Pier Giorgio, um modelo que os jovens do Brasil precisam conhecer

Denise Farina

Descobri Pier Giorgio quando visitava minha filha, estudante do Polito, em Torino. Numa manhã, fui sozinha à Basilica do Santo Sudário e me deparei com seu pequeno altar. Nada sabia dele e fui surpreendida por aquela imagem tão bela, tão jovem, tão ativa e tão distante das imagens de contemplação e sofrimento que costumamos ver atribuídas aos santos. Posteriormente, falando com moradores locais e pesquisando na Internet fui sabendo mais deste Beato quase desconhecido aqui no Brasil e penso ter retornado com Pier Giorgio já internalizado como um exemplo a ser sempre lembrado.
Tempos mais tarde, minha filha atravessou um período difícil em seus estudos. Daqui do Brasil, pouco podia fazer para ajudá-la além do parco consolo de algumas conversas pela Internet. Ela parecia já estar desistindo diante do que acreditava serem dificuldades intransponíveis e então pedi para que confiasse em Pier Giorgio que, assim como ela, foi atleta e estudante do Polito e cujos restos repousavam a poucas quadras de onde ela estava morando. Minha filha nunca confiou em preces, mas ainda assim nossas conversas geralmente terminavam com uma lembrança a Pier Giorgio e, daqui do Brasil, eu fazia o pouco que podia para ajudá-la e orava para ele.
Ontem minha filha nos ligou eufórica: não só foi aprovada como, para sua absoluta surpresa, recebeu uma das melhores notas do grupo. Passou a confiar em Pier Giorgio e deverá ir à Basílica agradecer pessoalmente a ajuda, creio que ainda hoje.
Escrevo esta mensagem hoje porque tenho uma segunda filha, que neste momento está em Santiago do Chile iniciando sua participação numa competição desportiva internacional. Embora já tenha pedido por ela nas preces de ontem, senti a necessidade de buscar Pier Giorgio na Internet antes de sair para o trabalho, uma forma de confirmar minha confiança nele, o Patrono dos Desportistas para o Papa João Paulo II.
Continuem divulgando a vida e o exemplo de Pier Giorgio, um modelo que os jovens do Brasil precisam conhecer.

* Leitora de nosso site.

Pier Giorgio Frassati – Repercussão após sua morte

Eduardo Henrique da Silva

A impressão que tiveram em Turim, no dia dos funerais, foi que esta morte era prenuncio de uma aurora.
Seis anos são passados e a aurora não deixou de brilhar num horizonte cada vez mais vasto.
Depois que os despojos mortais foram furtados aos olhares dos seus amigos, estes voltaram desolados á igreja da Crocetta para meditar aos pés do tabernaculo as lições daquela grande vida.O pequeno grupo inicial começou a aumentar e hoje (1931) já são milhares na Itália e no mundo inteiro os que, norteados por ele, se reúnem nas igrejas e na Santa Missa.
Realmente, este morto está mais vivo que nunca!
Seu nome, agora popular, está gravado no granito e no mármore e se distende nas dobras das bandeiras gloriosas dos Círculos Católicos e das Associações Juvenis.
No dia 04 de julho de 1926, aniversário de sua morte, foi colocada uma placa de mármore na igreja da Crocetta, perto dos bancos onde costumava ajoelhar-se cada manhã. Sob o baixo relevo que o representa de perfil os paroquianos podem ler:

Pier Giorgio Frassati,
Apostolo da Caridade.
Aqui na oração e na união eucarística de cada dia,
Achou a luz e a força que o ajudaram a vencer o bom combate,
Transpor as etapas da vida, como bom soldado de Cristo.
Para lembrança e exemplo para os moços.

Um mês mais tarde, no dia 14 de agosto de 1926, um alpinista conseguiu escalar dois cumes ainda virgens, que no mássico dos Alpes se emparelham com o Ratti; e, para perpetuar, até nos vértices das montanhas, batizou-o com o nome de Pier Giorgio Frassati.
Na Piccola Casa della Providenza, sito no vasto bairro do Cottolengo, maravilha e gloria de Turim, há um grande pavilhão com 300 quartos, que tem o nome de Pier Giorgio Frassati gravado na sua fachada. (Confere em Ecos de Memória – Dois homens ardentes de amor por Jesus e pelos necessitados).
Realizaram assim o desejo que tivera de construir, á sua custa, um estabelecimento destinado a recolher os velhos doentes que, nas suas visitas aos pobres, tantas vezes vira a cargo da família.
Foi ainda para lembrar o seu amor aos pobres que no mesmo bairro onde habitara, um dispensário dirigindo pelas Irmãs de São Vicente de Paulo socorreu numerosas famílias de infelizes, e isto durante muito tempo.
Muito mais que no mármore e no bronze, porém, sua memória vive nos corações. Anualmente, o aniversário da sua morte reúne na igreja da Crocetta as multidões ávidas de ouvir falar sobre ele. Dom Cojazzi (foi o preceptor de Pier Giorgio e seu primeiro biográfo), o padre Righini, S.J., o saudoso ex-assistente eclesiástico da FUCI, Mons. Pini, o Padre Cordovani, O.P, tomaram a si esta incumbência, e os próprios arcebispos de Turim têm proposto aos jovens o exemplo e as virtudes daquele que foi um modelo perfeito. Primeiro o Cardeal Gambá, depois, no dia 04 de julho de 1931, seu sucessor o Cardeal Fossati.
Nesse dia, em todos os pontos da Itália, estudantes, rapazes dos Círculos Católicos, pessoas gradas e mesmas religiosos e religiosas, não deixam de assinalar com a comunhão o aniversário do seu natal para o céu.
A prova disto está na espantosa difusão dos “Testemunhos” recolhidos por Dom Cojazzi, e a elevação de almas que esta leitura produz parece receber a sanção do céu. É o que prova a correspondência diária da qual vamos extrair alguns trechos mais importantes.
De um rapaz: “Há quanto tempo não ia eu à missa? Há quanto tempo deixei de rezar? Nem sei. O que sei é que, longe de Deus, da Igreja e dos Sacramentos, o homem não é mais homem, é simplesmente um animal. Foi meu irmão quem me trouxe a vida de Pier Giorgio Frassati. Comecei a lê-la, página por página sem pular nem uma palavra. No fim da leitura, minha emoção chegou ao auge. Pier Giorgio era perfeito e eu estava tão longe disso! Fiz uma revisão do meu passado e não tive dificuldade em observar que antigamente era eu mais feliz. Entretanto, agora também rezo o terço todas as noites, vou à missa, aproximo-me dos Sacramentos. Tornei a achar o belo tempo da minha juventude. Lá no alto, Pier Giorgio rezou por mim:ou antes salvou-me.”
Outro testemunho.
“Só uma vez tive ocasião de o ver. Foi durante o Congresso Eucarístico de Genova, em 1923, na praça onde se reuniam os grupos de jovens, antes da procissão. Hoje lamento amargamente não ter sabido dar valor ao rapaz que eu estava cumprimentando. Quanto mais proveitoso não haveria de ser para mim o segundo encontro! Realmente, estava longe de pensar que ele viria procura-me neste cantinho obscuro da França”.
Poder-se-iam multiplicar estes fatos e citar ainda as reflexões que acompanham os donativos de esmolas à L`Stampa que sob o título de “Caridade do Sábado” faz um apelo á generosidade do público em favor dos necessitados. (Iniciativa tomada após a morte de Pier Giorgio).
Quantos benefícios espirituais ou temporais, quantas maravilhas de graça, deixam linhas como estas, apesar do véu do anonimato: “Aos pobres de Pier Giorgio Frassati, em ação de graças por um favor extraordinário alcançado…” – “Vítima de muitos infortúnios, apelei para a bondade e compaixão de Pier Giorgio e obtive a graça e consolação.” -“Pela intercessão de Pier Giorgio Frassati alcancei uma graça que há muito tempo estava pedindo a Nosso Senhor”.
É entre os jovens, como dissemos, que se manifesta melhor o impulso das almas para aquele que tanto desejou leva-las a Cristo.
No dia 06 de abril de 1931, Pier Giorgio teria trinta anos. Inúmeras foram as associações que quiseram comemorar esse dia com uma missa, comunhão e uma visita suplementar aos pobres e aos doentes nos hospitais.
“Trinta anos não é muito na vida de um homem – Dizia Dom Cojazzi aos jovens que estavam celebrando esse aniversário – e no entanto, nessa idade o jovem já tem muito encanto. Quanto a ele, que já partiu para Cristo, sempre há de ter vinte quatro anos! Na terra a juventude dura o espaço de uma manhã; só a mocidade dos que adormeceram no beijo do Senhor  é que dura eternamente!”
No cemitério de Pollone, em uma cripta de granito revestido de mármore branco, os despojos mortais de Pier Giorgio esperam a hora da ressurreição, no meio de flores que ele tanto amava e sob o olhar vigilante dos anjos de Bonozzo Gozzoli. (Hoje após a beatificação o corpo de Pier Giorgio encontra-se na Catedral de São Giovanni Batista em Turim em uma capela lateral. Na mesma catedral encontra-se o Santo Sudário).
Na lápide tumular, encimada por uma cruz, larga e sem ornato, talhada no granito de uma montanha, lê-se o seguinte:

Pier Giorgio Frassati

Com vinte e quatro anos de idade nas vésperas
De ser diplomado engenheiro, belo, robusto, alegre e estimado –
Viu chegar de improviso seu último dia – e, como fazia em todas as circunstâncias,
Saúdo-o serenamente – como o mais belo da sua existência.
Confessou a Fé pela pureza de vida e pelas obras de caridade.
A morte o ergueu como um estandarte vivo da juventude cristã.

Estandarte vivo da juventude cristã! Será que os que mandaram gravar na pedra estas palavras de sentido tão profundo suspeitavam até que ponto a fama ia confirma-las?
Em todo caso, raras profecias foram tão bem realizadas.
Um dia Dom Cojazzi respondeu a um jovem que lhe perguntou ingenuamente por que razão Pier Giorgio parece mais vivo que quando estava na terra:
“Porque a vida dele nos ajuda a compreender a palavra do Evangelho: Aquele que ama a sua vida perdê-la-á; o que a perder neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. Como o jovem do evangelho que oferecendo alguns pães, conseguiu alimentar uma multidão, Pier Giorgio, oferecendo a Crista à riqueza, a juventude e a vida, continua mesmo morto a multiplicar seus favores no coração do povo”.
Mais do que nunca, o facho está firme no candelabro e cada vez mais aumenta o facho de luz que o envolve. Sobre Pier Giorgio paira a divina promessa feita ao justo que viveu de fé: “Embora morto, ele fala sempre!”.

* Informações retiradas do livro:
Pier Giorgio Frassati
P. Marmoiton S.J.
Edição Cruzada da Boa Imprensa
Rio de Janeiro -1935

** Eduardo Henrique da Silva é responsável pelo site de Pier Giorgio Frassati no Brasil.
Leigo Domenicano, profundo conhecedor e entusiasta de Pier Giorgio.

Ser cristão significa ir contra a corrente, recorda o Papa

Pier Giorgio e Luciana Frassati

Osservatore Romano (Colab. Lucas Evyatar)

Durante um discurso dirigido ao meio-dia na Sala Clementina a uma delegação da Federação Universitária Católica Italiana (FUCI), o Papa Bento XVI recordou que ser cristão no mundo de hoje implica ser contracorrente. Em seu discurso o Pontífice elogiou a FUCI por ter contribuído “à formação de inteiras gerações de cristãos exemplares, que souberam traduzir o Evangelho na vida e com a vida, comprometendo-se no âmbito cultural, civil, social e eclesiástico”. A respeito recordou os beatos Pier Giorgio Frassati e Alberto Marvelli, assim como aos políticos italianos Aldo Moro (grande admirador de Pier Giorgio)  e Vittorio Bachelet, vilmente assassinados” e a Paulo VI, “que foi assistente eclesiástico central da FUCI nos difíceis anos do fascismo”. O Santo Padre destacou também “o testemunho convincente da ‘possível amizade’ entre a inteligência e a fé, que suporta o esforço incessante de conjugar a maturidade na fé com o crescimento no estudo e a aquisição do saber científico”. Bento XVI destacou que “o estudo é, ao mesmo tempo, uma oportunidade providencial para avançar pelo caminho da fé, porque a inteligência bem cultivada abre o coração do ser humano à escuta da voz de Deus, evidenciando a importância do discernimento e da humildade”. “Tanto hoje como no passado, quem quer ser discípulo de Cristo está chamado a ir contracorrente” e a não deixar-se influenciar por mensagens que convidam “à prepotência e à conquista do êxito com todos os meios”. Depois de destacar que na sociedade atual existe “uma corrida às vezes desenfreada à aparência e ao desejo de possuir em detrimento, por desgraça, do ser”, o Santo Padre assegurou que “a Igreja, mestra em humanidade, não se cansa de exortar especialmente às novas gerações, às que pertencem, a estar atentas e a não temer na hora de decidir caminhos ‘alternativos’ que só Cristo sabe indicar”. “Jesus chama a todos seus amigos a modelar sua existência de um modo sóbrio e solidário, a estabelecer relações afetivas sinceras e gratuitas com outros. A vós, jovens estudantes -concluiu-, pede-lhes lhes comprometer honestamente no estudo, cultivando um sentido de responsabilidade amadurecido e um interesse compartilhado pelo bem comum. Que nos anos da Universidade ofereçam um testemunho evangélico convencido e valente”.

Osservatore Romano 09.11.2007
* Colaboração Lucas Evyatar (*1976-2008)
Jovem de origem judaica depois convertido e grande admirado da figura de Pier Giorgio.

Carta convite à celebração do aniversário de Pier Giorgio

Associazione Pier Giorgio Frassati
Roma

“Eu tenho certa predileção pelo Apóstolo da Caridade”.”
Pier Giorgio

(de uma carta a Marco Beltramo
25 de março de 1925)

Para as Associações, Oratórios,
Escolas e Grupos dedicados a Pier Giorgio Frassati;
Àqueles dedicados ao ministério com os jovens;
Às confrarias, aos seminários, aos institutos,
Para todas as comunidades religiosas,
Para todos os amigos de Pier Giorgio.

Mihi vivere Christus est. Filipenses 1 :21

Caros Amigos,

Essas  palavras de São Paulo personificam Pier Giorgio. Sendo assim, neste ano dedicado a São Paulo, nosso presente para o aniversário de Pier Giorgio não poderia ser outro que não a honra a esse grande Apóstolo, a quem ele amou apaixonadamente. Sua irmã Luciana, no livro “A Fé de Frassati”, testemunhou: “Pier Giorgio sempre levou São Paulo consigo num livro de bolso; foi o São Paulo de que Pier Giorgio copiava reiteradamente as passagens à mão; eram as palavras do Apóstolo da Caridade que ele repetia nas ruas ou lia aos amigos de quarto; foi tal Apóstolo que ele recomendou com entusiasmo como um indiscutível parâmetro para a vida cristã. Não é difícil, portanto, imaginar a alegria que Pier Giorgio sentiria ao receber este presente no seu aniversário: a meditação das cartas de Paulo e nosso compromisso para convencer mais dois amigos a fazerem o mesmo.

Nós tivemos uma graça pelo fato de que o padre Thomas Rosica, CSB, CEO, presidente da “Rede Católica de Televisão Sal e Luz” do Canadá , ter composto uma novena que constitui um verdadeiro itinerário para ação e meditação dos ensinamentos de São Paulo. Começando no da 28 de março, vamos procurar encontrar tempo todos os dias para ler e refletir as epístolas recomendadas pela novena. Vamos pedir ao nosso Amigo Bem-Aventurado para nos ajudar a entender o sentido das cartas, de encontrar o poder de transformar nossas vidas e proclamar que nós queremos viver, e não apenas fingir que vivemos, já que Mihi vivere Christus est.

Vamos pedir a Pier Giorgio que nos ensine a amar com sua força e seu amor; vamos pedir-lhe especialmente, no dia 6 de abril, o seu aniversário, quando nós estivermos todos unidos espiritualmente adorando a Fonte do Amor: a Eucaristia. Nós também poderemos oferecer presentes a Pier Giorgio todos os pequenos gestos que podemos fazer durante a novena. Que ele possa alegremente apresentá-los a Jesus.

COMO PARTICIPAR:

Aqueles que desejam participar dessa iniciativa podem adicionar seus nomes  na lista,  enviando-os por email  para info@tipiloschi.com. Apenas apresente seu nome ou de seu grupo, a cidade e o país de origem. Como nos anos anteriores, todos os participantes serão listados no website dos Tipi Loschi (www.tipiloschi.com) onde poderão também fazer o download, em várias línguas, para o seu uso, do texto da novena.

Feliz Aniversário, Pier Giorgio!

Nicolò Anselmi
(Italian National Youth Ministry)

Wanda Gawronska
(Associazione Pier Giorgio Frassati)

Marco Sermarini
(The Tipi Loschi Society of Blessed Pier Giorgio Frassati)’

19 de Março de 2009.

Clique aqui para ver o texto da novena.

Dois homens ardentes de amor por Jesus e pelos necessitados

Domenico Nicodemo

Era a Primavera de 1925 quando Pier Giorgio Frassati, com apenas 24 anos, a dois passos da morte, veio a exclamar: “O dia que for mais velho e puder fazer o que quero, farei como fez Cottolengo. Vou querer ajudar todos os pobres e crianças que vivem na necessidade.”

Pier Giorgio consumiu sua exuberante juventude no amor por Jesus, pelos necessitados e pelas montanhas. Hoje seu nome, que encerra uma das mais límpidas experiências do Evangelho, é um dom que o Espírito concedeu e concede a toda a Igreja.

No fim do mês de julho de 1925, o senador Frassati, ainda abalado pela perda do filho, veio à Pequena Casa. Queria erguer e dedicar um edifício em memória de Pier Giorgio. Ouviu como resposta que no Cottolengo os edifícios se dedicam apenas aos santos. Intervém o cardeal Gamba, arcebispo de Turim: “o beato Cottolengo e Pier Giorgio, dois grandes amigos dos necessitados, dois santos … Ficam bem juntos !”

Os escritores, ao descrever a luminosa experiência de amor de Pier Giorgio, muito oportunamente, evidenciaram o seu exercício de caridade no âmbito da Conferencia de São Vicente, mas deixaram na penumbra seu serviço de voluntariado dentro da Pequena Casa. Parecia estranho a eles que um jovem como Pier Giorgio, para quem humanamente nada faltava, pudesse se interessar por problemas existenciais dos hóspedes do Cottolengo. Uma busca mais aprofundada mostra bem o contrário.

Ernesto Atzori, um seu amigo e companheiro de estudos, relembrando esse serviço de voluntariado depõe: “Sua caridade não se limitava a procurar as ocasiões individuais para exercitar-se, mas de bom grado utilizava o momento e os lugares onde a massa sofria.”

Subir as escadas que levam a um covil, pode custar um esforço ainda de não indiferença, mas no fundo, no caráter privado e limitado do gesto, está contida a explicação do porque este se possa cumprir. Ao contrario, passar de cama em cama, de uma doença para outra, de uma angustia para outra, e isso regularmente, muitas vezes ao mês, em todas as estações, no verão como no inverno, como fazia Pier Giorgio, não é coisa simples. Ele levava ao Cottolengo amigos e amigas, para dividir com os outros a alegria desta descoberta de repartir e amar.

Comentando essas experiências, Pier Giorgio afirmava: “Uma visita ao Cottolengo faria bem a todos os homens”. E acrescentava: “Através do Cottolengo seria fácil para qualquer um compreender bem os valores autênticos da vida, deixando de fora cada abandono inconsciente à existência de todos os dias.”

Mario Ghembera, outro estudante voluntário, lembra que “o destino preferido das saídas de Pier Giorgio era o Cottolengo. Ele passava entre os corredores com zelo vigilante e seguro, consolando, parando de bom grado para conversar com os doentes, como se fossem verdadeiramente irmãos, como os chamava, beijando-os como aos mais caros amigos.”

Rina Reynaud conta um de seus encontros casuais com Pier Giorgio, na rua da Consolata: “Quer vir comigo? Vou ao Cottolengo… Poderia me dar uma mão!”

Rina ficou surpresa quando viu que os hóspedes da Pequena Casa acolhiam Pier Giorgio como a um amigo e quanto conforto tinham com sua presença”. Voltando à suas respectivas casas, Rina descobriu uma dimensão nova sobre esse prestativo e surpreendente jovem que era admirado pela população, particularmente estudantil, de Turim: “ Me parecia um veterano sobrevivente de outro mundo. Sobre seu vulto transfigurado havia aquela intensa luz de espiritualidade que talvez ilumine somente as criaturas mais próximas de Deus“.

Don Bernardo Ponzetto, que algumas vezes acompanhou Pier Giorgio ao Cottolengo, declara “ter ficado mais do que surpreso, admirado, pela alegria com a qual ele se aproximava dos doentes.”

Giovanni Perfece, que foi hóspede do Cottolengo por muitos anos, lembra com admiração Pier Giorgio que aparava e enxugava a baba de um menino invalido, com limitações psíquicas, cego e surdo mudo: ”Era algo excepcional ver um jovenzinho descer ao nível de tamanha miséria, com tanto zelo maternal. Infelizmente – ele acrescentava – tantos episódios de fatos estupendos foram perdidos por nós. Grande parte das irmãs que naquele tempo o conheceram na Pequena Casa já faleceram, sem nunca terem sido interrogadas.”

As experiências de Pier Giorgio como voluntário do Cottolengo são ainda lembradas por Franca Ca’ Zorzi, Francesco Ghezzi, Carlo Geomis, Francesco Foi, mas seria muito longo reproduzir suas exposições. Fecho com o testemunho do cotolenguiano irmão Fillipo Petrino, uma figura patriarcal da Pequena Casa, recentemente desaparecido, com mais de noventa anos, depois de 73 anos de vida religiosa: “ Conheci Pier Giorgio Frassati quando era superior dos irmãos enfermeiros no Cottolengo: devo dizer que observava aquele grande jovenzinho que se distinguia de todos os outros… Serio, reservado em atitudes e palavras, parecia transfigurar-se quando junto aos doentes…Tinha dentro de si o espírito do Senhor”.

“Somos todos instrumentos indignos da Divina Providência”.

Assim se lê nas anotações de Pier Giorgio para um discurso sobre caridade. A experiência cotolenguiana seguramente desenvolveu na alma de Pier Giorgio uma grande confiança na Divina Providencia. Ele se refere a cada circunstancia, cada alegria e cada sofrimento humano, também o mais dilacerante, como um desenho preciso da Divina Providencia. Em seu epistolário de cartas endereçadas a vários amigos, temos pelo menos dez referencias explicitas a esse atributo divino.

Ele, assim como Cottolengo, freqüentemente repetia: “A Providencia proverá! “

Escreve Clemente Grosso, seu coirmão da São Vicente: “ Pier Giorgio acreditava na Providencia com a força de quem se sente concretamente ajudado por um espírito superior”.

Um dia, durante um passeio pela montanha, num momento de descanso, tentou explicar da melhor forma que conseguiu ao universitário Silvio Caligaris, que queria entender a sua conduta de condivisão existencial nos desafios de todos os homens, particularmente dos menos afortunados. “A igualdade não pode vir de nós, mas de Deus, e se alguém considera cada coisa como oferecida e criada pela bondade de Deus, resulta que todos somos iguais: pobres e ricos e que a Providencia de equilíbrio, distribuindo a cada um, age a ponto de igualá-los, de forma que compreendamos felicidade e contrariedade como dadas por Deus…”.

É uma resposta de fé que tomada isoladamente, poderia dizer pouco, mas encarnada na realidade de sua experiência de amor é muito semelhante às “respostas” que o santo Cottolengo dava e dá aos problemas existenciais dos homens.

Nestes últimos anos, particularmente de 1968 em diante, centenas de jovens vêm à Pequena Casa para contestar as escolhas de nossa sociedade, mas mais ainda para experimentar sua disponibilidade concreta ao amor evangélico e, como Pier Giorgio, revigoram-se a si mesmos e na fé com a qual os doentes suportam as dores mais terríveis, redimensionando o egocentrismo inato, descobrem a perene e antiga primavera do amor de Cristo irmão universal.

“O Nosso tempo”, 3 de julho de 1977

Um profundo silêncio

Luciana Frassati

São cinquenta anos que Pier Giorgio nos deixou; todavia, meu discurso se torna sempre mais denso e vislumbra cada vez mais as nuances daquele que foi o seu. Pareceria quase orgulho afirmar isso; mas apenas após ter a ciência aprofundada e amadurecida pelo tempo, considero hoje complacentes e apressados os julgamentos dados sobre meu irmão naquele longínquo ano santo de 1925.
Hoje, de repente, no retorno deste grande acontecimento, se descobre nele o eco exultante e ao mesmo tempo meditativo que o induziu escrever: ”A paz esteja em sua alma… qualquer outro dom que se possua nesta vida é vão como vãs são todas as coisas do mundo”. Este é o leitmotiv que invade seu animo nos meses que antecederam aquele terrível 4 de julho, leitmotiv ao qual quase em contraponto ele colocava outro: “ Agora estou próximo de colher o que plantei”.
Dois meses depois já havia colhido. O que? Um funeral, se pode responder, que deu à sua humildade o tom do triunfo; mas não era que um sinal, digo melhor, um alarme, para aqueles que chegaram até a considerá-lo um pobre ser que não tinha nada de melhor para fazer do que ir à igreja todos os dias”. Aquele triunfo era um sinal de conforto e ao mesmo tempo de consternação; e não por acaso foram os pobres a revelá-lo e apenas eles, entre os quais a sua bela figura alcançava o anonimato, às vezes carregada de problemas, mas sempre atenta na participação ativa e concreta dos problemas deles.
Quais virtudes tinha então Pier Giorgio escondido de nós que nem mesmo naquele grande momento nos sentíamos aterrorizados pela avalanche da incompreensão com a qual poderíamos tê-lo sufocado se ele não tivesse estado em contato direto com uma compreensão bem superior, preparada a perdoar também a falta da nossa? Sob essa luz de misericórdia sobrehumana, Pier Giorgio teve o dom de compreender a tudo e a todos.
Nos foi dado apenas hoje conhecer aquele jovem, obscuro até julho de 1925? Parecia fácil na época descobrir a sua lealdade, sua pureza e sua coragem – mesmo nos sendo desconhecidos os vários episódios inerentes a elas – já que ele era, ouso dizer, a expressão física desses três raros dons, suficientes para catalogá-lo entre os” bons”.
Apesar de agraciado com outras benemerências, ele continuou, no decorrer destes cinquenta anos, a ser considerado tal, mas ninguém soube a que preço de solidão e tolerância do sarcasmo alheio (para usar uma palavra um pouco forte, porém orientadora), ele conquistou e teve seladas suas grandes virtudes. Portanto, apenas através do mosaico de centenas de testemunhos e sobretudo de pensamentos colhidos nas cartas, se pode compor sua verdadeira personalidade, forjada às vezes por fatores contrastantes que unidos formam um maravilhoso todo, difícil de expor de forma breve.
Nas cartas pode-se descobrir o menino, o jovem do quotidiano que, já estudante do Politécnico, não esquece, por exemplo, nas saudações, de nomear um a um os serviçais, os amigos da casa, concluindo muitas vezes seus textos com o envio de aperto de patas àqueles personagens muito próximos a ele, os animais. Ingênuas expressões de afeto, quase nostálgicas, ele expressou sobretudo na sua estada em Freiburg im Bresgau, quando, filho do embaixador da Itália em Berlim, hóspede da família Rahner , não surpreende nem a dona da casa – hoje centenária – ajudando-a a colher batatas em uma plantação longínqua da bela cidade alemã.
É mesmo das cartas que partem de um Pier Giorgio conhecido que se consegue descobrir aquele desconhecido. Nos encontramos como diante de um motor destinado apenas a tocar o chão e que improvisamente alça voo. Os voos de Pier Giorgio. Quais eram? Não certamente daquele jovem montanhês que coloca o pé em falso nas faldas das montanhas, mas de um guia seguro em direção à meta após os percalços do caminho. Ele treina para poder “no dia da colação, escalar o Cervino” ( N.T. : Cervino é um alto pico dos Alpes). A agonia, a pouco tempo de distancia do coroamento de seus estudos, que teriam permitido que ele, como engenheiro de mineração, descesse entre aqueles a quem eram proibidos auroras e crepúsculos, foi seu Cervino, seu mais alto pico “em direção à beatificação”.
A caridade assim como a fé, eram para nós como vestes dominicais: para ele foram pão diário, alimento inseparável a ponto de fazê-lo dizer: “ O que seria a fé se não fosse revestida de caridade?”. Declara em suas cartas a primeira como “única e verdadeira alegria”, mantém secreta a outra virtude e se limita quase que a concentrá-la em uma frase: “ Eu nutro uma especial predileção pelo Apostolo da caridade”. Nos perguntamos como aqueles a quem essas cartas foram endereçadas, não tiveram consciência nem por um instante de quem ele era. Como não descobriram a ingenuidade e a genialidade dos santos? A infinita modéstia de Pier Giorgio era selada com uma mordaça tão impenetrável que nem mesmo a poliomielite fulminante conseguiu despedaçar, mas apenas o grande cavalheiro que é o tempo.
E nós? Não fomos mais videntes. Poderia ter coberto as paredes com cantos de Dante, versos de Foscolo e para declamá-los usar como púlpito os pinheiros do jardim, ler São Paulo, Santo Agostinho, São Tomás, e se alguém tivesse dito que era poeta, filosofo, a resposta seria resumida a uma cordial risada. Talvez não a recebesse de mim, quando com apaixonado orgulho de colecionador, respondeu, diante da minha perplexidade sobre o valor dos minerais fechados numa vitrine: irão ao museu?
Vitrine e minerais não apenas foram aceitos pelo Politécnico de Turim, como o professor Cavinato, recebendo-os acompanhados um a um por seu nome latino, testemunhou que nunca lhe tinha ocorrido descobrir em algum de seus alunos tanta e tão diligente paixão. Pier Giorgio a colocava também nas visitas a museus, das quais restam muitos indícios em suas cartas, como o álbum de obras primas admiradas por ele. De pintura se falava em casa, mas apenas ele aprofundou-se.
O arco de sua inteligência abraçava Dante e os minerais; o arco de sua alma a humildade, a fé, e a caridade, tudo acompanhado daquela que ele considerava também virtude: a felicidade. Escrevia-me a 14 de fevereiro de 1925, de Turim:
“Queridíssima, antes de tudo obrigada pela bonita carta… você me pergunta se sou feliz; como não poderia sê-lo? Até quando a Fé me der força, sempre feliz ! um católico não pode não ser feliz : a tristeza deve ser banida das almas católicas; a dor não é a tristeza, que é uma doença pior que qualquer outra. Essa doença é quase sempre produzida pelo ateísmo; mas o objetivo pelo qual fomos criados nos indica um caminho semeado de muitos espinhos, mas não um caminho triste: esse é alegria, também através da dor.”
Sua figura, seu semblante, seu límpido sorriso eram a origem e a razão de cada consenso acima dos possíveis mal entendidos de seus contemporâneos, das mesquinhas disputas dos jovens e acabava sendo a sua vestimenta, aquela mesmo que, ao nascer no sábado santo de 1901, lhe foi predestinada chamando-o “o menino da festa”.

“Ripresa”, 15 de julho de 1975

* Luciana Frassati Gawronska, (*1902 +2007)

Formada em Direito, escritora e poetisa. Entre seus livros destacam-se as biografias de Pier Giorgio o qual era seu irmão.
Amiga de todas as horas, grande incentivadora do processo de beatificação.
Casou-se com diplomata polonês Jan Gawronska em 1925. Vivenciou o drama da Segunda Guerra Mundial o qual relata em seu livro: O Destino passa por Varsóvia . Teve seis filhos entre eles: o jornalista Jas Gawronska e Wanda Gawronska, presidente da Associação Pier Giorgio Frassati de Roma.

Luciana Frassati Gawronska, (*1902 +2007)

A profecia do leigo

 

Quarto de Pier Giorgio Frassati
Quarto de Pier Giorgio Frassati

Giovanni Trovati


Na vida de Pier Giorgio Frassati podemos ver três momentos coligados pela dedicação ao próximo. A amizade pelos pobres “de meios” é o que mais se realça. Rico de família, mas pessoalmente com dinheiro limitado, porque em casa eram muito parcimoniosos, visitava as famílias que sabia estarem em condições de necessidade e dava o que tinha e mais, economizando até na passagem do ônibus ou pedindo emprestado aos amigos. Mais do que doar, se doava, para cumprir uma obra de evangelização, da qual naturalmente saia evangelizado.

A fé impõe amar a Deus, amar Deus implica que “seja feita a Sua vontade”, e esta nos remete a repartir com os outros. Por sua vez, o amor pelo próximo predispõe o ânimo a compreender o mistério da fé. É um círculo que envolve o eu, Deus, os outros. Não se vive sozinho e não nos salvamos sozinhos.

Um segundo momento da vida de Pier Giorgio Frassati, consequência do primeiro, é o propósito de trabalhar na Alsacia, uma vez conseguido o diploma de engenharia, para estar com os alemães que tinham ficado sob o jugo da França após a primeira guerra mundial e que sofriam na condição de vencidos. Também esses considerava pobres. Para testemunhar sua participação, estava pronto a deixar todo privilégio na Itália. O pai pretendia prepará-lo para a sucessão no comando do “La Stampa”: teria conseguido o lugar seguramente, de grande prestígio e remuneração e a carreira fácil que o teria colocado entre aqueles que contavam e formavam opinião. Se suas visitas às famílias necessitadas lhe traziam incompreensão, a notícia de ir trabalhar ao Deus dará, fora da pátria, ao lado daqueles que sofriam uma injustiça, o colocou em confronto com os pais. Fazer o bem sempre tem um pedaço de sofrimento e ele estava convencido que quem vê o bem e o renuncia é um desertor.

O terceiro momento, que pretendo realçar, é político. Se posicionou contra o fascismo em sua formação e sua afirmação, porque o considerava uma ofensa à religião e à dignidade humana. E se rebelou sempre, publicamente, aos gestos de obsequio que vinham também de setores católicos. Via no fascismo o abuso, e coerentemente se posicionava com aqueles que eram privados da liberdade: também esses eram pobres.

Pier Giorgio Frassati era o leigo que acompanhava o sacerdote onde o sacerdote é presente e penetra lá onde o sacerdote é ausente. “Em tantas famílias, em tantos lugares de trabalho, apenas o leigo pode acender o fogo que Cristo trouxe sobre a Terra” afirmou padre Carré após a grande prova do ultimo conflito numa pregação quaresmal em Notre Dame. Para dar testemunho do Evangelho são necessárias a santidade interior e o culto sacramental. O jovem Frassati se preocupava com uma e outro. Se dá o que se tem, e se tem o que através da oração se obtém de Deus.

Amava os pobres, ajudava-os na promoção humana impulsionado pela carga revolucionária da caridade. Muda-se o mundo mudando-se o homem: a revolução que impõe novas estruturas através da violência opera uma mudança ilusória que leva sempre à ditadura, à opressão. Sempre foi assim no passar dos séculos, assim constatamos com a revolução de outubro.

O cristão é um revolucionário porque quer mudar o mundo começando pelo seu próximo: obra cansativa, difícil, de êxito imprevisível. Escrevia padre Guardini mais ou menos ao mesmo tempo que Pier Giorgio: “O que pode convencer o homem moderno não é um cristianismo histórico ou psíquico, mesmo que modernizado, mas apenas a mensagem plena, total, não partida, da revelação”. O Vaticano II quarenta anos depois relacionou a vocação e a missão do leigo com a vocação e a missão da Igreja.” Esse povo – lê-se na Lumen Gentium – tem por lei o preceito de amar como o próprio Cristo nos amou”. Ou seja, sem medida. Ao amor se dá o máximo. A semente de memória evangélica morre para dar fruto e morre sob a terra, escondida, porque o bem feito para ser conhecido traz em si a grande limitação de não ser desinteressado. Uma definição do professor Lazzati nos ajuda a entender quem é o leigo: é um homem batizado que participa da vocação geral que pertence a todos, a santidade. A santidade pressupõe uma busca continua de Deus na humanidade.

Assim se compreende o conceito de caridade que São Paulo exalta como primeira virtude: significa participar da vida do outros, nos muitos sofrimentos e nas poucas alegrias. O leigo toma nas mãos sua própria existência e a dos outros, no colóquio continuo com o autor da vida e na imersão no mundo. É a testemunha de uma difícil fé e com sua obra pode colocar em crise benéfica aos outros. Padre Congar escreveu que é um homem que sabe que o mundo existe. Frase que sinteticamente resume o que afirmava o autor desconhecido da Carta a Diogneto nos alvores do cristianismo: “Os cristãos não podem se separar da sociedade devido à universalidade da fé que professam, mas também não se identificam com ela. Sua função consiste em inserir-se na história dos homens, em respeitá-la, em colher dela o que é positivo, no ser fermento ativo, conscientes que também os valores seculares, para darem frutos, devem passar pela cruz”.

Pier Giorgio Frassati experimentou o quanto custa carregar a cruz, em cansaço e em escárnio – porque a cruz continua a ser bobagem para o mundo – mas foi consciente que a verdadeira alegria vem do compreender e auxiliar os outros. Sua vida nos aparece como um sofrimento glorioso, próprio do santos.

Turim, 21 de setembro de 1988

* Giovanni Trovati foi vice diretor e jornalista do L´Stampa.

O pensamento a serviço da vida

Martin Stanislas Gillet

Em 1922 e 1923, encontrando-me em Turim para a festa do centenário de S. Domingos, tive oportunidade de conhecer, durante as funções sagradas que se desenvolviam solenemente, alguns universitários da Terceira Ordem Dominicana.

Todos simpáticos, porém um me impressionou por um seu fascínio especial. Um porte ereto, o olhar límpido, o semblante de quem pode comandar e dominar. De sua pessoa liberava-se uma força de atração cheia de doçura. Chamava-se Pier Giorgio Frassati.

Nascido em Turim, aos 6 de abril de 1901, faleceu em 4 de julho de 1925, em pleno vigor, na véspera de sua formatura como engenheiro. Agora nós o apresentamos aos nossos jovens franceses, para que o reconheçam como um deles, e rendam à sua memória o culto que lhe é devido.

Porque Pier Giorgio fazia manifestadamente parte daquele eleito grupo de jovens que se encontra hoje, um pouco em cada centro universitário, que tem, com a nostalgia do sobrenatural, verdadeiro temperamento de apóstolos.

A religião sempre significa para eles uma doutrina de vida, junto à luz e força, que deve iluminar e fecundar a atividade humana por inteiro. Nada deve sair de seu domínio, e ao contrário, tudo ela pode abranger, expandindo-se. Pier Giorgio teve apenas o tempo de ser um estudante; mas já nele se manifestava o homem que teria sido um dia, não precisamente um intelectual, mas um homem capaz de colocar toda sua vida a serviço de seus ideais, acima de tudo um homem de ação, decidido a colocar todas as suas idéias a serviço da sua vida.

Por ação, esse jovem entendia ação católica; e estendia esse domínio tanto à vida interior quanto às obras exteriores; à vida pessoal como à familiar e social.

Agir era para ele sobretudo viver, portanto, pensar, sentir, amar, prover-se com todas as fontes e todos os  impulsos da natureza e da graça.

O centro da ação estava nele, nas profundezas de sua alma, de coração para coração com o Deus de amor, cuja presença o inebriava. Lá ele encontrava a alegria de viver e aos 24 anos encontrou a força de morrer.

Em toda a vida de estudante, foi um jovem puro; a piedade porém não lhe apagou nunca a chama do olhar, não lhe obscureceu a fronte, não extinguiu o sorriso de seu semblante. Ao contrário, tudo nele brilhava de alegria, porque deixava a sua bela natureza florir ao sol de Deus.

Todos os sentimentos que fazem vibrar o coração, na inspiração cristã, encontravam hospitalidade no seu, em espontaneidade e generosidade sem igual. Amava em primeiro lugar sua família, sofria em ter de deixá-la, exultava ao regressar.

Espalhava alegria. Seu pai encontrava alivio dos afazeres políticos ao compartilhar com suas brincadeiras. Sua mãe, que ele amava ternamente, guardava no coração suas palavras.

Como à sua família, com o mesmo ímpeto amou a pátria. E porque não a teria amado sua alma sensível e delicada que se sentia devedora de tudo? Não havia ela dado à Igreja e ao mundo o maior pensador, Tomás de Aquino; o maior poeta, Dante e na plêiade de artistas, o mais espiritual e popular pintor, fra Angélico? Não se confundia talvez a história do mundo civil com a história de seu país, e por duas vezes, antes e depois de Jesus Cristo, não tinha sido e não era talvez ainda Roma sua capital?

Pier Giorgio considerava a pátria como o prolongamento da família e a Igreja como a expansão da pátria, no mundo espiritual. Esses afetos não se opunham em seu coração, mas se harmonizavam e ganhavam força reciprocamente.

Amava a mãe de todos: a Igreja. Teria dado a vida de bom grado por ela.

E na Igreja, as almas o atraiam, sobretudo as dos necessitados. Nas páginas que lhe são dedicadas, se lêem particularidades comoventes a respeito de seu relacionamento com os pobres. Aos famintos dava o pouco que tinha; aos privados de afeto dava o coração; aos desgraçados que ignoravam tudo que vem de Deus e viviam na solidão espiritual, dava o exemplo do justo que vive sua fé e os direcionava a Deus para que Ele os saciasse.

Na idade em que as paixões fervem no coração dos jovens e ameaçam romper os freios, Pier Giorgio concentrava no seu todas as forças vivas e as equilibrava.

Dia a dia, diante de Deus e diante dos homens, aprendia a vencer-se e dominar-se. Poderia se dizer que, sem se aperceber, preparava-se para a missão de comandante, se é verdade que para se saber conduzir os outros é necessário antes de tudo saber conduzir a si próprio.

E um dia, um mal inesperado fulminou este jovem, tão sólido, tão equilibrado, tão vivo, e as ascensões espirituais foram interrompidas de um golpe. Não ! Antes, morrendo, ele galgou em um instante a distancia que o separava de Deus: trocou a terra pelo céu.

Os desígnios de Deus são incompreensíveis,porque vê as coisas de muito mais alto e mais longe que nós, no todo e no particular.

Porém, nos é permitido pensar que, chamando Pier Giorgio para Si, no momento em que todos que o conheciam colocavam nele tantas esperanças, Deus tenha querido que sua morte inesperada e repentina colocasse em relevo a beleza excepcional de sua vida, e atraísse a atenção dos jovens que pudessem se inspirar nele.

Pensando assim, Pier Giorgio se tornou seu comandante. Sua ação rompeu as cadeias da morte e sobreviveu a ela. Continua a falar com aqueles que sabem ouvi-lo e os exorta a segui-lo.

Defunctus adhuc loquitor.

Prefacio da edição francesa da biografia de Pier Giorgio Frassati, curada por R. P. Marmoiton, s.j., Toulouse 1932.

* Martin Stanislas Gillet foi Mestre Geral dos Domenicanos de 1929 a 1946. Em seguida elevado a dignidade de Cardeal.

Um jovem “enamorado”

Paolo Risso

“O segredo da perfeição espiritual de Pier Giorgio Frassati – foi testemunhado a seu respeito – deve ser buscado, de modo especial, na sua assídua, sincera, profunda e terníssima devoção à Virgem Maria”.

Viam-no passar pelos campos de Biella montado sobre “Parsifal”, seu cavalo. Pelas ruas de Turim, com os amigos, fazia alvoroço por quatro. Ágil e forte, escalava os cimos dos Alpes, puxando atrás de si, com seus músculos de aço, os mais pequeninos… Um rosto aberto ao sorriso e à gargalhada estrepitosa. Simpático, cativante, fazia-se amar.
Assim era Pier Giorgio Frassati, filho do senador liberal Alfredo Frassati, dono e diretor do jornal La Stampa, embaixador da Itália em Berlim. Nasceu em Turim, aos 6 de abril de 1901, sábado santo. Da mãe, do seu primeiro preceptor – o padre salesiano Cojazzi – e de seus professores, Pier Giorgio recebe uma límpida formação cristã, aperfeiçoada junto ao Instituto Social dos Padres Jesuítas. Pier Giorgio descobre, bem cedo, a Cristo como seu primeiro amor: sente-se amado por ele e chamado a retribuir a este seu amor com uma afeição extraordinária.

A VIDA COMO DOM DE AMOR

Existe um fato único que penetra a vida de Pier Giorgio: Cristo que transforma tudo e o move por todos os caminhos para manifestar sua presença e mudar o mundo. Pier Giorgio estuda e convive com os amigos, reza intensamente com o terço nas mãos, recebe todos os dias a Comunhão. Depois, empenha-se na sociedade e na política. Toma parte, ativíssimo, nas Conferências de São Vicente e serve aos pobres nos sótãos. Faz parte do Círculo Universitário Cesare Balbo, inscreve-se no Partido Popular tão logo esse surgiu, dedica-se às classes mais humildes e luta contra o fascismo nascente. Dá seu nome para os “adoradores noturnos”, passa noites em oração diante do tabernáculo, e se apaixona pela montanha, pelas corridas de bicicleta e de carros. Participa da Ordem Terceira dos Dominicanos, na “bela igreja de São Domingos” de Turim, com o nome de “Frei Girolamo”, em memória de Frei Girolamo Savonarola – o dominicano mártir –, pois partilha com ele o ideal de reforma espiritual e social.
Os amigos o seguem porque é um verdadeiro líder, humilde, tenaz, fascinante. Incute respeito junto aos liberais, como seu pai, ou junto aos socialistas, como Turati. Os fascistas o temem, porque já experimentaram seus terríveis murros.
Vem a falecer, atingido por uma poliomielite fulminante, adquirida no sótão dos seus pobres, aos 4 de julho de 1925. Seus funerais são um triunfo.

O SEGREDO DE UMA VIDA ASSIM

Marco Beltramo, um dos amigos mais queridos de Pier Giorgio, nos explica: “Se vocês me perguntassem qual era o meio seguro sobre o qual ele se apoiava para realizar uma assim constante obra-prima de vida intimamente unida a Deus, eu não hesito em lhes responder que o segredo da perfeição espiritual de Pier Giorgio deve ser buscado, de modo especial, na sua assídua, sincera profunda e terníssima devoção à Virgem Maria. Nós todos, que vivemos alguns anos próximos a Pier Giorgio, não podemos separar sua lembrança da lembrança de seu amor filial à Maria”.
Em Turim, inscreveu-se na Congregação Mariana do Instituto Social dos Padres Jesuítas e tinha consagrado sua juventude e sua vida à Nossa Senhora. Oropa foi o Santuário predileto de Pier Giorgio, cuja família era proveniente de Pollone, uma aldeia a poucos quilômetros da sua “Virgem Negra”. Foi a Oropa muitíssimas vezes, pedindo ao jardineiro que o acordasse ao romper do dia e voltando logo, de modo que ninguém da família se dava conta disso. Com a força da presença de Maria em sua vida, retomava seus estudos, seu testemunho de fé e de caridade.
Quem o conheceu deixou comoventes afirmações sobre seu afeto para com Nossa Senhora. “Quando subia ao Santuário – escreveu o Padre Rizzi, redentorista – parecia transformado pelo amor à Virgem. Sua devoção à Virgem de Oropa era muito terna, filial. Nada lhe impedia de subir até aqui. Um dia, encontrei-o sobre a escadaria do Santuário, todo coberto de neve, enlameado, quase irreconhecível. Disse-lhe: ‘Pier Giorgio, você veio com este mau tempo, por estes caminhos?’. E ele me respondeu sorrindo, como uma criança”.
Costumava subir ao Santuário de Oropa recitando, sem nenhum respeito humano, o rosário, que era a sua oração predileta, como católico convicto, fiel às tradições da Igreja e membro da Ordem Terceira Dominicana, na qual tinha entrado por causa da afinidade de sua alma com o espírito de São Domingos de Gusmão e seus frades pregadores de hábitos brancos.
Entre as inumeráveis vezes que foi a Oropa, deve-se recordar sua participação na coroação da imagem de Nossa Senhora, aos 29 de agosto de 1920. Permaneceu no santuário o dia todo. Tinha subido para lá a pé, rezando o rosário e cantando ladainhas. Confessara-se durante a noite e participara da Missa de manhã bem cedo.
“De manhã – escreve a irmã, Luciana –, acordara com as primeiras luzes do dia; foi, então, rezar e, depois, começou a andar de lá para cá infatigavelmente… com uma alegria que lhe transparecia no rosto, nos atos e nas palavras”. Depois que o Cardeal Valfré colocou a coroa sobre a cabeça de Nossa Senhora, foi entoado um hino de louvor e “a voz, cheia de fervor, de Pier Giorgio logo dominou todas as vozes dos fiéis presentes, depois de ele ter ajudado a levar em triunfo a imagem da Virgem”.
“O que não se pode esquecer com relação a Pier Giorgio – dizia o pároco de Cossato – é o tê-lo visto rezar. Fixava Nossa Senhora e parecia que queria devorá-la com os olhos”.
Mas, o seu afeto à Virgem não estava ligado apenas ao Santuário de Oropa, querido de qualquer biellese. Pier Giorgio amava todos os santuários marianos, sobretudo os de Turim: o da Consalata, coração da fé dos turineses, e o de Nossa Senhora Auxiliadora, templo erguido à Mãe de Deus e dos cristãos por Dom Bosco. Para lá, tinha-o ensinado a se dirigir seu primeiro preceptor, o padre salesiano Cojazzi, e na sua escola – a escola de Maria – Pier Giorgio tinha aprendido a ser orante e silencioso, enamorado de Deus, capaz de testemunhar Cristo onde ele era ofendido e até mesmo negado, discreto e dinâmico, livre e feliz, como quem sabe ser possuído pelo Mistério divino.
O rosário era a sua oração predileta a ser oferecida à Maria. Ele mesmo cultivava uma planta que produzia sementes escuras com as quais fazia terços originais e os oferecia aos amigos e às amigas, convidando todos à oração. Pier Giorgio costumava rezar com o terço, de joelhos, aos pés de sua cama, depois de um dia intenso de estudo e cansaços, a ponto de comover até mesmo seu pai “leigo” e liberal. Ou então, rezava prostrado com o rosto em terra, como um antigo monge, nas suas noites passadas em adoração a Jesus Eucarístico. Ou ainda, rezava em meio a uma comitiva alegre e barulhenta de jovens que subiam ou voltavam das montanhas nas excursões dominicais. Quando, em setembro de 1921, no Congresso da Ação Católica que se deu em Roma, Pier Giorgio e outros jovens foram presos pela polícia e maltratados, no pátio onde foram amontoados na espera do interrogatório, o filho do embaixador em Berlim, em alta voz, erguendo o terço sobre todos, disse: “Por aqueles que nos espancaram, todos juntos, rezemos agora”.

A VIDA E A MORTE COMO UMA “OBRA-PRIMA”

Não poucos jovens do seu tempo, inspirando-se em D’Annunzio, buscavam fazer da própria vida uma “obra-prima” de violência e de vícios, chamando-a de “esteticismo”. Outros, seguindo Gramsci ou Gobetti, impostavam a vida como luta ou “empenho civil”, sem Deus e sem Cristo. Pier Giorgio, nutrido com a força do pensamento católico – o único capaz de responder a todas as perguntas do homem – e guiado por Maria, soube fazer da sua vida uma “obra-prima” de Cristo, pois todos os dias colocava em prática o convite que a Virgem fizera aos servos das bodas de Caná: “Fazei tudo o que ele vos disser”.
Hoje é a Igreja, que pela palavra infalível de João Paulo II, proclama Pier Giorgio Frassati, não só “o jovem das oito bem-aventuranças”, como o tinha chamado em Cracóvia o mesmo Cardeal Wojtyla em 1977, mas beato, apontando-o como modelo da juventude de hoje. Esta, em Cristo – reconhecido, seguido e amado, sobre o rastro deste jovem santo –, não tem nada a perder, mas tudo a ganhar e se torna capaz de construir um futuro esplêndido nesta terra e na eternidade.

* Do livro: Paolo Risso, Pier Giorgio Frassati, il giovane ricco che disse sì, L.D.C., Leumann-Torino, 1989.

A Devoção à Nossa Senhora: Alimento para a fé em Pier Giorgio Frassati

Frei Alessandro Rosso, o.f.m. cap.

Pier Giorgio Frassati, desde a primeira juventude, teve uma adesão humilde e forte à fé recebida em germe no santo Batismo, alimentada pela educação cristã recebida na família e, sobretudo, pelos sacerdotes que o prepararam para os sacramentos da iniciação cristã. E esta adesão foi, pouco a pouco, crescendo com o estudo do catecismo e do Evangelho, com a oração assídua e uma profunda devoção eucarística e mariana.

1 – A fé, fundamento da vida espiritual do Beato

Sua fé era plena, forte, alegre e operosa. E, desta fé, provinha a sua caridade multiforme e o zelo para conduzir outros – fossem amigos ou pobres assistidos – para o amor do Senhor.
É importante, para compreender como a fé era realmente o fundamento da vida espiritual de Pier Giorgio, transcrever três trechos das cartas dirigidas ao amigo Isidoro Bonini, que remontam aos últimos meses de sua vida e que são citadas no volume: Lettere di Pier Giorgio Frassati (“Cartas de Pier Giorgio Frassati”), Queriniana, 1950.

15 de janeiro de 1925
“… De tempos em tempos, me pergunto: continuarei buscando seguir o bom caminho? Terei a ventura de perseverar até o fim? Em meio a este tremendo embate diante das dúvidas, a fé que me foi dada no Batismo me aconselha com voz segura: ‘Por si mesmo, você não fará nada, mas se tiver a Deus como centro de todas as suas ações, então, sim: você chegará ao fim’. É justamente isso que gostaria de poder fazer e tomar como lema o dito de Santo Agostinho: ‘Ó Senhor, inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti’…” (o.c. p. 192).

29 de janeiro de 1925
“… Terei a força para chegar? Sem dúvida, a fé é a única âncora de salvação e é preciso agarrar-se fortemente a ela. Que seria toda a nossa vida sem ela? Nada, ou melhor: seria consumida inutilmente, pois, no mundo, só há dor e a dor sem a fé é insuportável, enquanto que a dor alimentada  pela pequena chama da fé se torna algo de belo porque robustece a alma para a luta…” (o.c. p. 194).

27 de fevereiro de 1925
“… pobres infelizes aqueles que não têm fé! Viver sem uma fé, sem um patrimônio a ser defendido, sem sustentar, numa luta contínua, a verdade não é viver, mas é ir vivendo. Nós nunca devemos ir vivendo, porque, também através de qualquer desilusão, devemos nos lembrar de que somos os únicos que possuímos a verdade; temos uma fé a sustentar, uma esperança a atingir: a nossa Pátria. E, por isso, expulso qualquer tristeza, que só pode existir quando se perde a fé…” (o.c. p. 196).

Alimento de sua fé e de sua multiforme caridade foi, sem dúvida, a sua piedade eucarística; mas, fundamento e guia foi a sua devoção à Nossa Senhora, à sua Mamãe do céu. Era o que recordava, em uma de suas conferências, o amigo Marco Beltrano Ceppi, depois anexada ao Processo Apostólico (Summ, p. 296).
“Se vocês me perguntassem qual era o meio seguro sobre o qual ele se apoiava para realizar uma assim constante obra-prima de vida intimamente unida a Deus, eu não hesito em lhes responder que o segredo da perfeição espiritual de Pier Giorgio deve ser buscado, de modo especial, na sua assídua, sincera profunda e terníssima devoção à Virgem Maria. Nós todos, que vivemos alguns anos próximos a Pier Giorgio, não podemos separar sua lembrança da lembrança de seu amor filial à Maria”.
O Padre Karl Rahner, sj, que conheceu Pier Giorgio na década de 20, na Alemanha, num testemunho narrado pela irmã Luciana Frassati, no livro Mio fratello Pier Giorgio. LA FEDE (“Meu irmão Pier Giorgio. A FÉ”), escreve:
“Na época, Pier Giorgio tinha vinte anos. Uma de suas paixões era Dante… E o trecho que repetia, sempre com entusiasmo e de memória, era a oração de São Bernardo à Mãe de Deus: ‘Virgem Mãe, filha do teu Filho’. Pier Giorgio, que sentia um profundo amor por sua mãe, era naturalmente levado a venerar, com ternura indizível, a outra Mãe do céu…” (p. 199). “Em Freiburg, eu me admirava quando o via rezando, em voz alta, o terço no seu quarto. Então, não podia compreender muito bem: um jovem do nosso tempo, antes que amar verdadeiramente o rosário, deve possuir uma bela piedade” (p. 229).

2 – A devoção à Nossa Senhora

A irmã Luciana, no Processo Apostólico, depôs assim sobre a devoção de Pier Giorgio à Nossa Senhora, verdadeira luz e apoio no seu caminho de fé:
“Pier Giorgio teve uma devoção instintiva, que foi crescendo sempre mais com o passar dos anos, à grande Mãe, a Virgem Maria. Ele sentia todo o seu fascínio… As flores eram sua homenagem mais calorosa e mais evidente. Em toda lugar em que a Virgem seria festejada, lá aparecia Pier Giorgio com o seu ramalhete – às vezes, enorme…”.
Ela também recorda que Pier Giorgio logo criou o hábito de ir em peregrinação aos Santuários Marianos. Os dois preferidos no Piemonte eram os de Oropa e da Consolata. Em Turim, o de Maria Auxiliadora. Muitos sacerdotes e amigos sublinham o mesmo fato.
Em 1918, pediu e obteve, freqüentando o “sociale” de Turim dos padres jesuítas, a inscrição na Congregação Mariana, consagrando-se, assim, de modo especial à Santíssima Virgem.
A propósito da devoção à Nossa Senhora Negra de Oropa, o Reverendo Padre Cesário Borla relembrava no Processo Informativo: “Ficou-me impresso na alma a lembrança do gozo e da alegria com que tomou parte nas festas para a coroação de Nossa Senhora de Oropa, que se deu pelas mãos do Legado Pontifício, S. Ex.a Cardeal Valfré di Bonzo (28 de agosto de 1920). Depois de ter assistido a mais de uma Missa e de ter comungado, dedicou-se inteiramente a ajudar os organizadores dos festejos tanto quanto podia. Passou o dia inteiro no Santuário, do qual só saiu quando a noite descia sobre o vale… Nunca ia a Pollone sem ir visitar o Santuário de Oropa, para onde se dirigia, muitas vezes a pé, fazendo uma peregrinação de cerca de duas horas” (Summ. Introd. Causae, p. 161s).
A irmã Luciana ainda relembra que, se o dia de Pier Giorgio começava com a Missa e a Comunhão, prosseguia, como é próprio de um bom terceiro dominicano, com a recitação do Ofício de Nossa Senhora e terminava sempre com a reza do santo terço, estivesse ele em casa ou no refúgio da montanha.
Podia, às vezes, acontecer-lhe, tomado pelo cansaço, de dormir durante a recitação. Numa tarde, coincidiu que o pai o achou adormecido com o terço na mão. Encontrando-se com o pároco, de quem era amigo, assim se expressou: “Mas, o que senhores fizeram do meu filho? Imagine que o encontrei na cama, adormecido com o terço na mão!”
Respondeu o piedoso e prudente sacerdote: “E o senhor preferiria, Senador, que ele dormisse com algum namorisco por perto?”. “Ah! Isto não!”.
“Então, deixe-o continuar com seu estimado costume. Certamente, não terá que se arrepender disso!”.
Cultivava no jardim da casa de Pollone plantas de coyx lacryma e levava os grãos para as Irmãs Franciscanas Angelinas, a fim de que fizessem terços que ele se alegrava em dar aos amigos para estimulá-los a esta oração.

3 – De joelhos no Santuário de Loreto

Entre os Santuários Marianos que ele visitou está também o Santuário de Loreto, que guarda a santa Casa de Nazaré, onde Maria Santíssima recebeu o anúncio da Encarnação do Verbo de Deus e onde disse o seu SIM.
Luciana Frassati lembra que o fato se deu no final de agosto ou em 1º de setembro, antes de ir a Assis (2-5 de setembro de 1919). Eis como o relata em seu livro Mio fratello Pier Giorgio. LA FEDE :
“Em Loreto, por exemplo, certa manhã, não o encontramos mais no hotel. Começamos a procurá-lo por toda parte e acabamos por encontrá-lo já na igreja, sozinho, ajoelhado sobre o frio degrau do altar.
Tinha sentido uma atração tão forte pela casa de Nossa Senhora, a ponto de não suportar mais ficar na cama e num quarto como nós” (p. 213).
Sobre esta visita à casa de Nossa Senhora, fala também o Padre Robert Claude, sj, no seu livro: Frassati parmi nous (“Frassati entre nós”):
“Certa manhã, em Loreto, seu companheiro de quarto que o busca em vão, acaba por encontrá-lo na basílica, ajoelhado junto ao altar-mor, como que a fazer – assim parece – sua ação de graças. Quis se aproximar dele, mas algo o reprimiu, uma emoção o deteve: ‘Não saberia dizer o que aconteceu comigo naquele momento. Eu o senti tão magnânimo e tão acima de mim…’” (p. 15).
De sua oração humilde e insistente e de uma meditação dos mistérios do santo rosário e dos exemplos da Santíssima Virgem, ele hauriu o impulso não só para uma ascensão rumo à santidade, mas também para um zelo apostólico intenso.
Estava inscrito na Obra da Propagação da Fé, desde os primeiros anos da juventude, e se empenhava a dar a conhecer aos amigos a verdade da fé.
Seu companheiro e depois sacerdote Padre Giovanni Bertini depôs no Processo Apostólico:
“O espírito de apostolado era vivo nele. Aproximava-se de muitas pessoas, especialmente dos colegas universitários, aos quais levava sempre uma palavra de fé e de esperança, com muita doçura e amabilidade, sem assumir ares de quem quer se fazer de mestre, mas, no entanto, com muita firmeza”.
Em agosto de 1923, o tio Pietro Frassati que, embora honesto, sempre se recusara a seguir as práticas da fé cristã, estava agonizando.  Pier Giorgio precipitou-se para junto dele e conseguiu persuadi-lo a receber a visita do sacerdote e, em seguida, com lágrimas nos olhos, também os santos sacramentos. Escreveu sobre isso ao amigo Antonio Severi, aos 20 de agosto de 1923, comentando o fato com estas palavras de humildade e orgulho cristão:
“Deus, certamente na sua infinita misericórdia, não levou em conta meus inumeráveis pecados, mas escutou minhas orações e aquelas de minha família, e concedeu ao tio a grande graça de receber com plena consciência os últimos Sacramentos.
Creio que esta vida deve ser uma preparação contínua para a outra, porque nunca se sabe o dia, nem a hora da nossa morte” (Lettere o.c., p. 178).
Não há palavras mais apropriadas para encerrar estas reflexões sobre a devoção à Nossa Senhora, inspiradora e guia do Beato Pier Giorgio Frassati numa vida de fé e de zelo apostólico, do que aquelas pronunciadas por João Paulo II no Angelus de 20 de maio de 1990, dia de sua solene beatificação:
“Caros jovens, convido-os a imitar o exemplo de novo Beato. Saibam, também vocês, se recolherem muitas vezes na oração e na meditação ao lado da Mãe do Redentor, para fortalecer a fé e para inspirar, no modelo de vida de Maria Santíssima, o seu serviço a Cristo e à Igreja. Assim, vocês saberão se empenhar com entusiasmo e alegria na nova evangelização, para encontrar as soluções que respondem às exigências da vida espiritual e civil deste nosso tempo”.

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