos:
Entre todos os grupos vinculados à Ordem, o Movimento Juvenil Dominicano Internacional (MJDI) ocupa um lugar singular. É o único cuja característica definidora é uma realidade que, por sua própria natureza, passa com o tempo: a juventude. Diferente dos diversos ramos da Família Dominicana, cada um dos quais está orientado a um compromisso para toda a vida, o MJDI é, intencional e propriamente, um tempo de discernimento. É um período privilegiado no qual vocês são convidados a se perguntar, com honestidade e liberdade, se o modo dominicano de seguir a Cristo é verdadeiramente o seu lar espiritual e, se for, em qual de suas expressões concretas o Senhor os chama a viver essa vocação: como leigos dominicanos, membros de um instituto secular, irmãs apostólicas, monjas contemplativas ou frades.
Com o passar do tempo, a participação no Movimento Juvenil Dominicano pode despertar em alguns de vocês um profundo sentido de pertença à Família Dominicana e uma profunda identificação com o seu carisma e a sua missão, sem que isso conduza necessariamente ao discernimento de uma vocação em algum de seus ramos. Também isso é uma autêntica graça. A tradição dominicana sempre irradiou muito além dos limites institucionais da Ordem, enriquecendo a vida da Igreja por meio de homens e mulheres cuja mente e cujo coração foram configurados pelo amor dominicano à verdade, à contemplação, à fraternidade e à pregação, à luz do testemunho dos inumeráveis santos e santas que Deus ressuscitou na Família Dominicana.
Antes de tudo, é importante reconhecer que algo os atraiu em direção à Família Dominicana. Prestem atenção a essa atração, porque ao longo das Escrituras vemos como Deus chama as pessoas antes que elas compreendam plenamente o caminho que têm pela frente. Talvez Ele esteja fazendo o mesmo com vocês. O Senhor, que conhece o coração humano com uma profundidade muito maior do que nós mesmos, costuma estar agindo em nós muito antes de chegarmos a reconhecer a sua presença.
Talvez vocês ainda não consigam dar nome àquilo que buscam. Apenas sabem que há em vocês um anseio: buscar a verdade com humildade, contemplar a Deus na oração e pertencer a uma família que, há mais de oito séculos, compartilha com a Igreja e com o mundo os frutos da contemplação por meio das múltiplas formas da pregação dominicana. Esse anseio não é uma conclusão; é um convite. E escrevo esta carta para encorajá-los a escutá-lo com maior atenção.
Em certo sentido, vocês estão sendo atraídos em direção ao próprio São Domingos e à extraordinária família que cresceu, ao longo de mais de oito séculos, em sua missão de pregar o Evangelho. Pensem naqueles que percorreram este caminho antes de vocês: Tomás de Aquino, cuja imensa inteligência esteve sempre a serviço de um amor mais profundo a Deus; Catarina de Sena, que, sem ter recebido uma formação acadêmica, falou com coragem aos papas porque amava a Cristo e à sua Igreja; Martinho de Porres, que revelou a dignidade do serviço humilde ao cuidar dos enfermos e dos esquecidos com serena alegria; Beato Angélico, em quem a arte se transformou em uma forma de oração e o olhar contemplativo transfigurou a beleza em uma pregação eloquente do Evangelho; Pier Giorgio Frassati, cuja vitalidade juvenil, amor pelos pobres e alegria na amizade nos lembram que a santidade não pertence apenas àqueles que chegam à velhice, mas a todo coração generoso. Suas vidas foram muito diferentes entre si. Pregaram em universidades e praças, em conventos e hospitais, mediante o estudo, a contemplação, as obras de misericórdia e a amizade simples. No entanto, todos se reconheciam irmãos porque pertenciam, antes de tudo, a Cristo. O mesmo espírito dominicano os animava: a busca da verdade em comunidade, o amor à oração, a compaixão por aqueles que sofrem e o desejo de compartilhar a luz do Evangelho. Se algo na vida deles ecoa no mais profundo do seu coração, não o desconsiderem. Esse reconhecimento pode ser muito mais do que admiração. Pode ser o começo de uma conversa que Deus tem desejado ter com vocês há muito tempo: uma conversa sobre a pessoa que Ele os criou para ser e o lugar onde os seus dons poderão servir melhor ao seu Reino.
Precisamente a essa conversa chamamos de discernimento, e vale a pena determo-nos para compreender o que ele realmente é e o que não é. O discernimento não é uma técnica a ser dominada, nem uma questão de perfis de personalidade ou de aptidões vocacionais, por mais úteis que essas ferramentas possam ser. Em sua essência, o discernimento é a arte paciente de aprender a escutar: a voz de Deus, os movimentos mais profundos do próprio coração e as necessidades do mundo que Deus ama com ternura inesgotável. Esta atitude de escuta não pode ser apressada. De fato, a incerteza geralmente não é um obstáculo para o discernimento, mas sim uma de suas companheiras indispensáveis. Ela nos ensina a humildade, nos dispõe a escutar e nos liberta pouco a pouco da ilusão de que nossas vidas estão, em última análise, sob o nosso próprio controle.
Muitos jovens temem cometer um erro, como se Deus estivesse esperando para descobrir uma falha ou retirar o seu chamado caso tomem um caminho errado. Mas esse não é o Deus revelado em Jesus Cristo. O Senhor que encontramos no Evangelio é o Bom Pastor que busca a ovelha perdida, o Pai que espera por seus filhos, o Cristo ressuscitado que caminha junto aos discípulos desanimados antes mesmo que eles sejam capazes de
reconhecê-lo. No caminho de Emaús, Ele os acompanha com admirável paciência, abre-lhes as Escrituras e reaviva a sua esperança muito antes de seus olhos se abrirem. Assim age a providência de Deus. Ele nunca deixa de acompanhar aqueles a quem chama.
A Família Dominicana sempre procurou se tornar uma escola desta paciente capacidade de escuta. O próprio São Domingos nunca foi um homem de pressas inquietas. Antes que a sua missão de pregação desse origem gradualmente à Ordem, passou anos vivendo com fidelidade como cônego em Osma: rezando o Ofício Divino, estudando as Sagradas Escrituras, compartilhando a vida fraterna e aprendendo a disciplina da contemplação. Aqueles anos ocultos não foram um mero prelúdio de sua vocação; constituíram o seu verdadeiro fundamento. Somente quem aprendeu primeiro a escutar pode chegar a ser um autêntico pregador. Somente quem aprendeu a permanecer em silêncio diante de Deus pode pronunciar uma palavra capaz de alcançar o coração humano.
Esta é a vida para a qual os convidamos: um modo de seguir a Cristo. Está sustentada pela convicção de que a verdade merece ser buscada durante toda a vida, de que a beleza de Deus merece ser contemplada e de que o que foi recebido na oração não pode permanecer como uma posse privada, mas deve se transformar em um dom para os outros. Como expressa tão profundamente São Tomás de Aquino: «Assim como é melhor iluminar do que somente brilhar, assim também é melhor comunicar aos outros o contemplado do que somente contemplar»1. Nosso estudo, nossa contemplação e nossa pregação nunca são fins em si mesmos. São expressões da compaixão de Cristo, que deseja que toda pessoa chegue ao conhecimento da verdade que nos liberta.
Esta visão ganha corpo de maneiras ordinárias e, no entanto, profundamente transformadoras. Está presente no estudo que, pouco a pouco, se transforma em oração, e na oração que gradualmente ilumina todo o resto. Vive em conversas que se prolongam mais do que o previsto porque o assunto partilhado revela-se mais importante do que qualquer um imaginava. Experimenta-se em amizades fundadas não apenas em interesses comuns, mas em um mesmo amor a Cristo e à verdade que Ele encarna. E encontra a sua expressão mais plena na pregação, que na tradição dominicana não nasce de possuir todas as respostas, mas de buscar com fidelidade e alegria Aquele que é a própria Verdade. Vez por outra, aqueles que se adentram na tradição dominicana descobrem que os escritos de Tomás de Aquino, Catarina de Sena, Mestre Eckhart e tantos outros mestres dominicanos iluminam perguntas que acreditavam ser exclusivamente suas. A comunhão dos santos nos lembra que a busca da verdade nunca é um caminho solitário. Como nos recorda Santo Alberto Magno, a busca da verdade não se destina a ser vivida na solidão, pois, como ele próprio afirma, somos chamados a buscar a verdade na doçura da comunidade fraterna (in dulcedine societatis quaerere veritatem2).
Os frades,as monjas contemplativas, as irmãs apostólicas e os leigos dominicanos participam todos do único carisma dominicano, cada um segundo uma forma de vida própria. Não se trata de vocações que competem entre si, mas de expressões complementares de uma mesma graça. A monja que vigia no silêncio contemplativo do mosteiro, o frade que anuncia o Evangelho, a irmã que serve a Cristo no ministério apostólico e o leigo dominicano que dá testemunho do Evangelho na vida familiar, no trabalho profissional e no compromisso com a sociedade participam todos da única missão confiada a São Domingos: proclamar a verdade com amor (Ef 4,15) e conduzir assim os outros ao conhecimento da verdade que leva à salvação (cf. 1 Tim 2,4).
Talvez, então, a primeira pergunta ainda não seja qual é a forma de vida para a qual Deus os chama. A pergunta mais profunda é se este modo dominicano de seguir a Cristo responde aos anseios mais íntimos do seu coração. Desperta em vocês o amor à verdade? Parece-lhes estranhamente familiar uma vida marcada pela oração, pelo estudo, pela fraternidade e pela pregação, como se respondesse a um anseio que carregam dentro de si há muitos anos sem saber como nomeá-lo?
A resposta se revela pouco a pouco. Orem com fidelidade e permitam que a sua oração seja sincera diante de Deus. Busquem a orientação de um diretor espiritual ou de um confessor prudente, capaz tanto de encorajá-los quanto de desafiá-los. Permaneçam próximos da comunidade dominicana. Não reparem se os seus membros são perfeitos, porque não o somos, mas se, no meio das exigências e dos sacrifícios da nossa vocação, possuem a alegria profunda que nasce de pertencer inteiramente a Cristo. Essa alegria é um dos sinais mais seguros de uma autêntica vocação.
No fim, a vocação não consiste simplesmente em aceitar uma missão nem em iniciar uma carreira. É a descoberta do lugar onde o chamado de Deus e a verdade mais profunda da própria vida se encontram. É ali que a pessoa chega, pouco a pouco, a estar plenamente viva, plenamente livre e plenamente em casa em Cristo.
A conhecida adaptação das palavras de Santa Catarina de Sena: «Seja quem Deus quis que você fosse e incendiará o mundo»3, não é um convite à autoafirmação, mas à santidade. Catarina compreendeu que a renovação do nosso mundo não começa com grandes estratégias, mas com homens e mulheres que permitem que a graça os transforme.
Queridos amigos, o fogo que Deus acendeu no coração de São Domingos há mais de oito séculos nunca deixou de queimar. Continua iluminando as mentes, inflamando os corações e enviando pregadores ao mundo. Se começaram a sentir sequer uma faísca desse fogo, não tenham medo. Pode ser que o Senhor os esteja convidando a se aproximar mais, a escutar com maior profundidade e a descobrir alegria de caminhar com Ele na companhia de São Domingos e de toda a Família Dominicana.
Que Maria, Rainha dos Pregadores, os acompanhe com o seu cuidado maternal, os fortaleça em seu discernimento e os conduza sempre à alegria de seguir o seu Filho.
Seu irmão em São Domingos,
P.S. Esta carta é enviada também a todos os membros da Família Dominicana como um lembrete de que acompanhar os jovens em seu discernimento é uma responsabilidade compartilhada por todos nós. Incentivo cada um deles a recebê-los com fraterna cordialidade, a rezar fielmente por vocês e a ajudá-los a discernir o caminho concreto pelo qual o Senhor os chama a participar da missão e da alegria de São Domingos.
1 Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, c. 188, a. 6.
2 San Alberto Magno, In Politicorum, lib. VIII, tract. 1, c. 6 (ed. Borgnet, VIII, 803–804).
3 Santa Catalina de Siena, Carta a Stefano Maconi (Carta 368): «Si eres lo que debes ser, prenderás fuego a toda Italia.» La versión ampliamente difundida, «Sé quien Dios quiso que fueras y prenderás fuego al mundo», es una adaptación moderna, que resuena en las palabras del papa Juan Pablo II en su Homilía en la Misa de clausura de la Jornada Mundial de la Juventud, Tor Vergata, Roma, 20 de agosto de 2000.
Mais que na inquieta atmosfera de sua poesia, a Senhora Luciana Frassati soube encontrar, na aflição de seu espírito, um porto seguro e sereno, revivendo em si própria, e fazendo com que muitos outros revivessem, a recordação daquele seu prediletíssimo irmão Pier Giorgio, primeiramente com a publicação de um notável epistolário e agora com uma obra toda original e inédita, que vem a colocar um áureo sigilo à sua admirável e continuada fadiga de mais de um ano de pesquisa e investigações nos mais diversos ambientes de Turim. Tratava-se de salvar um precioso patrimônio procurando as testemunhas de mais de trinta anos atrás, que tiveram uma certa familiaridade com o jovem aluno do Politécnico e que poderiam depor, como por uma atitude sagrada, sobre a sua multiforme atividade de herói da caridade cristã. Tarefa árdua e certamente mais apropriada a ‘fortes ombros’ que ao empenho de uma mulher, mesmo que de máxima boa vontade, que não fosse a bondosa irmã, paciente e tenaz até o sacrifício, da singela estirpe dos Frassati. Passo após passo, mesmo atrás de tênues vestígios de um nome, ei-la a reconstruir todo um longo itinerário de amor atrás das pegadas daquele irmão: pelas salas universitárias, dentro das lojas, ao longo dos corredores dos hospitais e das internações, nos escritórios dos homens de cultura, nos conventos, nas guaritas dos edifícios, nos gélidos telhados, onde quer que alguém pudesse dizer algo sobre ele no exercício preferido de ajuda aos que sofrem, aos desprezados da sociedade. Que itinerário precioso e qual revelação! Vieram à tona centenas de particulares ignorados e agradabilíssimos, todos autênticos e destinados a serem minuciosamente lidos e meditados, não somente por aqueles que nas Conferências de São Vicente de Paula, onde Pier Giorgio encontrou a sua apaixonada palestra cotidiana, dedicam-se de maneira especial ao exercício da caridade. Refletindo um pouco mais, parece que a Senhora Luciana imitou o postulador da causa de um Bem-aventurado no recolher tão minuciosa messe de vivas documentações, muitas vezes esquelética, e por isso, eficacíssimas em sua concisão e sinceridade. Alguém disse que o jovem “tinha todos os requisitos para ser um santo: amor a Deus e amor ao próximo.” Um outro adicionou: “A sua virtude pareceu-me sempre heróica. Sabia-se que pertencia a uma das famílias mais abastadas de Turim e vinha até nós unir-se aos pobres, escondendo sempre aquilo que fazia de bem. Para nós Pier Giorgio era um santo.” Mas um santo alegre, animado, de larga visão, amante das escaladas em montanhas, que “fazia o bem pela alegria de fazê-lo” e que mostrava-se habitualmente “preocupado com a miséria e a necessidade dos humildes. De fato, era uma exigência sua sê-lo – assim diz Paolo Gandi –e não uma atitude de sua própria vontade.” Aos seus encontros quase diários com a caridade – era assíduo do Cottolengo, do leprosário, das Pequenas Irmãs – apresentava-se de maneira senhoril e, ao mesmo tempo, desembaraçado, alegre, cortês. Bastava olhar, para ver com que graça materna acariciava as crianças pobres e esfarrapadas, e como, entrando nos casebres da periferia de sua Turim, logo tirasse o chapéu e estendesse amigavelmente a sua mão àqueles que vinham-lhe ao encontro temorosos: aquelas pessoas quase nunca vieram a saber quem fosse aquele distinto senhor que sentava-se no leito dos doentes e tomava nota de todas as necessidades da família. Há quem se recorde, com comoção, de como ele sabia submeter-se, sem demonstrar o mínimo embaraço, aos mais baixos trabalhos de assistência, até mesmo higiênicos – a epidemia de 1918 multiplicou tais atos exemplares ao infinito – rico de todas as formas de caridade, ao dizer do Frei Giocondo: “da palavra ao gesto que conforta até ao ponto de ajudar-te a descer um degrau, manifestação e forma dificilíssima arriscando, a cada momento, de cair em uma etiqueta superficial.” De resto, tendo aprendido ainda criança, quando, não tendo outra coisa, tirou os sapatos e as meias para dá-los em esmola, Pier Giorgio obedecia ao difícil mandamento a ser realizado: “em todos os momentos estar ao seviço dos pobres.” Graciosíssimos episódios referem-se a Pier Giorgio em seu transformar-se, várias vezes, – a propósito tem quem o definiu muito bem – em uma “sucursal de agência de transportes” e carregando-se de pacotes e lenha, como um animal de carga (é a observação de Camilla Rivetti) atravessando, sob aqueles trajes de carregador, as ruas principais, sem olhar a ninguém. Um dia o redator do “Stampa” admirou-se ao vê-lo puxando um carrinho pela rua: fez de conta de nada, mas depois ao reencontrá-lo na redação do jornal de seu pai pediu explicação. “Como? Não viu? – responde sagazmente Pier Giorgio – Aquele pobre velho que não aguentava puxá-lo em meio à gente?” Esse puxar carinhos, seja para transportar coisas a serem entregues nos dias de visita, seja para ajudar aos pobrezinhos que tivessem que desalojar os utensílios de suas pequenas habitações, é um dos aspectos mais característicos do ânimo piedoso de Frassati contra o respeito humano, em uma sincera independência de caráter, ao ponto de ser chamado por Giovanni Grippa de “o santo da estrada”. Precisava tê-lo visto nos dias próximos ao Natal e à Páscoa: documentam as testemunhas que a sua atividade tornava-se “frenética”: pacotes sobre pacotes, frascos de vinho, peças de vestuário, roupas, Pier Giorgio transformava-se em um armazém ambulante, o contente carregador dos indigentes. No Natal de 1924, assumiu sozinho a tarefa de socorrer nove famílias. Quem o aconselhava de usar, para as viagens, que na maiorias das vezes eram longas, o automóvel da casa, teve por resposta que seria um humilhar os pobres: andava, portanto, sempre a pé, dando de esmolas o dinheiro que guardava para tomar o bonde. Seria, agora, um alongar-se demais enumerar as taxas escolares, as contas de gás, as receitas médicas com as suas “entradas”, certamente não tão elevadas, sem contar o enorme acúmulo de correspondências para procurar empregos, para recomendar todos aqueles que a ele recorriam confiantes naquele acolhedor convite. Ele não tinha hesitações para com eles e se, por acaso, percebia que certas pessoas que viviam na miséria não estavam realmente dispostas a procurar um trabalho e ali permanecer, cortava o assunto dizendo que “a caridade é sempre bem feita e sempre pronta a produzir os seus frutos, mesmo que se as pessoas que a recebem ou as que a exercitam não sejam dignas.”
Torim, 29 de junho de 1925 “Dois charutos hoje, um para São Pedro, o outro para São Paulo”, ouve gritar Maria Miletto, a governanta da tia que o conheceu quando criança. E sai correndo para cumprimentar a prima Silvia Torello, noviça das irmãs de São Vicente, deixando depois a irmã para dirigir-se, ainda em jejum às 11 horas, à igreja de São Carlo. À tarde, entretém-se com alguns companheiros para seguir além da Gran Madre di Dio e celebrar o padre Pietro Vigliani, o idoso sacerdote de Pollone, operado de catarata. Na última anotação no calendário de Pier Giorgio, nos dias 28 e 29 lê-se “Bessanese?”. Na realidade, ele inicia a sua semana de paixão. (De “Calendário de uma vida. 1901-1925. Pier Giorgio Frassati”, organizado por Luciana Frassati)