
O Papa João Paulo II reza diante de sepultura de Pier Giorgio Frassati no cemitério de Pollone ( Pier Giorgio ainda era Venerável)
Duas picaretas de gelo, dois caminhos diferentes, com perfis de montanhas de imensa beleza ao fundo. Fotografias de épocas diferentes, os lugares também não são os mesmos. Apenas a criação, com o seu fascínio misterioso e envolvente, serve de pano de fundo comum às imagens de dois “jovens” que têm algo verdadeiramente importante a partilhar: a amizade com Cristo. Duas pessoas que cruzaram idealmente as suas vidas: Karol Wojtyła e Pier Giorgio Frassati. O primeiro, Santo Pontífice, cujo centenário de nascimento é celebrado; o segundo, leigo beatificado há trinta anos pelo próprio Papa polaco.
Eles tiveram o seu primeiro ponto de contacto à distância, nos mesmos ambientes dominicanos. Wojtyła tomou conhecimento da figura de Pier Giorgio quando, ainda jovem estudante, ouviu falar dele pelos frades pregadores da sua cidade natal, Wadowice. Desde então, a ligação entre os dois nunca foi interrompida. Contribuiu para isso também a afinidade entre a história de Pier Giorgio — que morreu prematuramente devido a uma poliomielite fulminante contraída durante as suas muitas visitas aos pobres na Turim do início do século XX — e a do irmão mais velho de Wojtyła, Edmund. Ele também morreu em apenas quatro dias devido a uma escarlatina contraída no hospital onde tratava os doentes. Edmund era um médico que, bem consciente dos riscos que corria ao servir os contagiosos, se dedicou de corpo e alma à sua profissão. Pier Giorgio foi vítima do seu incansável amor ao próximo e Edmund não o foi menos. Duas vidas ceifadas pelo desejo de ajudar os outros.
Para Wojtyła, olhar para Pier Giorgio era um pouco como recordar o seu irmão, cujo estetoscópio guardou na sua secretária. Os pontos de encontro entre Karol e o rico burguês de Turim tornaram-se cada vez mais numerosos. As palavras de Frassati — «todos os dias me apaixono cada vez mais pelas montanhas e gostaria, se os meus estudos o permitissem, de passar dias inteiros a contemplar naquela ar puro a grandeza do Criador» — poderiam muito bem ser subscritas pelo Papa polaco.
O amor pelas montanhas e pela criação é comum aos dois e tê-los-ia tornado companheiros solidários e incansáveis na escalada dos picos. Certamente, o sacerdote Wojtyła tê-lo-ia chamado a fazer parte do grupo środowisko, ou seja, “o ambiente”, formado por jovens estudantes que, entre uma esquiada e outra, refletiam sobre a fé e o Evangelho. Um grupo criado quase à semelhança do dos “Tipi loschi” (Tipos Suspeitos) idealizado por Frassati para envolver os seus amigos no amor pela Casa comum e na fé em Cristo, impulsionando-os a agir para tornar os princípios expressões concretas de caridade. O pároco Wojtyła propunha aos estudantes o exemplo de Frassati, leigo terciário dominicano, inscrito nas Conferências de São Vicente e na Federação Universitária Católica Italiana (Fuci), como modelo de cristão empenhado no social e no serviço aos irmãos mais necessitados. Um modelo de vida fiel ao Evangelho que Wojtyła, uma vez nomeado arcebispo de Cracóvia, não deixará de indicar aos jovens, como fez a 27 de março de 1977, durante a inauguração da exposição sobre Pier Giorgio promovida pelos dominicanos. «Frassati — disse naquela ocasião — pode ser considerado, mesmo não tendo ainda subido aos altares, como um patrono, o guia espiritual da juventude académica, mesmo da atual geração». O então cardeal de Cracóvia considerou-o patrono dos jovens, antes mesmo de o processo canónico de beatificação ser concluído. Recordamos que o processo jurídico foi aberto em 1932 pela Igreja de Turim, mas foi muito dificultado e conturbado. Foi suspenso, até ser retomado por Paulo VI, que conhecera pessoalmente Frassati. E foi levado a termo precisamente por João Paulo II, que a 20 de maio de 1990 proclamou beato Pier Giorgio. Sempre durante a inauguração da exposição, o cardeal Wojtyła apresentou a figura de Frassati como «o homem das oito bem-aventuranças, que traz consigo a graça do Evangelho, da Boa Nova, a alegria da salvação que Cristo nos oferece, em si mesmo para todos os dias, como cada um de vós; como um verdadeiro jovem homem, estudante, rapaz, vosso coetâneo — disse dirigindo-se aos jovens — para estas três gerações. Ide, e observai como era o homem das oito bem-aventuranças». Wojtyła indicava em Pier Giorgio o jovem que não fenece, que nunca morre, porque radicou a sua vida em Cristo e a Ele está ligado como os ramos à videira.
Uma vez eleito Papa, Karol estreitou ainda mais a sua ligação com Pier Giorgio. Via-o como o jovem da alegria contagiante, da realização das promessas feitas por Jesus no Evangelho, considerava-o um modelo para quantos queriam dedicar-se aos pobres e aos doentes, mas também participar na vida política e social do seu País para nela refletir os princípios cristãos da doutrina da Igreja. Quando João Paulo II se deslocou a Turim, a 13 de abril de 1980, não perdeu a ocasião para aproximar a figura de Pier Giorgio à de dom Bosco, o primeiro como “verdadeiro jovem cristão”, o segundo como “verdadeiro educador”. Naquela ocasião, o Pontífice reiterou uma das razões pelas quais admirava a figura do jovem de Turim: «Aberto aos problemas da cultura, do desporto, um alpinista». Atento às questões sociais, aos valores verdadeiros da vida, era ao mesmo tempo «homem profundamente crente, nutrido da mensagem evangélica, solidíssimo no carácter, coerente, apaixonado em servir os irmãos, consumido num ardor de caridade que o levava a aproximar, segundo uma ordem de precedência absoluta, os pobres e os doentes».
O processo canónico de beatificação ainda não tinha terminado e o Papa Wojtyła continuava a indicar o exemplo de Pier Giorgio aos jovens do nosso tempo. Fê-lo uma vez durante a visita ao Centro Internacional Juvenil São Lourenço, a 13 de março de 1983. «Do exemplo de São Francisco — disse naquela ocasião — quero recordar-vos como estímulo a tender para altos ideais também a figura de um jovem que viveu na nossa época, Pier Giorgio Frassati». Indicou-o como um jovem “moderno”, sublinhando que ele tinha «vivido as Bem-aventuranças do Evangelho». Mais uma vez o Papa polaco evidenciou a importância do testemunho de vida oferecido por Frassati. E houve outro aspeto particular realçado por João Paulo II a propósito de Pier Giorgio: o de operador de paz. Assim o definiu durante o encontro para o jubileu internacional dos desportistas, realizado no estádio Olímpico de Roma a 12 de abril de 1984. Pier Giorgio podia ser incluído a pleno título entre os desportistas, como «um valente alpinista e um esquiador experiente». O Pontífice recordou uma frase escrita após a Primeira Guerra Mundial: «Com a caridade semeia-se nos homens a paz, mas não a paz do mundo, mas sim a verdadeira paz que só a fé de Cristo nos pode dar, irmanando-nos». O Papa indicou-o como um programa, para que «em cada lugar da terra — disse aos numerosos presentes — sejais também vós portadores da verdadeira paz de Cristo!».
Há outra afinidade entre Wojtyła e Frassati: o seu amor à Eucaristia. O beato passava horas diante do Santíssimo Sacramento na catedral de Turim, e assim Wojtyła, primeiro como pároco, depois como bispo e finalmente como Papa, passava em oração muitíssimo tempo. Ambos os «desportistas, jovens e atletas de Cristo», podem ser definidos homens de oração. João Paulo II, durante a beatificação de Pier Giorgio, ocorrida na praça de São Pedro a 20 de maio de 1990, fez notar o segredo do zelo apostólico e da santidade de Frassati, que deve ser procurado no itinerário ascético e espiritual por ele percorrido, ou seja, «na oração, na perseverante adoração, também noturna, do Santíssimo Sacramento, na sua sede da Palavra de Deus, perscrutada nos textos bíblicos; na serena aceitação das dificuldades da vida também familiares; na castidade vivida como disciplina alegre e sem compromissos; na predileção quotidiana pelo silêncio e pela “normalidade” da existência».
Não se pode deixar de fazer referência à devoção à Virgem Maria que unia Pier Giorgio e João Paulo II, o Papa do Totus tuus. Frassati amava deixar Turim e dirigir-se frequentemente ao santuário mariano de Oropa para rezar à Virgem; e Wojtyła costumava entregar-se por completo a Nossa Senhora no santuário de Kalwaria. Dois santuários marianos que uniam o santo e o beato na sua terna entrega à Mãe de Deus. Assim como os seus caminhos se tinham cruzado nas montanhas, na penumbra da adoração eucarística e no amor à criação, reencontraram-se sempre na devoção a Maria, a ponto de os tornar semelhantes na sua forma de fazer de Nossa Senhora o selo da existência.
Teria sido oportuno celebrar de maneira adequada o duplo aniversário do centenário do nascimento de Karol Wojtyła e os trinta anos da beatificação de Pier Giorgio, mas devido à emergência sanitária da covid-19 não foi possível. Contudo, o Padre Paolo Asolan, reitor do Pontifício Instituto Pastoral Redemptor Hominis, dirigiu uma carta aos amigos de Frassati, na qual recorda, entre outras coisas, como Wojtyła tinha lido a biografia do beato escrita por Dom Antonio Cojazzi quando era jovem. «Também eu, na minha juventude — disse João Paulo II na presença da irmã de Frassati, Luciana Gawronska, no cemitério de Pollone, a 16 de julho de 1989 — senti o benéfico influxo do seu exemplo e, como estudante, fiquei impressionado com a força do seu testemunho cristão». Revelou assim, escreveu o Padre Asolan, «a duração e a força da ligação que o unia ao seu homem das bem-aventuranças: uma impressão excecional que o tinha marcado, modelado». De facto, no estilo pastoral «aberto, dinâmico, humanamente rico e sincero, nada clerical, e contudo cheio daquela fé evidente e daquela oração» que «eram próprios do Papa polaco, há muito do estilo e das características humanas e espirituais de Pier Giorgio». Quem conhece ambos «vê-lo-á facilmente, até no amor pela montanha e pelos esquis».
O Padre Asolan imaginou também como agora, unidos no Céu na comunhão dos santos, conversarão entre si: uma realidade que só se pode imaginar, «pelo que as nossas experiências humanas nos podem conceder». E, contudo, «pensar nisso e representá-lo com os olhos da fé pode tornar-nos participantes dessa amizade, ou seja, dessa vida». Ela pode deixar também em nós «um benéfico influxo, uma impressão que nos dá forma. Algo de que certamente precisamos: para tornar bela a nossa existência e para a colocar ao serviço do mundo, aquele mundo complicado e secularizado no meio do qual também Frassati passou irradiando toda a força da sua caridade». (Nicola Gori)
https://www.osservatoreromano.va/it/news/2020-05/il-giovane-dalla-gioia-trascinante.html
