Para o alto!

Renato Romanelli

Domingo, 7 de junho de 1925: sobre a sua amarronzada fotografia, Pier Giorgio Frassati escreve, à mão, “Para o Alto”. O retrato mostra-o, destacadamente, agarrando-se com suas mãos nuas ao monte Lunelle, a 2772 metros. Foi a sua última excursão… Foi o seu último feliz domingo com a Sociedade dos Tipi Loschi, o alegre grupo de amigos alpinistas, nascido em maio do ano anterior…

É a despedida de sua tão amada montanha, mas ele não o sabe. Já de volta à casa, no calendário, marca dois compromissos: uma excursão a 29 de junho ao refúgio Castaldi, sobre Balme, para a festa de São Pedro e São Paulo; e, o “presente” que queria dar a si mesmo pela formatura que teria em breve, o Cervino, “o obstáculo mais fascinante do mundo”. Os amigos, porém, o esperarão em vão. Sim, seus amigos esperarão inutilmente a Robespierre, o grande encorajador da Sociedade Tipi Loschi.

Pier Giorgio morreria em um mês, em apenas seis dias, de poliomielite fulminante. Tinha apenas 24 anos (havia nascido a 6 de abril de 1901). E tinha os sonhos e os entusiasmos próprios daquela idade.

Até então, tinha vivido anonimamente o filho de Alfredo Frassati, homem de prestígio e de poder, dono e diretor do jornal Stampa, famoso jornalista, senador do Reino e embaixador da Itália em Berlim. No dia de sua morte, a 4 de julho de 1925, e, principalmente, dois dias depois, durante o funeral, o véu rompeu-se e Pier Giorgio apareceu diante de todos com uma nova luz: a família, os amigos, enfim, toda a cidade descobrem que aquele rapaz, estranho e um pouco louco, que subia nas árvores e cantava escancaradamente para fazer a sua avó sorrir, aquele que declamava com sua voz potente Dante e Manzoni, havia morrido em odor de santidade.

Chegaram aos milhares os testemunhos que descreviam um Pier Giorgio Frassati totalmente desconhecido: um Pier Giorgio que renunciou aos seus privilégios por amor aos outros; um Pier Giorgio que economizava para dar aos pobres; um São Francisco do século XX.

Perguntaram-lhe certa vez: “Frassati, por que você viaja sempre na terceira classe?”… “Porque não existe quarta”, respondeu. Com o dinheiro que juntava secretamente, fazendo renuncias para economizá-lo, adquiria medicamentos para quem não podia comprá-los, ajudava aos abandonados, dava uma mão aos desesperados que encontrava nas favelas ou sob as pontes; fazia isso tanto em Turim como em Berlim, tanto no verão como no inverno. Pier Giorgio movia-se de uma conferência vicentina a outra. A Sociedade São Vicente de Paulo era apenas uma das numerosas associações católicas as quais adere; entretanto, muitas vezes, ele agia solitariamente. E sempre sigilosamente, longe da vista de todos, pois, como adverte o Evangelho, “a direita não saiba aquilo que faz a esquerda”. E Pier Giorgio assim desejava: que ninguém tomasse conhecimento de suas obras de bondade. Até mesmo os seus ajudados eram estranhos uns aos outros. Encontrar-se-ão todos juntos apenas para cantar os seus louvores, no seu funeral. E descobrir-se-ão tantos!

As ações quotidianas de Pier Giorgio Frassati compõem um conjunto de eventos exemplares – semelhantes àquelas que, poeticamente, Joyce definia como epifanias –, que anulam a aparente contradição entre as origens burguesas e a heroicidade da virtude, a qual a Igreja, em maio de 1990, tinha-o elevado às honras dos altares, proclamando-o beato: O santo leigo, o santo da Turim burguesa.

Rosto moderno ainda hoje, belo com um galã do cinema de então, Pier Giorgio Frassati amava o esporte ao ar livre. Segundo os amigos, era um atleta nato e poderia praticar qualquer esporte que quisesse. Na primavera, remava com prazer no rio Pó; no inverno, tinha um compromisso imperdível com o esqui nas pistas de Monginevro ou de Gressoneu Saint-Jean. No verão, saía, muitas vezes, de bicicleta e, com desenvoltura, percorria os oitenta quilômetros entre Turim e Pollone. Ou ia, ainda, a Sandigliano Biellese, cavalgando na garupa do Parsifal, o impetuoso cavalo baio irlandês do senador (“era o único, além de papai, que sabia domá-lo”, conta ainda hoje, com um pouco de inveja, a sua irmã Luciana, sua primeira biografa e tenaz testemunha). Aos quatorze anos, Pier Giorgio já sabia dirigir. Nas cartas de sua mãe – um pouco assustada, um pouco orgulhosa – e nos relatos dos habitantes de Pollone, encontram-se os ecos da impressão do destemido rapaz que queria imitar Bordino, o Schumacher daquele tempo.

O que Pier Giorgio Frassati mais gostava, porém, era das montanhas. Conhecia-as desde criança e teve facilidade para conquistá-las rapidamente. Fez as primeiras excursões com o pai e ficou fascinado para sempre: “Montanhas, montanhas, montanhas: eu vos amo!”, escreveu em seu diário. Em seus escritos, ainda se lê: “Eu deixei meu coração entre esses montes com a esperança de reencontrá-lo quando retornar”. E ainda: “Mas como se pode resistir à tentação da neve?”

Inscreveu-se no Cai, em dezembro de 1917, conquistando um sonho. No ano seguinte, consegue carteira de associação do Touring e, depois, a da Jovem Montanha, uma associação nascida em 1914. Convocou os amigos, os ex-companheiros da escola e os colegas da universidade, formando um grupo (os Tipi Loschi). Fez parte desse grupo Laura Hidalgo, a secretária dos Tipi Loschi, que se tornou o amor secreto de Pier Giorgio; conheceram-se durante uma festa de carnaval nas montanhas, em 1923. Renunciará, porém, a Laura para dar apoio a sua mãe, Adelaide Ametis (uma pintora intimista), quando os contrastes mais agudos evidenciaram-se entre o senador e a esposa (estavam a ponto de separarem-se).

Era, portanto, um rapaz como tantos outros, mas apenas na aparência. Pier Giorgio tinha suas idéias, suas paixões, suas esperanças. Mas, tinha, sobretudo, uma vida consciente, convicta, obstinada e irrenunciável coerência com a mensagem do Evangelho. A partir do momento que aderiu a muitos grupos católicos (Companhia do Santíssimo Sacramento, Congregação Mariana, Conferência de São Vicente e outros), muitas vezes, recolhia-se em oração e todos os dias aproximava-se do Sacramento da Comunhão. Chegaram a lhe perguntar, um dia, se ele sentia-se chamado ao sacerdócio… Pier Giorgio respondeu com extraordinária solidez moral: “Eu quero ajudar minha gente de todas as maneiras, e isso eu posso fazer melhor como leigo do que como padre, pois, aqui, os sacerdotes não são tão próximos do povo”.

Este era o motivo pelo qual ele queria tornar-se engenheiro mineral: para estar próximo a uma categoria específica de trabalhadores, o mineradores. Não desdenhava do empenho político; identificava-se com o Partido Popular Italiano e sabia ser rígido com todos aqueles que aderiam ao fascismo (“um flagelo da Itália”, dizia). Sabia fazer-se respeitar, levantando os punhos se necessário. Como quando uma quadrilha de fascistas tentou entrar na sua casa. Pier Giorgio era crítico nos confrontos com o pai, um liberal convicto. Talvez, eles tenham entrado em acordo apenas uma vez: quando ambos se mantiveram contra o ingresso da Itália na guerra. Pier Giorgio, rapaz, seguia ansiosamente o desenrolar do conflito, “rezava todos os dias pelos mortos na guerra e pela família deles”, narra a sua irmã Luciana. Quando a paz foi anunciada, Pier Giorgio atravessou rapidamente toda Pollone, subiu em todos os campanários e liberou sua alegria tocando os sinos. E diziam que ele era louco.

* Renato Romanelli, Enviado do L`Stampa. da Specchio della Stampa, 10/06/2000

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